Por Matheus Britto

Nascemos com uma complicada missão sobre nossos ombros. Ao primeiro choro, quando somos recebidos nos braços daquele que está mais próximo na sala de parto, ainda não estamos cientes desta questão, e nem mesmo durante os primeiros anos de vida, época em que tudo é traduzido em uma doçura infantil sem limites. No entanto, posteriormente descobrimos que lidar com expectativas e anseios faz parte da composição de uma longa e árdua jornada identitária. Stephen Karam não só compreende a presença deste fardo como parte da existência das relações humanas, como também buscou abordá-lo duas vezes, primeiro em formato de peça teatral e então através de um longa-metragem.

Quando a ausência passa a ser sentida em uma intensidade assombrosa, o que sobra para ser mencionado naquele discurso pomposo feito à mesa do jantar de Ação de Graças? Em uma sequência que passeia pela reunião em andamento, estudando cada membro desta família através das palavras e do ato seguinte que consiste em martelar um porco de brinquedo que está dentro de um envelope de pano como forma de expressar as emoções, Karam aponta para uma resposta a esta questão. Ora inclinado ao sensorial ora direto ao ponto até demais, The Humans busca oferecer um retrato sobre como tem sido absurdamente fácil se esconder deste vazio ao invés de confrontá-lo. Parece, em um certo nível, que se tornou comum aprender desde cedo que o fingimento é um remédio melhor do que simplesmente confirmar que nada está bem.

Richard Jenkins e Jayne Houdyshell em The Humans ©A24

O longa nos transporta à um momento e espaço específicos, bem delineados para desenvolver uma história que tece, através da universalidade das temáticas abordadas, uma linha condutora entre estes personagens e o público. No coração de uma Nova York pós-11 de setembro, longe dos famigerados desfiles do feriado de Ação de Graças, há um apartamento em condições longe das ideais que está sediando um encontro que está além das meras formalidades de “pais conhecem a nova casa da filha com o quase marido”, sendo quase conflituoso devido aos sentimentos e expectativas que ambos os lados depositaram nesta tentativa de retomada de uma parcela dos velhos costumes e da possibilidade de desfrutar de lembranças do passado.

A sobriedade visual, somada a notável ausência de itens pessoais fundamentais a concepção de uma identidade que possibilite o reconhecimento de quem são estes recém-chegados ocupantes, favorece a construção de uma atmosfera claustrofóbica, com uma constante ênfase no falso acolhimento da situação. Eles querem aceitar esta farsa bem elaborada de que ainda são uma família feliz, mas sem abandonarem as barreiras e a bolha de individualidade que criaram para se manterem sempre protegidos diante do menor sinal de ruptura das relações. Nem mesmo a conversa mais banal, como a falha tentativa de interpretação dos sonhos bizarros, encontra força o bastante para afastá-los deste temor; embora compartilhem os mesmos cômodos, suas mentes estão longe, presas nos próprios quartos escuros contemplando a vida que existe do outro lado da janela.

Richard Jenkins, Jayne Houdyshell, Steven Yeun, Beanie Feldstein e Amy Schumer em The Humans ©A24

Contudo, o principal problema de The Humans surge justamente no terreno das ideias. Nesta transposição de teatro para cinema, Karam parece estar à vontade o bastante para abraçar o mundo dos temas familiares, mesmo que posteriormente demonstre não ter tanta certeza quanto ao que fará com cada um deles. A subdivisão do drama quando acrescida de elementos que visam brincar com o suspense nesta atmosfera claustrofóbica demonstra ser uma decisão prejudicial da metade em diante; o que antes era apontado com sutileza passa ser utilizado de uma maneira um tanto quanto artificial, com um interesse muito maior estando em dar espaço para um encerramento que reafirmará que a complexidade das relações familiares não será solucionada após um jantar, mesmo com todos os seus altos e baixos das quase explosões emocionais.

The Humans termina por ser um experimento científico que imediatamente nos insere na posição de observadores voyeuristas, afinal estamos atravessando todas estas barreiras para adentrar não apenas este apartamento, como também o cerne dos problemas familiares e individuais com os quais estes personagens estão buscando por uma forma de lidarem, embora não saibam como. Apesar de uma ou outra escolha mal posicionada, é no olhar tocante concentrado na deterioração simultânea que o longa encontra o êxito que precisa, dialogando com temáticas tão universais e íntimas, presentes de uma forma assustadoramente próxima da cadeia de relações interpessoais que entrecortam nosso própria dia a dia.

Nota: 7,0

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