Emily Henry é o grande destaque deste suspense sutil que poderia ser mais efetivo.
Por Fernando Grisi
Em uma minúscula e pacata cidadezinha no interior da Irlanda, o comércio se baseia quase que exclusivamente na pesca e criação de frutos do mar. É um daqueles lugares onde todos se conhecem, cenário de inúmeros suspenses. Aqui, acompanhamos Aileen (Emily Watson), mulher de meia idade que trabalha como supervisora no locam onde se limpam os peixes. Um dia, sem nenhum aviso, seu filho (Paul Mescal), que havia saído da cidade há um tempo atrás, retorna para casa. Não vou contar muito mais sobre o plot, porque fui sem saber praticamente nada sobre o filme e achei que minha experiência foi melhorada por isso. Mas algo ruim acontece, e seguimos Aileen lidando com sentimentos conflitantes a respeito do que se passou e da decisão que tomou. Não assisti ao primeiro longa metragem das realizadoras norte americanas, “The Fits”, de 2015, então este foi meu primeiro contato com seu estilo de direção. Talvez o filme tenha me parecido uma estreia também por ser realmente o primeiro roteiro de longa escrito por (outra dupla) Shane Crowley e Fodhla Cronin O’Reilly.
Realmente é perceptível uma certa “herança” de roteiros de curta metragem aqui, porque o ritmo do filme é mais lento do que precisaria para fazer o suspense funcionar, e os momentos mais intensos, que não são tantos, estão mais concentrados no terceiro ato do filme. Esta história poderia, na minha opinião, ser melhor aproveitada em um filme de no máximo 40 minutos. Mas tenho certeza que muitos vão gostar desse ritmo mais “devagar”, que leva bastante tempo para construir uma ambiência enervante e misteriosa, passando quase metade do filme nessa construção. Esta é uma obra “pequena” e sutil, e que está tentando ser exatamente isso.
Enquanto assistia ao filme na sessão da Quinzena dos Realizadores, não consegui deixar de lembrar de “Lamb”, de 2021, também da A24. Assim como no filme Islandês, este é um mistério sutil, que alguns podem entrar esperando algo mais voltado para o terror, mas provavelmente sairão decepcionados. Não gosto muito de Lamb pelos mesmos motivos que não me deixaram gostar tanto de God’s Creatures. Os dois fazem parte do que parece ser uma nova onda do suspense/mistério, que busca analisar a psique dos personagens a um nível muito mais brando do que o terror psicológico vem fazendo, por exemplo. E, mais uma vez, essa é uma crítica que contém (não sem embasamento) opiniões pessoais, então é uma questão de pesquisar sobre e ver se o estilo do filme tem chance de te agradar. Pessoalmente, apesar de gostar muito quando o cinema usa suas sutilezas, também tendo a preferir quando as intenções do filme se fazem um pouco mais claras. Não cristalinas, mas o suficiente para saber o quê está acontecendo na narrativa. Quando assisti tanto a Lamb quanto a este longa, me encontrei esperando muito tempo por uma compensação que chegou de uma maneira insatisfatória. Penso que quanto menos informações temos sobre os personagens e o quê eles estão sentindo, mais difícil é para nós nos conectar com eles e nos importar com o quê lhes irá acontecer. Mas isso é relativo. Como disse, muita gente adorou esses dois filmes, e não existe certo ou errado aqui.

Feitas as críticas mais “pesadas”, vou comentar sobre o quê eu gostei na produção. E até que não foi pouca coisa. Primeiramente, e mais importante, o retorno de Emily Watson. Duplamente indicada ao Oscar de melhor atriz, tem seu rosto muito conhecido apesar de estar meio sumida de produções maiores. Este filme praticamente orbita ela, e todos os acontecimentos são do ponto de vista de sua personagem, Aileen. Disse antes que o longa é repleto de sutilezas, e se o texto e as batidas não são muito claros em contar o que exatamente está acontecendo na história, as expressões faciais da atriz são o que há de mais intenso acontecendo na tela. Paul Mescal também está ótimo. Para quem, como eu, o conheceu como o atleta sensível Connell na série “Normal People”, é interessante o observar interpretar um papel com certas semelhanças mas que subverte o que achávamos que sabíamos sobre esse tipo de personagem, que acabou já ficando atrelado ao ator. Achei uma sacada bem legal das Diretoras. Há também a presença de uma personagem importante, Aisling Franciosi, atriz que eu não conhecia mas que está, apesar de limitações do texto, dando uma ótima interpretação coadjuvante.
A Trilha Sonora também é muito boa, de Danny Bensi e Saunder Jurriaans, usando flautas enervantes e uma percussão desconfortável que além de criar um clima moroso tem um ritmo que fica na cabeça por dias. A Direção de Fotografia tem ideias bem interessantes, gosto muito de como a abertura do filme, e outras cenas pontuais, foram filmadas, mas na maior parte dele não há nada de muito inventivo sendo feito pelo departamento. O Diretor de Fotografia, aliás, é Chayse Irvin, que fotografou o álbum visual “Lemonade”, da Beyoncé. O mesmo pode ser dito sobre a Direção de Arte, em relação à execução das ideias, já que trabalha muito bem criando essa atmosfera cinza, fria e suja da cidadezinha sem nome, especialmente no que diz respeito a cenografia (criação de cenários). Os créditos da Arte são de Inbal Weinberg e sua equipe.
O destaque, pra mim, entre os pontos positivos, é a Direção. O que me incomodou em God’s Creatures foi principalmente o Roteiro, mas as duas Diretoras fizeram um bom trabalho com o material. A criação de atmosfera é eficiente, você realmente se sente dentro dos ambientes, e se sente mal com o que eles representam. Isso não é, obviamente, fruto do trabalho somente da direção, mas a equipe foi claramente muito bem instruída e dirigida. A direção de atores também funciona bem dentro da proposta, com interpretações mais sutis e sempre parecendo estar um tom a menos do que a cena pede. Algo que não me agradou tanto, mas, de novo, foi parte da proposta.
God’s Creatures poderia ter ido mais a fundo ao trazer seu comentário social atual e sempre relevante (que não vou comentar para não entrar em spoilers, mas tem a ver com a “cultura da violência”), e é um pouco focado demais no sentimento de sofrimento e tragédia que atravessa a vida dos personagens principais. Mas tem interpretações muito fortes (com grande destaque para Emily Watson), uma atmosfera de suspense que cria um mundo no qual qualquer coisa assombrosa e inesperada poderia acontecer (mérito das áreas técnicas), e tem, no fim das contas, um final que nos faz perceber onde a história queria nos tocar, mesmo que não tenha tido tanto sucesso em sua demorada jornada até lá.
Sei que esta crítica pode ter ficado um tanto confusa, comigo defendendo a obra em um momento e logo depois a criticando, mas confusão foi exatamente a sensação que tive ao sair da sessão do filme em Cannes. E penso também que, assim como aconteceu com Lamb, todos vão ter que assistir ao filme e tirar suas próprias conclusões, sejam elas positivas, negativas, ou algo no meio do caminho.
Nota: 6,6
Deixe um comentário