Por Matheus Britto

Tudo começa através de uma maldição, ou pelo menos é isso que a doutora Rose Cotter (Sosie Bacon) passa a acreditar quando todas as respostas lógicas deixam de serem plausíveis para seu caso. Dedicada ao trabalho que desempenha em um hospital psiquiátrico local, reafirmando que o faria de graça se assim fosse necessário, a protagonista precisa lidar com as consequências de um giro de 360º em sua própria vida após presenciar um incidente traumático durante uma consulta de última hora. Com eventos traumáticos do passado e acontecimentos bizarros no presente rumando para o que aponta ser uma inevitável colisão, passa a ser apenas uma questão de tempo até que ela seja a próxima vítima do que quer que estivesse perseguindo sua antiga paciente até aquele consultório.

“Sorria” é um terror urbano cuidadosamente embalado com elementos do sobrenatural que, como muitos outros lançados antes, estabelece uma fácil e rápida associação entre o que a protagonista está enfrentando e uma realidade que não é tão distante da do próprio público. Para Parker Finn, nesta estreia na direção de seu primeiro longa-metragem, um demônio – ou o que quer que esteja perseguindo sua personagem de acordo com a lógica que conduz esta narrativa – deixa de ser apenas isso quando existe a possibilidade de contar uma história que possa aprofundar outra temática, embora esta decisão não seja tão bem encaminhada quanto poderia. Ecoando outros tantos filmes que abordaram síndromes e transtornos psicológicos, a produção encontra através deste aspecto sua abordagem mais inteligente e seu principal erro.

Sosie Bacon em still oficial de “Sorria” ©Paramount Pictures

Lembra quando “A Corrente do Mal”, lá em 2014, percorreu o subúrbio norte-americano para especular sobre os horrores perpetuados por uma ameaça invisível rondando a vida adolescente em desenvolvimento longe de qualquer controle parental? “Sorria” resgata este conceito e o insere em um cenário de arranha-céus e longas avenidas, espaço que acentua a presença da solidão enquanto uma força opressora que pode esmagar sua protagonista em um piscar de olhos. Neste sentido, Finn sabe muito bem como pretende seguir adiante, trabalhando um olhar enfático quanto as situações de desconforto e medo nas quais Rose encontra devido à incerteza causada pelas alucinações. Sorrisos assustadoramente próximos da câmera, mudanças rápidas nas expressões daqueles que estão próximos, e sugestões da presença do mal estabelecem uma atmosfera de crescente tensão.

Em meio a estes acontecimentos perturbadores e que não poupam a utilização de sangue quando necessário, Bacon reforça o constante estado de insegurança que passa a sufocar sua personagem através de uma performance pontuada pela sensibilidade. Entre gritos desesperados quando ninguém parece estar disposto a escutá-la e acreditar no que está se passando e falas mais calmas, demonstrando o quão envergonhada está diante da reação exagerada, é notável a lenta destruição que a acompanha, partindo de um ponto interno para o externo. Até aceitar o que está acontecendo como realmente é, Rose está desprotegida e sendo incessantemente bombardeada no lugar que sempre buscou manter fortalecido não apenas em si mesma, mas também nos pacientes que tem ajudado noite após noite: a mente.

Caitlin Stasey em still oficial de “Sorria” ©Paramount Pictures

Contudo, a parte de uma boa performance e um olhar convincente, os problemas não demoram a despontarem, principalmente em sua narrativa. “Sorria” tenta expandir o que antes era uma trama contida em apenas 11 minutos para um longa de quase 02 horas, mas sem se preocupar o bastante em desenvolver uma novidade que possa impulsionar o interesse. Torcer para que dê tudo certo para esta protagonista no final de sua jornada é fácil – a bem da verdade, como tantas outras, esta é praticamente uma reação esperada – no entanto gerar interesse e se afastar daquela impressão de “esta história foi contada assim daquela vez e daquela outra e de uma forma muito melhor” pode ser mais difícil e, infelizmente, Finn, mesmo com todo seu entusiasmo para demonstrar o que sabe fazer durante sua estreia em uma direção de maior orçamento, acaba se tornando mais uma vítima desta questão.

Quando pode ir além, “Sorria” retrocede, se contentando em permanecer em um lugar-comum, reproduzindo insistentemente as batidas mais esperadas do gênero até se tornar um daqueles mistérios cujas reviravoltas acontecem exatamente onde e quando se espera. Quando está disposto a dialogar sobre traumas e transtornos psicológicos, é promissor até que começa a permanecer apoiado demais em ser influenciado passo a passo pelo desempenho de nomes como David Robert Mitchell e Gore Verbinski. Uma vez que esta linha é cruzada por definitivo, não há muito o que possa ser salvo em questão de originalidade, sendo esta uma experiência que, embora de fato esforçada, demonstra ser muito menos estimulante quando comparada com qualquer uma que tenha sido proposta por uma de suas principais influências.

“Sorria” poderia ter sido como suas inspirações, um bom acréscimo a este panteão do terror focado em explorar traumas e outras tantas questões sociais, porém ao cair no mais do mesmo, passa a ser apenas mais um em meio a tantos outros lançamentos do quase final de mês. No entanto, seria injusto não pontuar que o longa é um bom exemplo de que no lugar e na hora certa, Parker Finn é um nome promissor para despontar com futuros projetos dentro do gênero. Com seus travellings e outros tantos planos, o cineasta não só demonstra que compreende bem o que está fazendo ao liderar por trás câmeras, como também demonstra ser um bom entendedor das possibilidades que o terror em si pode oferecer.

Nota: 5,0

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