O sonho por trás de “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo” é mais antigo do que muitos podem imaginar. O longa, que começou a ser gestacionado ainda durante a época que os Daniels estavam participando da turnê de imprensa de “Um Cadáver para Sobreviver”, lidou com altos e baixos durante este longo processo devido aos lançamentos de outros tantos filmes com premissas semelhantes, como é o caso de “Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis”, que também bebeu da fonte de clássicos de artes marciais. Por ironia do destino (ou não), até mesmo a inspiração máxima da dupla, o aclamado “Matrix” de 1999, ganhou uma continuação neste meio tempo.

Assim como aconteceu no clássico dirigido pelas irmãs Wachowski, que encontrou em Neo o protagonismo ideal, em “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo” temos uma protagonista cuja percepção gradual de que a realidade é mais complicada e flexível do que parece é parte de sua jornada.

Durante uma entrevista com a Indiewire, a dupla comentou sobre todo processo de criação, inspirações, insatisfações com outros longas de ficção-científica e possíveis censuras durante a distribuição.

Michelle Yeoh em Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo ©A24

“Este filme é 100% uma resposta a Matrix”, declarou Dan Kwan em entrevista. “Queríamos fazer a nossa própria versão. Foi uma loucura, foi como ‘nós demoramos tanto que as Wachowski nos venceram”.

No entanto, os Daniels compareceram ao cinema para assistirem “Matrix Resurrections” ano passado, com sua própria versão de homenagem ao clássico ainda no bolso, e sorriram diante de um minidebate sobre os resultados. “Eu adorei”, declarou Kwan. “Sei que é uma bagunça, mas havia o suficiente para eu ser realmente feliz”, acrescentou Daniel Scheinert, “Acho que há um filme ‘Matrix’. É um dos melhores filmes já feitos”.

Sua resistência à sequência recente pode ser vista como sendo parte de sua própria navegação através desta indústria. “Não sou fã de muitas séries ou trilogias”, disse Scheinert. “Adoro uma experiência que começa e termina bem. Não preciso de mais um ‘Duro de Matar’. Tenho ‘Duro de Matar”.

Se a dupla acabar lidando com algum IP preexistente, seria uma escolha tão sedutora e até mesmo estranha quanto seus próprios filmes originais. Kwan disse ter uma lista com possíveis sequências que ambos poderiam dirigir, e a única que realmente os empolgou foi uma proposta para Paramount sobre uma continuação da comédia romântica “Como Perder um Homem em Dez Dias”.

Através de uma lente crítica, que também aparece em seus filmes, a dupla demonstra inclinação para falar sobre os muitos sucessos de bilheteria que os inspiraram. “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo”, por exemplo, foi uma resposta a outros filmes de ficção-científica do Multiverso que os incomodavam. “Minha preocupação é viajar no tempo quando você a introduz e apenas faz um pouquinho como se não fosse grande coisa”, disse Scheinert. “Seria um grande negócio! Como se a lógica falhasse e o tempo não avançasse e um milhão de pessoas pudesse voltar no tempo um milhão de vezes, haveria um caos absoluto”.

A reinicialização de “Star Trek” de 2009 o irritou devido a reviravolta da trama envolvendo o Multiverso. “Quando os universos de ‘Star Trek’ se sobrepuseram e havia dois Spocks, fiquei tipo ‘Ok, se eu estivesse lá, ficaria tão filosoficamente assustado com mais do que isso’. Ficava tipo, ‘Que horas são?’ Sempre parece uma oportunidade perdida”.

Como esperado, o resultado final era que os Daniels estavam desenvolvendo estes mesmos conceitos de uma forma que consideravam como sendo melhor desde o início. “Então pudemos simplesmente jogar fora qualquer coisa que não estivesse funcionando”, confirmou Scheinert. “Respeito as pessoas que são capazes de jogarem na caixa de areia de outra pessoa, mas isso é meio intimidante porque se há uma base de fãs pré-existente para um personagem, e uma tradição, uma mitologia, e não tenho permissão para jogar fora algo que não está funcionando, isso parece duro”.

Stephanie Hsu, Michelle Yeoh e Ke Huy Quan ©A24

Após a primeira exibição do novo longa-metragem da dupla no SXSW, a sessão de perguntas e respostas, que se estendeu por mais de 30 minutos, funcionou como um excelente termômetro sobre o que estaria aguardando a chegada da produção nas salas de cinema nas semanas e meses seguintes. “Estou lisonjeado e honrado, mas adoro que o filme possa falar por si e estou muito esperançoso de poder calar a boca e deixar isso acontecer”, respondeu Kwan, quando questionado sobre questões de trauma intergeracional e violência contra a comunidade da AAPI. “Não sei se queremos ser os envolvidos nisso, mas este filme criará muitas conversas, seja ou não parte dele. É muito importante falar sobre essas coisas, mas às vezes me sinto mal equipado”.

Um dos aspectos mais importantes da narrativa de “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo” envolve a sexualidade Joy (Stephanie Hsu). Embora na época ainda não tivesse uma distribuição confirmada em território chinês, a dupla demonstrou certeza quanto a um lançamento que só poderia acontecer com censores que permitissem a permanência desta questão na trama. “Não depende de nós se o filme será lançado na China, mas tudo o que dissemos foi que você não pode cortar a história gay”, disse Scheinert. “Isso é tudo o que dissemos ao pessoal da distribuição estrangeira”.

“Se eles tivessem que censurar outras coisas, e tivéssemos uma história gay por aí, ficaríamos muito emocionados”, acrescentou Scheinert. “O filme não funciona sem”, concluiu Kwan.

Carregado por inspirações em outros tantos clássicos do cinema e com uma história tocante de uma mãe e sua filha, “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo” tem comovido por onde passa. Após sua chegada nos cinemas brasileiros, o longa já está disponível para aluguel na Prime Video.

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