Chega ao fim a nova minissérie da HBO em parceria com A24

Por Julia Paes

Na mais nova colaboração das duas empresas, a A24 se junta novamente com a HBO para produção da minissérie Irma Vep, baseada no filme de 1996 de mesmo nome, ambos roteirizados por Olivier Assays. Nela, acompanhamos a vida da famosa atriz Mira (Alicia Vikander), que não parece contente com o rumo que sua carreira está tomando depois de atuar em filmes mais comerciais. Imersa nesse contexto, aceita uma oportunidade que poderá mudar o rumo de sua carreira ao participar do cult remake de “The Vampires”, um filme mudo de 1916, que se intitulará Irma Vep. Já na França para gravar seu novo trabalho, algumas engrenagens começam a funcionar de maneira diferente e Mira passa a ter comportamentos mais próximos de sua personagem, uma vampira ladra e sedutora. 

Poster de Irma Vep © HBO

Em um trabalho sobre o mundo das produções cinematográficas, a metalinguagem aqui fica explícita desde o primeiro instante. Com um conhecimento notável da cultura pop atual, Olivier Assays, logo no início, compara o novo filme de Mira com as saturadas grandes produções de super heróis na atualidade e ironiza os filmes da Marvel, digna de piadas internas de grandes diretores de arte. Sobra até para a clássica confusão dos atores de “Harry Potter” (Dumbledore) e “O Senhor dos Anéis” (Gandalf).

   A todo o momento somos levados mais para o  fundo das movimentações que acontecem no interior do mundo do entretenimento: os jogos de poder, as vantagens que a fama traz, as inseguranças atrás de grandes figuras e tantos outros detalhes. Fica escancarado para o público a competição de ego de atores por trás das câmeras, com birras e requisições sem precedentes. Sem medo, explicita-se situações que são mascaradas pelo glamour dos tapetes vermelhos e holofotes vendidos diariamente. 

Alicia Vikander como Mira © HBO

Alicia Vikander, que também participa da produção executiva da série, tem seus créditos na obra. Entrega uma atuação singela, contida, na medida certa, transmitindo a sensação de estarmos sendo convidados como amigos pessoais a acompanhar sua vida corrida como uma atriz famosa. 

O caminho de Mira e Alicia parecem se encontrar em alguns aspectos. A fama e seu ônus ligam  as duas mulheres, a da ficção e a da vida real. Logo no início da minissérie, a temática debatida é a privacidade dos famosos: tal como um moeda de troca, os atores são levados a abrir mão de sua liberdade para poderem seguir seus sonhos. Fica perceptível em seu olhar, a solidão que a protagonista vive apesar da imensidão de pessoas a qual ela se relaciona diariamente. Ao viajar para a França, andando com uma clássica vespa nas estreitas vielas parisienses, Mira encontra um mundo distante da correria de Los Angeles, e sente-se mais em casa.

 Particularmente, um dos pontos altos da minissérie é o retrato trazido de René Vidal,  um diretor marcado por inseguranças como artista e uma vida pessoal um tanto mal resolvida. Em alguns momentos, acompanhamos o diretor em suas sessões com a psicóloga.  Ali vemos uma autobiografia de Olivier ao falar de seus medos e conflitos internos ao se expor de maneira crua. Por tamanha pessoalidade, talvez seja um dos enredos mais interessantes de acompanhar ao longo da série. A agonia que ele sente ao estar no set de gravações, a falta de tato para demandar seus interesses, vontades artísticas que não cabem mais no mundo moderno. Uma das cenas que mais impacta envolvendo o diretor, em conversa com a realidade de Assays, é a alucinação que René tem com sua antiga companheira de poucos anos, antiga musa de seu filme, ligação direta com Olivier e Maggie Cheung, protagonista de “Irma Vep” de 1996. Nesse momento, a realidade se entrelaça com a ficção, o real, de maneira muito explícita, alimenta a narrativa e enriquece a metalinguagem proposta desde o início do projeto. 

Alicia Vikander como Irma Vep © HBO

    Olivier Assays busca encontrar um público mais amplo com a atual versão de Irma Vep, ainda mais com a distribuição pela HBO. Entretanto, o ritmo em que a série foi escrita não é para todos. Em certos momentos, os episódios se tornam arrastados, histórias de personagens que não chegam a impactar o desfecho da obra tomam espaço em tela, transmitindo uma sensação que a protagonista tem minutos roubados em cena. Por esse motivo, a popularidade esperada pode não corresponder às expectativas, nem mesmo com a aparição especial da querida de Hollywood, Kristen Stewart.

    Outro ponto que poderia ter acrescentado na narrativa seria a fotografia da minissérie. Em cenas rápidas podemos ver enquadramentos com ângulos diferenciados e transições que remetem a obras antigas. No momento que acompanhamos o trabalho final dirigido por René, consegue-se notar uma fotografia mais elaborada, em que a colorização das cenas se aproxima das produções do início do cinema, com brancos mais estourados e imagens com granulados. Estas são as cenas mais interessantes de acompanhar ao decorrer dos episódios, mas infelizmente não são muito valorizadas em tempo de tela.  A chance de trazer cenas marcantes, por estarem em um dos berços de um cinema estético amplamente reconhecido pelo público cinéfilo, é lamentavelmente perdida.

    Acaba-se com a sensação de que faltou algo, mas ao olharmos a obra por inteiro, as feridas que cada pessoa carrega em seus corações se fazem presentes e fica explícito a dificuldade de superar mágoas de um amor. Por esse motivo, ser artista para alguns facilitaria processos, talvez ajudaria nas dores de outros; no entanto, ser artista no mundo moderno tem seu preço. O básico direito de ir e vir tem que ser abandonado. Ao longo de Irma Vep vemos que apesar dos holofotes, com todo o seu glamour, a solidão e tristeza são dores que os artistas carregam para dentro de seu trabalho, assim obra e artista se tornam um só. A arte imita a vida, ou talvez, a vida imita a arte.

Nota: 6,5

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