Por Fernando Grisi
O segundo filme do promissor Diretor Belga poderia ser uma bonita história de amor e descoberta, mas decide seguir por um caminho menos instigante.
Estavam com saudades da cobertura de Cannes? Pois é, na época em que postei as críticas dos filmes da A24 que consegui assistir no festival não incluí Close, longa que tive a chance incrível de assistir em sua Premiere mundial, ou seja, na primeira vez que qualquer pessoa assistia ao filme. O filme foi recentemente exibido na Mostra de São Paulo, então ao menos algumas pessoas no Brasil tiveram a chance de assisti-lo. Por isso acho que não faz mais sentido seguir segurando essa crítica. E pode ser um jeito de matarem a saudades das minhas críticas (mentira, sei que ninguém gosta delas) enquanto não saem as novas do Festival de cinema de Nova York.
Close acabou ganhando o Prêmio do Júri em Cannes, que dividiu com o Stars At Noon da Claire Denis. E a A24, apesar de não ter participado da produção do novo projeto do Lukas Dhont, adquiriu os direitos de distribuição logo após sua exibição. O filme será distribuído pela Mubi aqui no Brasil. E, apesar de continuar sem uma data de estreia por aqui, recentemente foi divulgado o seu primeiro trailer. O filme está inclusive sendo cotado para representar a Bélgica na corrida para o Oscar de melhor filme internacional em 2023. Por isso decidi trazer logo para o site a crítica de Close, já que agora fará parte do belíssimo catálogo da A24, ainda que não como produção original.
O segundo longa-metragem do Diretor Belga (que já havia vencido o prêmio Camera D’or em Cannes em 2019 por sua estreia Girl), abre com uma cena de imaginação. Dois meninos, Leo (interpretado magnificamente por Eden Dambrine) e Remi (Interpretado por Gustav de Waele) brincam fingindo que há soldados cercando sua “fortaleza”. Então eles riem e saem correndo para o campo de Dálias onde a família de Leo trabalha. Pelo que entendemos logo de cara, esses dois garotos possuem uma relação muito íntima. Somos levados a entender, não por meio de diálogos expositivos, o que é ótimo, mas por ações e comportamentos que os dois têm entre si, que traduzem uma amizade que claramente vem de muitos anos atrás.
Tal relacionamento, apesar de muito intenso, e até mesmo bastante físico, não é nada próximo do sexual. O filme nos leva a crer que nenhum dos dois experienciou nada próximo a isso. É uma relação totalmente inocente, como aquelas observadas entre irmãos, pois temos cenas dos dois dormindo na mesma cama, sentados colados na sala de aula, sussurrando um no ouvido do outro e por aí vai. Nenhum dos dois parece se incomodar com isso. Afinal, os dois se gostam, como bons amigos platônicos, e não sentem vergonha de mostrar isso. Até um certo ponto.
Remi e Leo estão entrando na adolescência, então é natural que a inocência da infância comece a se perder e dar lugar às inseguranças e crises tão características desta próxima fase de suas vidas. A necessidade de se encaixar em padrões sociais começa a aparecer, e de repente o que mais importa é aquilo que os outros pensarão sobre eles. E é nesse contexto que, um certo dia, uma garota de sua classe pergunta a Leo se ele e Remi estão “juntos”. Nesse momento, é como se toda a percepção do protagonista sobre sua relação com o amigo tivesse sido colocada em cheque. Ele responde tentando agir naturalmente, dizendo que não, que os dois são apenas muito próximos (daí o título do filme). A garota volta para o seu lugar e compartilha alguns risinhos com suas amigas. Nada disso parece incomodar Remi, mas Leo não consegue parar de pensar sobre essa situação.
