Por Fernando Grisi
O ano é 1823. O reino africano do Daomé (onde atualmente se encontra o país Benin) está em uma guerra não declarada contra o império Oyó, que tem com este uma relação de opressão. “A Mulher Rei” (“The Woman King”) pretende contar a história verídica ainda pouco conhecida das Agojie, exército de elite do Daomé formado inteiramente por mulheres. Viola Davis é Nanisca, a Miganon (General) das Agojie. Extremamente habilidosa, implacável e inteligente, ela lidera as guerreiras em ataques contra os Oyó, que frequentemente sequestram pessoas de outras regiões para vendê-los como escravos aos traficantes europeus (portugueses, aliás).
O filme tem um alinhamento muito marcante com o gênero de ação. E isto é algo importante de pontuar, porque, se você estiver buscando por uma história um tanto mais estimulante intelectualmente, ou mesmo tematicamente, pode acabar ficando um tanto decepcionado. Isso não é de maneira alguma um demérito do filme. Na verdade, ele se confirma como uma ótima opção de entretenimento para apreciadores de épicos históricos, ainda adicionando uma camada de representatividade e novidade muito bem vinda para o gênero. No entanto, aqui há uma questão moral, principalmente ligada a esta da escravidão que comentei acima, que não é muito bem explorada. Na verdade, o filme às vezes parece tentar abafar o fato de que o império do Daomé também comercializava escravos, assim como seus rivais Oyó. E que esta atividade era aquilo que fazia deles uma nação rica e próspera. A personagem de Viola Davis chega a conversar algumas vezes com seu rei Ghezo (interpretado muito bem por John Boyega), que deveriam parar de praticar esse tipo de comércio e focar na comercialização de produtos. No entanto, tal assunto é pouco discutido e quando recebe alguma menção acaba nos levando a enxergar o Daomé como um escravizador “do bem” e os Oyó como escravizadores “do mal”.
Decidi já comentar sobre um assunto mais “polêmico” para poder discorrer melhor sobre os outros aspectos do filme. E gostaria de começar exaltando a atuação de Viola Davis como Nanisca. Não sei se alguém chegaria a pensar que Viola Davis poderia estar atuando mal em algum papel, mas talvez haja uma certa desconfiança por estarmos falando de um longa de ação. Mas o que acontece realmente é que ganhamos um show de atuação de sua parte. O crítico Tiago Belotti, ao falar sobre ela há alguns anos atrás, a descreveu como uma “leoa”, e não poderia concordar mais com essa afirmação, ainda mais faland sobre este papel. Ela é incrivelmente potente, seja usando sua imponente voz ou somente seu olhar, e entrega um leque muito amplo de emoções durante o longa, passando da brutalidade ao afeto e da raiva à frustração. É sempre um prazer imenso observar essa atriz trabalhando, ainda mais quando não parece que o está fazendo. Ainda está cedo para especular sobre chances de prêmios, mas se decidirem indicar Viola Davis para melhor atriz por sua performance em “The Woman King”, não ficaria nem um pouco frustrado. Sua personagem, apesar de não apresentar conflitos internos muito complexos, tem um tratamento muito cuidadoso e, na minha opinião, com o número de camadas o suficiente para nos fazer sentir empatia por ela e desejar que ela seja bem sucedida em todas as suas decisões, nos campos de batalha mas também fora deles.

Ainda sobre as atuações, talvez seja possível argumentar que Viola não está ocupando a posição principal de protagonismo no filme. Claro, é a personagem dela que dá título a produção, mas aquela com a qual realmente nos conectamos inicialmente e acompanhamos toda a sua jornada de amadurecimento é Nawi, interpretada por Thuso Mbedu. A personagem de Thuso é dada por seu pai de presente ao rei, por se recusar a casar com qualquer pretendente que sua família tenta conseguir para ela. Rebelde e independente, Nawi parece realmente se encontrar quando, no palácio, começa a treinar para se tornar uma Agojie. Apesar de sua falta de disciplina, sua vontade de não se submeter à vida doméstica e de fazer parte daquela comunidade de mulheres falará mais alto, fazendo-a se tornar uma guerreira habilidosa. O filme, aliás, tem um foco muito grande no treinamento de Nawi e das outras mulheres que foram resgatadas dos Oyó e levadas para o palácio do Daomé. E, apesar de deixar a experiência um tanto quanto cansativa (o filme é longo, e é possível sentir sua duração em vários momentos), são nos momentos de treinamento onde temos as melhores interações entre personagens. O quê faz com que a narrativa pareça um pouco alongada demais talvez possa ser o número de batalhas e cenas de ação, que apesar de serem bem executadas, não são tão bem distribuídas. Temos principalmente três cenas de ação muito impactantes, mas como uma delas ocorre logo no início do filme, ficamos aguardando as próxima ansiosamente, e elas acabam demorando a chegar. Porém, entre um confronto violento e outro, ganhamos a chance de explorar melhor as relações entre as personagens, que são também muito interessantes.
