Por Fernando Grisi
Todd Field cria sinfonia perfeita para Cate Blanchett orquestrar com maestria.
Iniciando as críticas do 60° Festival de Cinema de Nova York, temos o filme que rendeu para Cate Blanchett o prêmio máximo de atuação no Festival de Veneza deste ano. O diretor Todd Field retorna, após 16 anos, com seu terceiro longa-metragem. Assisti somente ao seu primeiro longa, “In The Bedroom”, de 2001, do qual gostei bastante. Mas “Tár”…”Tár” pode facilmente entrar na discussão sobre ser considerado uma obra prima.
Cate Blanchett interpreta Lydia Tár, uma compositora e condutora de orquestra muito famosa (sendo no filme inclusive uma EGOT, pessoa que já venceu o Emmy, o Grammy, o Oscar e o Tony). Ela está se preparando para gravar uma sinfonia com a orquestra filarmônica de Berlin, a qual já rege há alguns anos. Todas as informações mais básicas (e talvez algumas das mais importantes) sobre ela nos são respondidas quase didaticamente na primeira cena do filme, uma entrevista de aproximadamente 10 minutos que Lydia dá ao jornal New Yorker. Descobrimos, além de suas maiores referências e um pouco de sua história, que ela não leva em consideração seu gênero como relevante em sua trajetória até alcançar seu imenso sucesso, e isso é importante para termos um primeiro acesso a seus ideais, que vão aparecendo melhor ao longo do filme, e se tornam mais controversos. O roteirista-diretor criou uma história que discute muitos temas complexos e polêmicos como poder, Arte, obsessão, e até “cultura do cancelamento”. E nem sempre (na verdade quase nunca) teremos respostas para as muitas perguntas que acabam surgindo ao acompanhar a trajetória de Lydia Tár.
Pelo que foi apresentado no primeiro teaser de “Tár”, que foi o único material que vi sobre o filme antes de assisti-lo, pensei que seria uma experiência muito mais excêntrica, mais metafórica, quase experimental. Não vou dizer que fiquei decepcionado, porque não é verdade, mas o que recebi foi um denso drama focado no estudo da personagem principal. Ainda assim, o filme pode se tornar restritivo para alguns. Já disse em outras críticas antes que não gosto muito da ideia de dizer que um filme “não é pra todo mundo”. Mas, se forem ao cinema sem saber o que esperar de “Tár” (que, aliás, é o que eu recomendaria para todos) há grandes chances de muitas pessoas se decepcionarem e até se entediarem com ele. O filme não é lento, não é chato, muito pelo contrário. Mas suas 2 horas e 40 minutos de duração, considerando que os créditos são apresentados no início do filme, e a primeira cena é uma entrevista de mais de 10 minutos de duração, pode afastar muitos de apreciar um dos melhores filmes do ano.

Recomendo muito que, mesmo que você não seja o público alvo principal do longa, que dê uma chance para ele e se deixe perder no meticuloso e intenso mundo criado pela equipe liderada por Todd Field. O design de produção extremamente acurado nos imerge totalmente na rotina e vida de Tár, assim como faz sua fotografia, criando uma sensação de que estamos assistindo a um documentário em vários momentos. Os ambientes descrevem visualmente muito bem sensações internas, ora mais calmas e pacíficas, ora mais ameaçadoras, realmente feias. A edição faz com que apesar da grande duração o filme nunca se torne cansativo, e a trilha sonora gera uma discussão à parte, pois Hildur Guðnadóttir (responsável pela trilha de “Coringa”) não faz sua presença muito notável. Isso porque foi Blanchett que conduziu a orquestra em todas as cenas do filme, com Guðnadóttir tendo feito algumas intervenções sonoras no longa que podem até mesmo passar despercebidas, e talvez exijam uma segunda assistida. E sobre o som do filme em si, não vou falar muito sobre porque só esse elemento merecia um texto inteiro só pra ele. A criação dos ambientes sonoros em Tár é tão incrível, e tão detalhista, que é até mesmo difícil apontar pontos específicos onde o som funcionou de maneira excepcional. Ainda mais em um filme como este, o som é um dos, senão o mais importante elemento para se atentar aos detalhes. E tudo, desde barulhos que Lydia escuta, coisas sutis, até a imponência e potência da orquestra tocando com todo o seu coração em cenas onde Tár está conduzindo, tudo que envolve o som é primoroso e merece uma atenção especial ao assistir ao filme, talvez ainda mais do que a própria trilha…
Field escreveu o roteiro tendo Blanchett na mente para o papel principal, e disse na coletiva de imprensa logo após a exibição que o papel simplesmente não funcionaria com outra atriz. Realmente, o trabalho que a atriz australiana entregou aqui é digno de todos os prêmios possíveis, e é muito difícil imaginar outra pessoa interpretando a controversa personagem. A discussão sobre uma possível indicação ao Oscar para Cate Blanchett começou desde Veneza e vem só aumentando, e posso dizer que não ficaria nem um pouco impressionado (nem mesmo chateado) se ela levasse sua terceira estatueta. As outras interpretações também são todas muito boas. É difícil contracenar com toda a magnitude que a personagem de Lydia impõe em suas cenas, e em nenhum momento ela é ofuscada. Mas o filme teria muito menos impacto se não fosse pelas ótimas interpretações de Noémie Merlant (de “Retrato de uma Jovem em Chamas”), da experiente atriz europeia Nina Hoss e da estreante Sophie Kauer, principalmente.