Os dois amigos seguem com sua proximidade de sempre, e acho que é um bom momento para falar sobre as atuações. Os dois garotos que interpretam Remi e Leo são incríveis. Mas entre eles há que se destacar ainda mais o trabalho de Eden Dambrine (que é o protagonista, afinal de contas). Close foi sua estreia na atuação, e que estreia! Não parece em nenhum momento que Eden está interpretando Leo, ele simplesmente se tornou o personagem. Costumo reclamar muito de atuações infantis (com razão), mas o quê este jovem ator Belga conseguiu entregar aqui é realmente excepcional. Há momentos em que ele faz algo que serve muito para analisar performances de atores, que é basicamente escutar. A capacidade de um ator de simplesmente interpretar alguém escutando, não falando, andando ou brigando, mas ouvindo, realmente ouvindo, é muito reveladora e difícil de ser encontrada em níveis tão altos quanto aqui. Um exemplo de um desses momentos é quando Remi participa de um recital, e Dhont coloca a câmera em Leo. Por minutos focamos apenas em sua reação silenciosa à sinfonia do amigo, e o resultado, seu ouvir, é extremamente prazeroso e diz muito em seu silêncio.
A interpretação de Gustav de Waele também não fica muito atrás. No entanto, o filme faz questão de não lhe dar um maior protagonismo. Este é o meu principal “problema” com a obra, mas para explicá-lo melhor, infelizmente terei que entrar em território de Spoilers. Então vou colocar um aviso quando estiver prestes a falar algo que possa revelar muito mais sobre a trama. Mas pelo próximo parágrafo seguimos sem spoilers.
Se antes os amigos eram inseparáveis, agora começamos a ver que Leo se sente um tanto desconfortável em demonstrar carinho por Remi em público (e até mesmo em particular). Há o início de um afastamento por parte de Leo, algo que Remi não parece conseguir entender. Este insiste para que as coisas continuem a ser como antes, mas isso já não parece possível para Leo, que teve as expectativas heteronormativas da sociedade já colocadas sobre ele naquele momento em que foi questionado sobre seu relacionamento com o amigo. E aqui cabe adicionar, ao falar de heteronormatividade, que não fica claro, durante o filme, se algum dos dois personagens principais é, de fato, gay. Há várias “pistas” que nos levam a pensar que Remi se sente atraído romanticamente por Leo, mas nada é confirmado. Assim, pode ser que realmente o garoto só quisesse de volta sua amizade platônica inocente, como se recusando-se a crescer e aceitar que a adolescência o faça esconder partes suas das quais gosta. Em uma outra cena, os dois estão na mesma “fortaleza” da primeira cena do longa, mas enquanto Remi tenta usar sua imaginação para atrair Leo para a brincadeira, este o ignora e não embarca na fantasia, deixando-o sozinho nessa, mostrando que já está velho demais para esse tipo de brincadeira. E o afastamento só cresce. Leo mal conversa com Remi na escola. Os dois conseguiram outros amigos, Leo se aproxima de um garoto que pratica Hóquei, e pede para participar do treino com ele, provavelmente tentando se encaixar melhor no que seria o padrão aceitável de um garoto hétero. De modo semelhante, Remi se aproxima de um grupo de garotas da sua sala (um estereótipo de amizade de garotos gays, mas que talvez seja apenas coincidência).
E é a partir deste ponto na história que pensei que teríamos um desenvolvimento maior dessa relação dada a nova dinâmica entre os dois, mas não é o que ocorre. E a partir de agora, alerta de SPOILERS! (E também de possível gatilho para os mais sensíveis).
A sala dos meninos vai em um pequeno passeio escolar, mas Remi não participa. De volta à escola, os jovens se encontram com os professores e com seus pais para descobrir que Remi não esteve com eles porque tirou a própria vida. Assim a figura de Remi desaparece completamente da narrativa, não deixando mais espaço para explorar sua relação com Leo. Se até antes daquele momento estávamos achando que iríamos nos deparar com temas como aceitação, amizade e até primeiro amor, na verdade os temas para os quais o roteiro nos direciona são culpa e cura. O quê não é algo necessariamente ruim, mas confesso que senti ao final da Première que Close poderia ter sido ainda mais tocante caso decidisse seguir explorando a relação entre os meninos de 13 anos.