Nawi é aquela que nos representa naquele universo novo, pois assim como ela não conhecemos nenhuma das Agojie muito bem, e por essa questão também penso que ela pode ser considerada a protagonista do filme, pois é aquela que tem o arco mais bem definido. Sua relação com a personagem de Viola Davis é muito boa de se acompanhar, apesar de seguir batidas previsíveis. Nawi é a jovem recruta rebelde, que tem dificuldade em obedecer ordens e quer fazer as coisas de seu jeito, e Nanisca é a general que a repreende por seu comportamento mas nunca chega a tomar nenhuma ação disciplinar muito drástica por enxergar na jovem um grande potencial. Há também um subplot envolvendo as duas que funcionou bem pra mim, no qual ambas conseguem transmitir maior grau de emoção, mas não vou comentar mais aprofundadamente pois se trata de um grande spoiler do filme. Nawi se aproxima também de Izogie, que para mim é a melhor personagem do filme. A personagem, interpretada por Lashana Lynch é responsável pelo treinamento das futuras guerreiras do Daomé, e acaba desenvolvendo uma relação muito bonita com Nawi. É através da carismática Izogie também que temos acesso ao alívio cômico do longa, que funciona até que muito bem. Sua interação com Nawi mas também com as outras Agojie rende momentos engraçados mas também de grande intensidade emocional. A performance de Lynch só não foi minha favorita porque é muito difícil competir com Viola Davis, mas adorei sua personagem.

Sobre os aspectos técnicos, não achei a direção muito inspirada, mas também não acredito que haja nada de tão errado nisso. As cenas de batalha, por exemplo, apesar de não experimentarem maneiras mais inventivas de se mostrar a ação, são eficientes e proporcionam alto nível de entretenimento para os apreciadores do cinema de ação. O filme custou aproximadamente 50 milhões de dólares para ser realizado, um orçamento relativamente alto, e o material que recebemos mostra que os gastos foram bem aplicados. Todo o trabalho de Arte, seja nos cenários ou figurinos, é muito bem feito e possui uma atenção especial nos detalhes, principalmente os figurinos (também não reclamaria se estes recebessem uma indicação ao Oscar, que seria merecida ao meu ver). A Arte é definitivamente um dos pontos altos de “A Mulher Rei”. Há uma forte presença da trilha sonora aqui, que é assinada pelo Terence Blanchard (“Da 5 Bloods”). As composições são muito intensas, como seria de se esperar de um épico, com muitos tambores e instrumentos de sopro, além de trazer também um coro que adiciona profundidade e emoção às músicas. Só senti que o uso da música em si foi um tanto previsível. Era possível adivinhar em quais momentos a trilha subiria para nos fazer sentir algo, e sempre alinhada com as batidas emocionais de cada cena. Este aspecto é outro exemplo de algo que não é ruim (é exatamente por isso que se utilizam trilhas nos filmes, para evocar emoções), mas não deixa de ser somente mais do mesmo do que já vimos inúmeras vezes em outros filmes de ação. Houve a utilização de vários complementos gráficos em CGI que não me incomodaram em nenhum momento. É possível perceber que a escala das batalhas não eram realmente tão grandes em set quanto quiseram fazer parecer no produto final, mas não houve um uso de computação gráfica que tenha me afastado da experiência épica aqui proposta. O filme foi gravado em locações na África do Sul e isso fez muita diferença. Fiquei muito feliz que não optaram por tentar criar somente cenários africanos em estúdios de Hollywood. As paisagens são belíssimas e o uso das locações é muito bem pensado. A fotografia, contudo, acaba impressionando mais pelo que consegue retratar apenas por estar imersa em ambientes muito bonitos do que pela inventividade e habilidade da Diretora de Fotografia Polly Morgan de realmente criar uma identidade marcante na maneira de contar a história visualmente. A edição em alguns momentos é um pouco super utilizada, na minha opinião. Creio que o filme se beneficiaria de planos mais longos, mais pacientes, mas, de novo, nada que tenha me tirado da experiência.
