Encerrando Cannes, diretora de “First Cow” entregou mais um drama sutil, com Michelle Williams interpretando uma reclusa artista plástica.
Por Fernando Grisi
* Leia até o final, tenho uma mensagem importante nos últimos parágrafos*
Showing Up foi o último filme que assisti em Cannes. Deixei de ver o vencedor da Palma de Ouro, Triangle of Sadness, para que pudesse conferir o mais novo trabalho da Kelly Reichardt. A sessão ocorreu logo depois da cerimônia de premiação, aliás, então foi literalmente o último filme a ser exibido no Festival.
Foi também, dentre os filmes da A24, o que mais gostei. Além de “Funny Pages” senti que não tive muita sorte com os outros três que assisti da produtora. Aqui temos, como em todas as obras de Reichardt, um drama bastante sutil, minimalista, low key. Michelle Williams é Lizzy Carr, uma artista plástica introvertida que trabalha com esculturas em Portland. A trama (aliás, quase que uma “anti trama”), segue Lizzy se preparando para uma exposição de suas obras. O filme, no entanto, está interessado em analisar todas as pequenas ações da protagonista, assim como seus relacionamentos e eventuais acontecimentos que causam distrações em seu preparo para a grande exposição, e não grandes eventos e nem mesmo discussões super relevantes sobre Arte. Por exemplo, Lizzy está sem água quente em sua casa (o que se torna uma piada recorrente), e fica constantemente cobrando sua locadora, Jo, que é também sua “amiga”. Na verdade, as duas se formaram juntas, mas há um certo ressentimento por parte de Lizzy, pois a “amiga”, interpretada por Hong Chau, está sendo mais bem sucedida em sua carreira de artista. E ainda assim elas mantêm uma relação amigável, pois não é como se Lizzy tivesse outros amigos ou pessoas com quem conversar.
A narrativa extremamente despretensiosa não me incomodou em nenhum momento. Mas se você for do tipo que precisa de motivações fortes por parte do protagonista para atingir seu objetivo, ou de acontecimentos dramáticos bem pontuados, é possível que não goste tanto deste longa como eu gostei. Para mim, foi suficiente vislumbrar a ótima interpretação de Michelle Williams enquanto sua personagem simplesmente vagava pela cidade realizando as tarefas mais simples, mas necessárias para a experiência. Ela trabalha na faculdade onde se formou, (sendo secretária de sua mãe inclusive) utiliza o chuveiro de lá para ter água quente, vai para casa, trabalha em suas esculturas, cuida de seu gato, e no outro dia tudo se repete. Colocar dessa forma faz parecer uma experiência maçante, mas a personagem criada por Reichardt me transmitiu tanta verdade e me conectei tanto com sua personalidade que poderia ter ficado pelo menos mais uma hora acompanhando-a em suas atividades rotineiras.

É verdade que, entre os longas-metragens que assisti da mesma diretora, este é o que chama menos atenção. Não é tão espirituoso quanto “First Cow”, nem tão impactante quanto “Certain Women”, mas há uma alma, uma aura aqui que faz com que você assista ao filme totalmente investido, mesmo sem estar esperando nada específico ou muito significativo acontecer. Penso que isso se deve ao grau de realismo que o roteiro (co-escrito por Jonathan Raymond) aplicou a esta história. Para se ter uma noção, o acontecimento mais significativo narrativamente, por assim dizer, é o aparecimento de um pombo ferido no apartamento da protagonista. O pombo é também uma metáfora muito boa que permeia toda a narrativa até adquirir um novo significado no desfecho. E é assim, com pequenos símbolos, pequenos gestos e metáforas que o filme nos guia em direção a um “nada”, mas um “nada” significativo. Espero que faça sentido quando assistirem, porque sei que agora essa frase ficou completamente absurda.
Aqui o que interessa são as relações sutis entre os conhecidos e familiares de Lizzy e como ela lida com eles. Nunca entendemos o porquê dela ser tão reclusa, ou “pra baixo”, somente a vemos parecer cansada a todo momento (talvez por isso tenha me identificado tanto com a personagem). Mas apesar de bastante simples, as trocas de diálogos entre Lizzy e os outros personagens nos levam a entender que ela é apenas alguém que está tentando fazer o seu melhor. Fazer o trabalho que gosta, enquanto lida com as expectativas que ela mesma criou, além de sua família um tanto quanto disfuncional. E há um pequeno arco aqui, quando seu irmão entra em cena, que faz a artista ficar dividida entre dar mais atenção a sua família ou dar mais atenção a si mesma. E, assim como ocorre na vida real, sempre temos a sensação de que não estamos dando atenção o suficiente para alguma das partes.
No fim das contas, “Showing Up” (aparecendo, em tradução livre) pode ser lido como uma história sobre realmente aparecer, sobre estar presente. Seja isso em relação à arte que você realiza, ou em relação às pessoas, mesmo que essa pessoa seja você. Particularmente consegui me conectar muito bem com a trama que Kelly Reichardt construiu aqui, achei a personagem bastante cativante, mesmo não sendo carismática, e as situações me deixaram pensando sobre as mais diversas questões, tenham elas sido propositalmente plantadas ou não. Adorei a cena cultural/artística nada extravagante que foi retratada no longa, e mesmo que a maioria das cenas (o final, inclusive) tenham sido até bastante previsíveis, não acredito que poderíamos esperar nada menos de um filme de Kelly Reichardt. E ainda bem, pois não gostaria de ter passado por uma experiência diferente desta. Showing Up não é uma obra onde a diretora deu seu máximo, mas mesmo assim está longe de ser um filme ruim. Aproveitei cada segundo.
E assim chegamos ao fim da minha cobertura do Festival de Cannes 2022. Consegui assistir a 13 filmes durante os 3 dias que passei na Riviera francesa, 5 deles foram da A24. Não foi necessariamente a cobertura mais completa, ou a mais rápida do mundo (o festival acabou há mais de um mês), mas espero que tenham gostado de saber mais sobre os filmes da A24 exibidos no festival, já que a maioria provavelmente demorará bastante para chegar aqui no Brasil.
Queria também aproveitar para deixar aqui um agradecimento. Mesmo não tendo participado do Festival como imprensa, pela A24 Brasil (o que gerou até leves tretas no twitter rs), acredito de verdade que escrever com paixão sobre meu trabalho no portal na minha carta de apresentação foi um fator determinante para que conseguisse minha credencial. E esse trabalho só foi possível primeiramente graças ao Leo, criador da página, que me enxergou como alguém que poderia ajudar a A24 Brasil a crescer e trazer discussões relevantes para cá, e por isso sou muito, muito grato. E é claro que nossa página só pode ser considerada relevante porque existem pessoas que interagem com ela. Então meus agradecimentos também a você, que está lendo isso agora. Às vezes se torna muito difícil escrever ou produzir qualquer coisa para o portal, ainda mais algo mais elaborado. E como ainda estou começando a me aventurar em textos maiores, como as críticas, é fácil ficar inseguro e apreensivo com a recepção delas. Mas pensar que existem (muitas) pessoas que se importam e gostam do que fazemos aqui é sempre um ótimo incentivo. Por isso é tão importante que haja uma interação. Então peço para que, sempre que for possível, e se quiser, deixe algum comentário por aqui, ou mesmo na página do Twitter ou do Instagram, com feedbakcs, ideias, sugestões, reclamações, o que quiser. Afinal, tudo isso está sendo feito para você.
Nota: 7,8
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