Por Matheus Britto

Em “Morte. Morte. Morte”, o dinheiro é o equivalente de uma máscara polida e bem cuidada o bastante para esconder os ressentimentos e dilemas que ainda perseguem este grupo de amigos de infância. No entanto, para que sua fragilidade possa ser exposta e estes sentimentos venham à tona basta apenas a chegada de um furacão. A tempestade, que era esperada por estes ocupantes de vida despreocupada e que estão na casa dos vinte e poucos anos, os força a permanecerem isolados no interior de uma mansão no meio do nada, e logo o que deveria ser uma noite regada a bebidas alcóolicas, drogas e brincadeiras bobas se transforma em uma incessante luta pela sobrevivência diante das consequências mortais de um jogo que acaba indo longe demais.

O que Halina Reijn propõem juntamente com Sarah DeLappe não é muito distante do que Rian Johnson fez no passado com o surpreendente “Entre Facas e Segredos”. A cineasta e roteirista capturam a essência do que pode ser considerado como um amálgama de inspirações e referências aos clássicos literários da britânica Agatha Christie, contando como sua principal base com “E não sobrou nenhum”, e transportam para um contexto adequado a uma abordagem mais próxima da geração Z. Entre as descobertas de novas vítimas e as acusações disparadas para todos os lados, o longa estabelece personalidades intencionalmente questionáveis com vocabulários abarrotados de termos que poderiam ser facilmente encontrados em qualquer tweet após uma rápida busca.

Still de “Morte. Morte. Morte” ©A24

Ainda em seu texto, “Morte. Morte. Morte” concentra uma vasta quantidade de um DNA emprestado diretamente do clássico “Pânico”, principalmente quando estabelece seu tom satírico e autoconsciente como elementos que serão partes fundamentais à uma dinâmica por trás desta trama de assassinato e mistério. Após a revelação do primeiro corpo, passa a ser apenas uma questão de tempo até que o filme aceite seu lado caracteristicamente cômico, assumindo ser também uma brincadeira que está inserida dentro de outra, reproduzindo apontamentos acerca de uma adolescência que está dando os primeiros passos em direção à vida adulta, mas que ainda está obcecada pelos deslumbres oferecidos pelo mundo das telas azuis dos smartphones e pelo engajamento gerado através de redes sociais como o Tik Tok.

Alice (Sennott), Sophie (Stenberg), Jordan (Herrold), Emma (Wonders) e até mesmo a recém-chegada Bee (Bakalova) – todas bem escaladas para seus papéis – são frutos do individualismo, daquele distanciamento persistente que existe nas relações rápidas e nas interações presentes através das redes sociais e dos aplicativos de namoro. Embora não seja intencional, a paranoia que assume o controle do estado emocional destas cinco personagens após perceberem que estão sozinhas e com recursos limitados se dá devido a uma criação que as manteve inseridas em um mundo de constante ansiedade social. Ansiosas devido a natureza do espaço onde cresceram e sem qualquer sinal de internet para se comunicarem com o mundo exterior, até mesmo a mais inofensiva das sombras cresce para representar uma ameaça ainda mais assustadora do que realmente pode aparentar ser.

Still de “Morte. Morte. Morte” ©A24

Este sentimento adolescente é traduzido para uma atmosfera de estranhamento e toxicidade latentes entre os ocupantes da residência desde o primeiro encontro na beirada da piscina. Enquanto os que se conhecem são tóxicos entre si através de atitudes disfarçadas de brincadeiras inofensivas, todos adotam uma postura de estranheza quanto a personagem de Bakalova, que claramente não pertence a este círculo social. Tanto para Reijn quanto para DeLappe, estas são pessoas mimadas, que querem manter o mundo em que vivem sempre fechado entre os seus conhecidos, perpetuando um ciclo de toxicidade e sorrisos falsos que cedo ou tarde levarão a questionamentos sobre o quão bem os forasteiros, neste caso o próprio público e até mesmo Bee em determinados momentos, os conhecem e podem confiar na verdade de suas palavras.

Como uma versão prolongada do sangrento e corriqueiro terceiro ato de “Pânico”, Reijn filma com um olhar atento, sempre enfática sobre o quanto cada detalhe daquela mansão mergulhada na penumbra pode ser importante posteriormente. Entre gritos assustados e acusações baseadas em evidências que fogem da lógica, a cineasta, como qualquer outro bom diretor de slasher que a antecedeu, está sempre escolhendo o que mostrará de imediato e o que manterá escondido, incentivando o público a manter sua atenção não apenas no que está sendo dito pelas personagens, mas também no que está acontecendo no ambiente ao redor de cada uma delas, sempre questionando o que acontecerá em seguida e quando chegará aquele tão esperado momento do assassino saltando repentinamente de onde menos se espera para então fazer sua próxima vítima da forma mais sangrenta possível.

Com suas personagens cada vez mais histéricas representando pontos diferentes em uma complexa cadeia social e dilemas familiares que expõem a faceta de uma sociedade que está ansiando por uma cura que dificilmente será encontrada, “Morte. Morte. Morte” é um slasher que vem na onda de ser despretensioso. Ele, diferente de muitos dos lançamentos deste ano, não tem vergonha quanto a assumir que é um filme de terror que não só utiliza das convenções mais comuns do subgênero, como também busca renová-las através de uma nova roupagem, adequada a linguagem de uma geração que cresceu acostumada com a digitação rápida dos smartphones. Embora não consiga manter um ritmo constante durante seu ato final, o longa ainda consegue convencer enquanto um bom entretenimento através de tiradas satíricas que divertem e um elenco carismático.

Nota: 7,0

Uma resposta para “Crítica “Morte. Morte. Morte”: brinca de ser slasher”.

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