Por fim, disse que o assunto polêmico tinha ficado para trás, mas preciso fazer mais um apontamento sobre algo que pode ser um outro causador de controvérsia. Voltando um pouco no que comentei sobre o alinhamento da produção para uma noção de “escravizadores do bem” e “escravizadores do mal”, o filme coloca estes dois impérios, o Daomé como o bom e o Oyó como o mal, para se enfrentarem durante todo o filme. E, obviamente, isso tem embasamento histórico. Não vou reclamar e dizer que o longa não me agradou por contar uma história verídica, nem por causa de aspectos específicos que gostaria que fossem diferentes. Esta é a história que ganhamos, baseada em acontecimentos reais. No entanto, fiquei imaginando que para um filme com uma proposta tão empoderadora que dá protagonismo a mulheres negras, toda a questão da escravidão no filme poderia ter sido tratada com um pouco mais de cuidado. E não pude deixar de imaginar como o “The Woman King” poderia ter trazido uma mensagem de empoderamento negro nesse contexto ao promover uma luta dos africanos contra seus verdadeiros oproessores, ao invés do que realmente recebemos: uma luta entre dois impérios africanos que foram manipulados por portugueses. É importante ressaltar que os reinos do Daomé e de Oyó mostrados no filme não foram colonizados pelos europeus. Eles na verdade firmavam parcerias com os países da Europa, acordos comerciais, inclusive o comércio de pessoas negras. No entanto, sabe-se que na época da colonização africana pelos europeus, estes aplicavam técnicas para criar rivalidades e conflitos entre impérios e tribos diferentes, para que assim os colonizados estivessem preocupados demais se enfrentando para perceberem que possuíam um opressor em comum e se juntarem para enfrentá-lo. Obviamente não quer dizer que todos os africanos na época eram completamente bondosos, justos e democráticos (alguns reinos possuíam o costume de escravizar pessoas mesmo antes da chegada dos europeus a suas terras). Mas, já que o filme naturalmente precisa criar um recorte histórico, e como já foi criticado por alguns historiadores por não dar uma atenção muito grande a certos aspectos históricos importantes da época, adquirindo um caráter quase que revisionista, creio que poderiam ter optado por ir para uma direção que trouxesse realmente um maior empoderamento e uma mensagem menos ambígua e problemática no que diz respeito a escravidão e tráfico de escravos. O filme faz menção, como disse no começo do texto, à vontade do reino do Daomé em se afastar do tráfico de escravos, adicionando assim uma camada de bondade e benevolência ao reino do Daomé, mas que no fim das contas, serve somente para que no final tenhamos uma mensagem próxima à rasa “escravidão é ruim”.

Bom, agora sim o assunto foi todo esgotado. No geral, apesar de ter falado muito sobre polêmicas e aspectos não tão positivos sobre o filme, ele conseguiu me agradar bastante. Não é revolucionário de nenhuma forma, mas é uma ótima pedida para quem procura por um entretenimento de alta qualidade. “A Mulher Rei” entrega um épico histórico com uma boa dose de ação, trazendo uma representatividade importante e que não estamos acostumados a ver no cinema mainstream e em gêneros como este. Teria funcionado melhor para mim com uma abordagem menos ambígua sobre a questão da escravidão e tráfico de escravos, mas ainda assim é muito legal ver um elenco majoritariamente negro e feminino fazendo um trabalho tão bom e importante. Espero que o longa faça ainda mais sucesso, que gere discussões relevantes e promova a possibilidade do público de se identificar e se emocionar com a narrativa. Foi muito bom ver neste filme que Hollywood está conseguindo caminhar em uma direção diferente, ainda que a curtos passos.
Nota: 7,4
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