Por Julia Paes

Um dos escolhidos para ser exibido no Festival de Cannes, “Armageddon Time” se passa em Nova York, no início dos anos de 1980, um pouco antes da eleição de Ronald Reagan, e conta a história de uma família habitante do Queens. Um retrato da classe média estadunidense da época, o filme deixa claro alguns dos problemas sociais enfrentados pela comunidade. O ar nostálgico da obra não esconde a referência pessoal que o diretor e roteirista, James Gray (Ad Astra), adotou em sua construção, de fato parece ser bem pessoal. 

Vemos o mundo através dos olhos do jovem adolescente, Paul Graff, um menino que tem o sonho de ser artista quando chegar a vida adulta. Durante sua jornada de descobrimento, ele se aproxima de Johhny, um menino negro, que tem seu futuro traçado, pelo racismo estrutural, antes mesmo de seu nascimento. E eis que mora o problema do filme. James Gray tem dificuldade em sustentar com maestria um tema tão essencial, e em algumas partes do filme, quer provar que nem todo menino de classe média é racista, entretanto se torna raso.

Still de “Armageddon Time”. ©Universal

Tanto Paul, quanto Johnny, são meninos “encrenqueiros”, aos olhos de seu professor. Ambos estudam na mesma escola e apresentam dificuldade de aprendizado, mas possuem oportunidades de vida diferentes. Enquanto Paul tem uma família presente, talvez um pouco atrapalhada, mas presente, Johnny cuida de sua avó com Alzheimer. Paul recebe presentes de seu avô, que incentiva o garoto a ser artista, no outro lado da moeda, Johnny corre o risco de ser tirado de casa e levado ao orfanato. E, desde cedo, começam a perceber que a cor de suas peles vai levá-los a lugares diferentes. Apesar de querer fazer a diferença e colocar em prática o que seu avô ensinou, Paul não consegue se desvencilhar das amarras antiquadas de sua família.

O sonho do garoto de ser artista é sufocado pela vontade de seus pais, que querem seu filho escolhendo uma faculdade tradicional, para ter um futuro como todos os demais. Assim, as inclinações artísticas do garoto são sufocadas constantemente, e por mais que os pais tenham boas intenções, negligenciam os interesses de seu filho, Paul, e o fazem passar por situações de constrangimento. O único que parece entendê-lo é seu querido avô, e encontra nessa relação com o avô, a única fonte de inspiração e apoio para seguir sua vocação como artista. 

Still de “Armageddon Time”. ©Universal

Digamos que é um filme que possui a roupagem própria do Oscar. O melodrama no seio familiar, com grandes nomes de Hollywood, como Anne Hathaway e Anthony Hopkins, encontra seu ponto alto na forte relação entre as personagens. Anne Hathaway, como sempre, possui uma presença em cena avassaladora, e uma ótima escolha para equilibrar, foi Hopkins, como seu pai. Jeremy Strong aparece para fazer o papel do pai do garoto, em alguns momentos num tom mais bobalhão e de maneira bem caricata, o que pode tirar um pouco a seriedade de seu personagem; em outros, um ar tipicamente vilanesco, usando bem o contra plongée para aumentar seu poder em relação ao garoto.

A fotografia do filme é assertiva ao trazer um tom nostálgico às cenas. Os tons sempre da mesma paleta, com contraste acentuado, parece que estamos invadindo a memória do diretor. A montagem, em cenas com toda a família de Paul, se torna bagunçada, e nos tira um pouco da experiência do filme.

“Armagedon Time” é um trabalho pessoal de James Gray, vemos suas influências que o impactaram ao crescer, seja pela eleição de Ronald Reagan e seu conservadorismo, seja por artistas que marcaram seu crescimento ou pela sua ascendência judia. Gray tem boas intenções ao tentar tratar temas delicados, porém sua forma de trazer em cena é falha. Um filme emocionante quando sabe abusar das relações familiares, principalmente ao mostrar o quão importante foi seu avô na formação de seu caráter, entretanto erra quando se propõe a ser muito mais do que é.

Nota: 5,5

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