Por Julia Paes

Moonage Daydream inicia uma odisseia imersiva para o universo artístico que David Bowie deixou como herança. Com a direção de Brett Morgen (“Cobain: Montage of Heck”), o documentário conta com imagens inéditas do Rockstar em cima dos palcos e em sua intimidade, em que o próprio narra reflexões sobre a vida e seus processos criativos. Apesar do experimentalismo das cenas extravagantes, aceitamos com facilidade navegar pela mente criativa de um dos maiores artistas do século 20 desde o surgimento de sua carreira até os últimos anos. 

Ao longo das duas horas e quinze torna-se claro o legado deixado, não só para o mundo da música, como para o meio artístico como um todo, e também seu impacto no campo social. Para os fãs, é definitivamente uma carta de amor repleta de cenas novas trazendo camadas inexploradas do artista, e para os amantes da arte, um deleite para os olhos e ouvidos.

Still do filme “Moonage Daydream” © Universal Pictures

A viagem começa com a voz de um dos mais conhecidos britânicos, Bowie, falando sobre Nietzsche e deus, e, de certo, estamos entrando numa jornada banhada pelo existencialismo do artista. O cantor se tornou um expoente do Rock, misturando sua voz única e acordes cheios de identidade, com sua aparência andrógena e roupas instigantes, seria ele um deus da música ou um ser elevado de outro mundo? E assim sua jornada artística inicia, com meninas e meninos se encantando por aquela figura mítica que havia pousado na terra. Enfim nasce Ziggy Stardust, arrebatando milhões de adoradores. 

Still do filme “Moonage Daydream” © Universal Pictures

A edição do filme é de cair o queixo. As cenas dos shows antigos do cantor, incrivelmente conservadas, trazem cores deslumbrantes numa alternância da platéia e a figura mítica de Bowie. Em algumas situações, aparecem em tela referências importantes para o artista, tanto no cinema, como na filosofia, bem como momentos históricos que impactaram sua arte. Numa montagem alternada entre cenas abstratas e cenas reais se constrói o caos necessário para a arte dele.

Still do filme “Moonage Daydream” © Universal Pictures

Bowie entendia os acontecimentos que circundavam o seu período e buscava transpassar isso em sua arte. Ao longo da obra diversas imagens indicando referências importantes para o cantor são mostradas em cena, vemos: cenas de filmes, filósofos que impactaram seu ponto de vista, pessoas que influênciavam sua composição. Em outras partes, sinalizam ao telespectador o contexto histórico no qual estava inserido. Com isso, vemos que sua maior inspiração era a vida a sua volta, seja buscando uma realidade na qual ele não gostava em Los Angeles ou a vivência dura que se tinha em Berlin Ocidental ou então do otimismo encontrado na sua passagem pelo Japão.

Afinal de contas, David Bowie era um deus ou um alienígena? Na verdade, entendemos que o cantor era muito mais humano em suas criações do que se poderia imaginar. Se doou para a arte de maneiras mais inusitadas, suas roupas excêntricas, maquiagens extravagantes, cabelos que chamavam a atenção, Bowie era a própria definição da forma artística. Não se conteve apenas com a composição de músicas, quando essa não era mais suficiente, se debruçava sobre novas formas de produzir arte. O artista também tinha medos, refletia sobre a solidão na qual vivia, trazia consigo questianamentos sobre deus, anarquizava padrões de comportamento e enxergava a vida de uma forma linda. Enfim, David Bowie era mais mundano que jamais imaginávamos e através da odisséia que Brett Morgen elaborou se torna um prazer acompanhá-la.

Nota: 8,5

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