Como isso não é mais possível, o filme se volta ainda mais para a personagem de Eden Dambrine. Leo passa por todos os cinco estágios do luto, obviamente no início estando completamente acabado com a perda de seu melhor amigo. O restante da minutagem fornece ótimos momentos para o ator brilhar e expressar as angústias do protagonista, muitas vezes sem palavras. Há também o nascimento de uma interação entre ele e a mãe de Remi, Sophie (interpretada por Emilie Dequenne). Aliás, todas as outras interpretações, tanto dos pais dos garotos como dos seus colegas de sala são muito boas e realistas. Na maioria das interações entre Leo e Sophie, nenhum dos dois diz nada de muito impactante, ainda estão muito chocados e machucados. A mãe de Remi sabe que Leo acaba de perder seu melhor amigo, talvez até mais do que isso, e Leo só pode imaginar a dor de se perder um filho, mas ainda carrega uma outra camada de culpa: ele pensa que o motivo de Remi ter feito o que fez foi porque Leo estava praticamente ignorando-o, se afastando cada vez mais. Os dois inclusive tiveram uma briga feia dias antes do ocorrido. E o garoto agora carrega esse peso gigante dentro de seu peito. Ao mesmo tempo que quer contar tudo isso à Sophie, por sentir que ela merece saber o máximo possível, teme que ao descobrir ela reaja muito mal, trazendo de volta para os dois um sentimento similar àquele que experienciaram no dia em que aconteceu.
Eventualmente a verdade vêm à tona, com Leo conseguindo compartilhar seus sentimentos de culpa. E apesar da mãe de Remi realmente reagir muito mal de início, a cura acaba vindo também. Afinal, o tempo tem o poder de amenizar as perdas, e estes dois personagens amavam o garoto que se foi, e sabem muito bem disso. Ainda assim, não consigo me convencer de que a abordagem aqui empregada foi a melhor possível. Ganhamos, na segunda metade do filme, cenas muito bonitas, interpretações incríveis (especialmente do ator mirim), e o plano final é belíssimo. No entanto, fiquei refletindo por muito tempo sobre essa decisão do roteiro em matar Remi, e confesso que se trata também de uma questão pessoal, mas não achei que a escolha por acompanhar essa história trágica de luto foi mais interessante narrativamente do que teria sido acompanhar o desenrolar da relação entre Remi e Leo após seu afastamento.

E aqui poderia entrar na antiga questão a respeito das narrativas Queer, sobre como muitas delas optam por focar no sofrimento dos personagens LGBTs, ainda que com a intenção de gerar debates relevantes e emocionar o público. O diretor já foi questionado (e até cancelado por alguns) na época do lançamento de seu primeiro longa, Girl, por apresentar cenas de automutilação dentro da história, reforçando uma narrativa de sofrimento de personagens Queer como quase necessários para seu crescimento e desenvolvimento pessoal. Além de possivelmente ofensivo, acaba também entrando no território do clichê, se não for bem executado. Mas não quero me estender tanto no assunto. Somente queria frisar minha opinião (e minha vontade, na verdade), de que se tivesse feito um filme sobre dois amigos navegando sua complexa relação. Fiquei pensando no quão importante seria ver uma história de amor, ou ao menos de amizade, LGBT ou não, que tivesse um final feliz para variar, certamente assim Lukas Dhont teria me emocionado muito mais.
Nenhum dos meus comentários faz o filme ser ruim. Na verdade foi uma das melhores experiências que tive no festival (ok, assistir à Première com o elenco e equipe presentes ajudou). E, apesar de no final ter saído um tanto quanto frustrado, encontrei inúmeros motivos para apreciar a obra, durante e depois de sua exibição. Com certeza vale muito a pena conferir esta bela história assim que estrear na plataforma da Mubi, que vai distribuir o filme no Brasil.
Nota: 7,5

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