Por Ryan Carmo.
De tempos em tempos temos o privilégio de nos deparar com filmes que instantaneamente sabemos que no futuro serão aqueles que definirão toda essa geração de lançamentos do cinema (pelo menos numa ótica mais popular do consumo de filmes).
A intensidade de Whiplash (2014), a megalomania de Interestelar (2014), o frenesi de Mad Max: Estrada da Fúria (2015), a magia de La La Land (2016), a humanidade de Moonlight (2016), a inventividade de Homem-Aranha: No Aranha-Verso (2018), a universalidade de Parasita (2019), e a culminação de Vingadores: Ultimato (2019) são elementos que potencialmente exemplificam um eventual registro desses filmes no imaginário popular, (entre outros, claro).
E com “Tudo em Todo o Lugar Ao Mesmo Tempo”, a A24 traz um projeto que dá justamente a sensação de que, se devidamente vendido e compartilhado, será mais um desses que transcenderão espaço-tempo e serão eternamente lembrados como os filmes que definem o século 21.

Tudo começa com um caos, mas um caos familiar, um estabelecimento de realidade inicial da intimidade e das intrigas que envolve as relações dos personagens e que não perde tempo com cenas individuais, já num mesmo pacote esboçando os núcleos e conflitos que se desencadeiam ao decorrer da trama.
E quase que simultaneamente, a narrativa já dá pistas de seus elementos de sci-fi em meio a toda a introdução dos personagem, mas é só quando estamos a caminho do primeiro conflito imposto no rumo deles que de fato nos é apresentado o conceito com suas devidas características e especificidades.
Pode-se argumentar que o conceito é uma mistura de várias pequenas referências a particularidades ficcionais de outras obras prévias, mas mais do que isso a forma como se articulam e se colocam em prática tais ideias é algo muito precioso e refrescante, esbanjando um mar de inventividade e criatividade para levar o enredo para lugares dos mais inusitados e proporcionando momentos no mínimo incomuns.
Além disso, o tom que é dado para pensar em como todos esses aspectos vão influenciar a progressão narrativa é muito sagaz: um humor muito próprio, autorreferencial, que começa de forma mais reativa, mas que eventualmente cede à galhofa, muito seguro do quão encaixadas e coesas são suas ideias, e muito destemido de realizar uma escalada à esta excentricidade cheia de subversões.

A montagem é outro fator que enriquece e traz uma harmonia desses elementos entre si ao produto final. A direção da Dupla Daniels dá a sensação de que um enorme tempo de planejamento foi necessário para colocar em prática essa articulação e estruturação dos vai-e-vem’s da narrativa, e muito disso é refletido pela dinamicidade e precisão da edição. Tanto em ritmo, quanto em alternância de núcleos e universos, há uma meticulosidade muito essencial na montagem para que o filme resulte em algo tão bem-sucedido.
Também não se pode deixar de se comentar a grande eficácia que é a combinação entre as diferentes partes do elenco: desde a presença ameaçadora de Jamie Lee Curtis, até o olhar sugestivo de James Hong. Mas os grandes destaques são Ke Huy Quan, com seu contraste de personalidades cômico e muito didático; a fria e maquiavélica persona de Stephanie Hsu, que também é muito exigida em versatilidade e jogo de cintura; e claro, de Michelle Yeoh, que é em quem o público agarra as mãos para se imergir nessa alucinante jornada, e que com muito carisma, e identificabilidade proporciona grande parte da construção da credibilidade dramatúrgica do filme.
Por fim, é fundamental realçar que não só de forma vive “Tudo em Todo Lugar Ao Mesmo Tempo”.
Norteando todo esse conglomerado de insanidades espaço-temporais, está uma história sobre as relações conflituosas de uma mulher com sua família e consigo mesma. Um constante exercício de suposições comportamentais e existenciais sobre os rumos que Evelyn tomou para si, e para onde isso a levou. E o enredo não tem vergonha de tomar tempo para se dedicar à resolução devidamente desenvolvida de cada um desses núcleos, e nem com o quão subversivo e peculiar serão esses momentos. Talvez numa ótica a grande escala do que isso signifique para o ritmo do filme essa escolha possa soar prejudicial, mas o carinho com que são tratadas tais resoluções de conflitos não só “justificam” o clímax mais extensivo, como dá beleza e vigor à elementos que anteriormente haviam sido estabelecidos como galhofas. Um verdadeiro ponto fora da curva em storytelling.
“Tudo em Todo o Lugar Ao Mesmo Tempo” não só possui um valor de entretenimento renovador e milimetricamente concebido, como é um filme tematicamente bem resolvido, encontrando um equilíbrio alucinante entre forma e conteúdo, e prometendo se tornar um filme a ser lembrado pelas próximas gerações de assistidores de filmes, seja em pequena ou em grande escala.
Nota: 10/10
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