A24 e Netflix se unem para apresentar uma das melhores séries do ano.
Por Fernando Grisi
O humor, quando bem articulado, pode ser também uma importante ferramenta de denúncia, e também de transformação social. Muitas pessoas acusam a polêmica entidade do “politicamente correto” de estar tornando a comédia covarde e não “engraçada de verdade” (quando sabemos que os defensores do “politicamente incorreto” estão na maioria das vezes querendo palco para ideias nocivas e preconceituosas disfarçadas de piadas). No entanto, a grande safra de séries cômicas criadas por minorias que alcançaram o patamar de excelência nos últimos anos mostraram que, ao abordar situações de suas vidas cotidianas, que nem sempre seriam vistas com engraçadas, existe uma possibilidade de ampliação das fronteiras do humor que não se pensava com séries de comédia mais “tradicionais”, e certamente não pelos opositores da comédia que ousa sair do lugar comum e de piadas ofensivas para causar o riso.
Fleabag, Atlanta, Insecure, mesmo Ramy(série da A24 criada e protagonizada por Ramy Youssef, que é cocriador de Mo), são algumas dessas séries que de certa forma reinventaram o modo de se fazer comédia, criando uma trend própria no cenário das séries norte-americanas. Além do fator autoral muito presente nesses exemplos(onde o criador é geralmente o produtor, roteirista e até protagonista dessas histórias, o que ocorre aqui), eles também compartilham o fato de não serem categorizados estritamente como comédias. Fazendo parte assim das cada vez mais famosas dramédias: produções que mesclam elementos de drama à uma narrativa cômica. Essas séries vêm caindo no gosto tanto do público quanto da crítica, e Mo veio para agregar ainda mais ao gênero.

A série possui um teor bastante autobiográfico, pois conta a história de Mo (interpretado por Mo Amer), um Palestino que acaba passando a infância no Kuwait e depois fugindo para os Estados Unidos por conta da Guerra do Golfo. Acompanhamos o protagonista 22 anos depois, em Houston, ainda esperando pela autorização do pedido de asilo para ele e sua família (composta por sua mãe, Yusra, interpretada por Farah Bsieso e seu irmão Sameer, vivido por Omar Elba). Sua irmã, Nadia, interpretada por Cherien Dabis se casou e teve um filho com um Canadense e vive legalmente nos EUA. A premissa é relativamente simples, pois a cada episódio acompanhamos Mo em sua vida cotidiana. Ele tem uma namorada filha de Mexicanos que é católica, o que gera um conflito por parte da mãe de Mo, que não aprova a religião da garota por ser algo que impossibilita o casamento entre os dois. E assim nos é apresentada uma situação não recorrente na televisão: um preconceito em relação a religião católica partindo de uma personagem islâmica(toda a família de Mo, inclusive ele, segue a religião). Isso é interessante pois mostra como as minorias são, acima de tudo, “pessoas comuns” e que apresentam, em maior ou menor escala, os mesmos problemas e conflitos daqueles personagens mais tradicionalmente retratados em suas situações rotineiras. Obviamente temos abordagens de temas mais pesados e atrelados a estas minorias nos episódios, mas é interessante ver tais minorias ocupando espaços dramáticos que até pouco tempo se reservavam quase exclusivamente à personagens brancos, por exemplo.
Como pincelei no início, dramédias são muito boas para fazer pertinentes comentários e críticas sociais, tratando de temas muito sérios através da lente do riso, ainda que seja um riso por vezes desconfortável ou contraditório. Aqui somos apresentados a uma narrativa protagonizada por personagens Palestinos, povo que se encontra há muito tempo em estado de alerta em relação a seu território (e suas vidas), e que são muitas vezes invisibilizados pela mídia e vilanizados sob a ótica dos conflitos Palestina X Israel (sendo que, objetivamente, este é um conflito no qual um dos lados possui uma clara vantagem política e bélica, e assume um papel de opressão em relação ao outro país), mas isto requer uma discussão muito maior que não irei promover agora. Ainda que toda a situação Palestina seja terrivelmente periclitante, não estamos falando de uma série de drama. Assim, somos apresentados a estas situações muito difíceis, seja quando revisitamos o passado traumático dos personagens ou quando acompanhamos Mo tendo que vender produtos falsificados para sobreviver, mas sempre acompanhadas de muito humor, o que não faz com que tais temas deixem de ser socialmente relevantes, mas torna Mo extremamente prazerosa de se assistir.
Acredito que tal mérito tenha sido alcançado, principalmente, através do roteiro (que foi escrito por muitas pessoas, com Mo Amer tendo sido o responsável pelo primeiro e último episódio), mas também muito por mérito de Amer, que criou e interpretou um personagem incrivelmente carismático, engraçado e “humano”. Mo (o personagem), é um jovem que só quer cuidar de sua família e passar tempo com seus amigos e sua namorada. Apesar de seu trauma o fazer pensar que precisa estar no controle o tempo todo, e isso o afastar um pouco das pessoas que ama, Mo encara as situações de sua vida, mesmo as desagradáveis, com otimismo e leveza. O personagem consegue nos divertir com suas piadas e seu jeito um tanto debochado, ao mesmo tempo que nos apresenta camadas mais complexas de sua personalidade, relacionadas ao luto familiar e frustrações que são infelizmente comuns para imigrantes vivendo nos Estados Unidos da América. A própria questão Palestina consegue ser mencionada sem deixar o clima da série pesado, novamente por mérito do protagonista, que mesmo sofrendo sempre transforma uma oportunidade de se entristecer em uma chance de ser sarcástico e nos fazer rir com ele (nunca dele). Como nesse exemplo que ocorre em um diálogo dos primeiros episódios, entre Mo e outro personagem, que traduzi livremente:
“Eu sou Palestino”
“Onde é isso?”
“Palestina, sabe? Jerusalém…”
“Ah, Israel.”
“É, esse é um problema sério de branding.”

