Por Matheus Britto
Os slashers tem sido uma parte fundamental da história do cinema de terror há décadas. Mesmo lidando com os altos e baixos que refletem momentos bem específicos de uma indústria que não sabe quando parar, o subgênero sempre esteve procurando por meios que o permitissem apostar na reinvenção, mantendo aquela essência tão familiar responsável por consagrar filmes como O Massacre da Serra-Elétrica (1974) e Halloween (1978) como clássicos e ainda continuar dialogando com o contexto no qual cada nova geração consumidora estava inserida. Diante disto, não é de se estranhar que Ti West, que tem demonstrado predileção por combinar sua abordagem com as características mais marcantes de cada período, tenha escolhido o final dos anos 70 como cenário para X – A Marca da Morte.
Ambientado especificamente em 1979, em uma fazenda isolada no interior do Texas, o longa-metragem segue um grupo de aspirantes a artistas que está reunido para produzir um filme pornográfico, que ambiciona mexer com os parâmetros da própria indústria da época. Após um primeiro encontro inicialmente hostil com Howard, proprietário da locação, as filmagens seguem normalmente até o cair da noite, quando tem início a luta pela sobrevivência. É desta forma que West, em uma história simples e que demonstra bastante interesse em ser como os clássicos das décadas de 70 e 80, reúne os principais elementos que até hoje servem como base para tantas produções.

Dado pontapé para uma história cujo desfecho conhecemos até determinado ponto devido a uma sequência inicial que insere um quadro dentro do outro enquanto acena à metalinguagem, o cineasta foca na construção de uma atmosfera de suspense que antecede o banho de sangue propriamente dito, tecendo uma rede de referências às suas principais fontes de inspirações, desde o proto-slasher Psicose (1960) à Devorado Vivo (1976). O lento despertar desta violência, que está fechando o cerco entorno deste grupo focado demais no culto a beleza da juventude e reside no cerne do conflito entre gerações, aponta para uma fonte óbvia causadora imediata de todos os problemas: as práticas sexuais.
X então passa a lidar com a combinação entre jovens esbanjando uma sexualidade latente e um casal de idosos que está desesperado por viver os prazeres com os quais estão sendo confrontados pela simples presença deste bando. No entanto, mais do que apenas retomar o sexo como elemento condenatório, como normalmente acontece no subgênero, o longa subverte a função que o mesmo estará desempenhando na trama. Diferente do retratado na época em que Michael Myers e Jason assombravam respectivamente o subúrbio e o acampamento de verão, condenando adolescentes que não consideravam inocentes, aqui West analisa a possibilidade da existência de um novo culpado pela perpetuação deste massacre.

O problema não está na consumação de tais práticas e sim na repressão constantemente potencializada pelo discurso de uma parcela moralista da sociedade, responsável por levar pessoas como Pearl e Howard a viverem distantes emocionalmente enquanto lidam com os delírios de um passado que nunca lhes foi permitido viver em sua plenitude da mesma forma que estes recém-chegados tem vivido. Entre sequências focadas nas filmagens de um projeto que exalta a sexualidade sob uma ótica de “cinema de verdade” e a propagação do discurso de um pastor sobre a boa moral, também transmitido pelos meios de comunicação, X encadeia um diálogo sobre o falso moralismo e a libertação da imagem em sua forma verdadeira.
De certa forma, em sua primeira hora, enquanto prepara terreno para matança, o longa acaba não focando apenas em conceber uma atmosfera, mas também em trazer um pouco de humanidade a estas figuras, trabalhá-las sem abandonar os principais contornos dos arquétipos mais convencionais deste subgênero enquanto utiliza do conservadorismo como denominador comum. Sim, a maioria ainda morrerá exatamente da maneira como esperamos que aconteça em um slasher como este, mas não há por que não mostrar um pouco mais sobre quem são essas pessoas, afinal devemos nos importar com eles, mesmo naqueles breves minutos que antecedem os seus já antecipados destinos.

Após a primeira morte, no entanto, o longa abandona parte desta atmosfera, afastando-se da análise do “quê” deste painel para focar no “quando” cada morte estará acontecendo. Tendo em mãos assassinos bem delineados e uma contagem de corpos prestes a ser iniciada, West não demonstra estar preocupado com qualquer possibilidade de soar previsível quanto as decisões que precisa tomar nesta segunda parte, focando na parte gráfica desta violência infligida entre gerações e na exaltação honesta aos tropos tão familiares deste subgênero. Surge então um ato final que, diferente do que os antecessores estavam fazendo, deixa de ensaiar as referências as inspirações para abordá-las mais diretamente, seguindo um ciclo de morte + emboscada que acaba por se repetir por vezes até demais.
Embora perca um pouco daquele olhar interessante que evoca logo durante os primeiros minutos, ao acenar para o falar sobre cinema enquanto faz cinema, quando decide assumir definitivamente a postura de um slasher favorecido pelas convenções do subgênero e a familiaridade que há entre abordagem e as inspirações, X – A Marca da Morte termina com um saldo que acaba pendendo para o lado positivo. Com uma bagagem cada vez mais extensa no terror, tendo contemplado do trash ao pânico satânico e agora o slasher, Ti West se consagra como um nome promissor através de um filme de “quases” que consegue embalar as imperfeições de seu ato final com boas referências.
Nota: 8,0

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