Mo Amer disse em uma entrevista que não tinha interesse em criar uma série “tradicional”, com histórias “A, B, e C”, que separam as narrativas dos personagens (e é o que traz o caráter episódico às séries), mas quis fazer sua série de uma maneira que passássemos mais tempo com cada pessoa nos episódios. E funcionou. É comum percebermos que alguns personagens não aparecem muito em alguns episódios, mas apenas para que no episódio seguinte sejamos surpreendidos por um quase protagonismo destes. Gostei muito desse estilo narrativo, e fiquei pensando no quão pouco ele é utilizado, infelizmente, ao menos no mainstream. Além de ser mais eficiente para criar uma conexão emocional entre o público e os personagens, esse “protagonismo pontual” dos coadjuvantes até mesmo ajudou a dar mais relevância às subtramas e conectá-las melhor à história “principal” de Mo.
Confesso que não esperava gostar tanto desta série (talvez por não ser o maior fã de Atlanta), mas nem preciso dizer que Mo foi uma grande e positiva surpresa. Não consegui encontrar praticamente nada que não gostei na série. Isso é algo raro, especialmente para mim, e acredito que reforce ainda mais o poder que esse gênero que mixa drama e comédia têm em nos fazer sentir, simplesmente sentir, muitas emoções em um grande espectro.
Mo é uma série incrivelmente bem escrita e dirigida, que nos emociona na mesma medida em que nos faz rir (e que alta medida). O elenco de apoio é fortíssimo, tendo quase sem exceções seu momento de brilhar e “roubar a tela” ao longo da série, e o protagonista é extremamente bem desenvolvido. Mesmo muito engraçado e descontraído, o jovem Mo transmite de maneira muito eficiente os desafios e decepções de ser uma minoria vivendo no país que muitos julgam erroneamente ser excelente em todos os sentidos. Com seu grande coração e sagacidade cômica, posso dizer que Mo (aqui falando tanto sobre a série quanto sobre o personagem, que não compartilham o mesmo nome à toa) é uma das melhores séries que assisti nos últimos anos.
Se tivesse que fazer uma crítica negativa seria para o fato de que sua curta duração deixa um pouco a desejar no que se diz respeito a relacionamentos entre certos personagens, e algumas situações propostas pelos roteiristas acabaram sendo percebidas por mim como apressadas demais, não deixando tempo suficiente para se absorver seu conteúdo. Mas o fato de os episódios passarem rápido é algo muito positivo e possibilita a possibilidade de uma maratona muito agradável. Por isso espero muito que Mo seja renovada para mais uma temporada, para poder revisitar esses personagens e universo tão rico (até porque temos um grande gancho ao final do último episódio, e seria frustrante ficar sem saber o quê ainda está por vir).
Vale lembrar que o melhor que você pode fazer é assistir à série e tirar suas próprias conclusões. Mas fica a minha recomendação de qualquer maneira. Se gosta de dramédias no estilo de Atlanta, ou de comédias que não deixem de trazer uma crítica social, tenho certeza de que Mo te fará sentir algo especial, te fazendo rir e refletir no mesmo episódio. Algumas vezes na mesma cena.
Toda a primeira temporada, com seus 8 episódios, está disponível na Netflix.
Nota: 9,2

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