Apesar de ser mais voltado para o drama e estudo de personagem, ainda temos em alguns momentos a presença de elementos mais oníricos, de uma estrutura um tanto quanto inusitada. Não somente no roteiro, que também acaba nos levando em uma direção diferente do que poderíamos ter pensado no início (de novo, o filme não é nada chato, seu teor de imprevisibilidade, antecipação e suspense me manteve investido e atento o tempo todo). Em certas cenas somos inseridos em uma atmosfera que lembra até mesmo um filme de thriller, como por exemplo um momento em que “Tár” corre em um parque enquanto o dia mal amanheceu, e ouve gritos desesperados de uma mulher, sem conseguir identificar sua origem. Sequências de sonho, nas quais pessoas de seu passado aparecem distorcidas e em cenários não identificáveis também acontecem algumas vezes, e o som tem papel fundamental mais uma vez na construção dessas cenas mais ameaçadoras e/ou excêntricas.
Tal atmosfera de ameaça se deve por conta, em partes, do caráter controverso e problemático da personagem de Cate Blanchett. Não vou entrar muito em detalhes por conta de spoilers, mas Lydia Tár é alguém que em diversas ocasiões abusa de seu poder para conseguir o que quer, e existe uma interessante discussão no filme sobre esse tipo de dinâmica. Além disso, existe algo suspeito com alguns emails que sua assistente diz terem chegado de uma certa Krista, e imediatamente Tár a diz para ignorá-los e excluir todo e qualquer contato que essa pessoa já trocou com elas. Mesmo a assistente insistindo que este último email parecia “particularmente desesperado”. Fica claro que um padrão de comportamento de Tár é se aproximar de mulheres mais jovens, seduzi-las com seu poder e sua autoridade, e depois abandoná-las quando desenvolver uma nova paixão pela “próxima garota”. É sob essa luz que a temática da “cultura do cancelamento” é trazida para o debate, pois Tár acaba se envolvendo em complicações e desdobramentos de seus atos passados, que a fazem se enquadrar em um espectro desta “cultura” que é tão comum na atualidade.
Também temos a questão que o longa traz para discussão sobre a Arte, e sua relação com o artista que a cria. E isso é até mesmo um paralelo direto com a questão da “cultura do cancelamento”. O já conhecido questionamento que sempre acaba voltando à tona atualmente nas redes sociais, principalmente, se devemos ou não separar o artista de sua obra, especialmente relacionando isso a artistas considerados problemáticos pelo público. Em uma cena ainda no início do filme, Tár está dando uma aula especial na prestigiosa escola Juilliard, e um dos estudantes, pangênero e PPI, diz que não consegue se relacionar com a música de Bach por conta de sua misoginia quando vivo. Tár então começa uma longa conversa mostrando que ela é a favor de separar os artistas de seu trabalho, dizendo que os jovens não podem simplesmente desprezar um trabalho extraordinário como o de bach com base em julgamentos feitos em redes sociais. No final, o estudante não muda de opinião, e a professora simplesmente o chama de “robô” (insulto que volta pelo menos mais duas vezes na narrativa). Então existem muitas camadas e muitos temas para se decifrar e analisar aqui, não somente em acontecimentos específicos como as más condutas de Lydia Tár, mas questões mais abrangentes como as motivações e sentimentos da complexa personagem, e como isso se relaciona com sua Arte. Naquela primeira cena da entrevista, a maestra cita uma frase que diz muito sobre o quê pensa a respeito da relação artista-Arte:
“Você precisa se sublimar e sublimar sua identidade. Precisa ficar perante o público e Deus e se obliterar…”
Acredito que “Tár”, assim como muitos outros filmes, se torna ainda mais proveitoso para aquele espectador que vai experienciá-lo sem saber muitos detalhes sobre sua história. Por isso não vou falar muito mais aqui. Tenho vontade de conversar melhor sobre simbolismos e teorias, mas talvez isso possa acontecer no futuro em uma discussão com spoilers, se tiver uma demanda pra isso. Mas recomendo fortemente que, deixando de lado preocupações ou dúvidas sobre uma provável reação ao filme, todos tentem apreciar “Tár” nos cinemas ano que vem. Pode ser que o longa te faça sair da sessão com mais perguntas do que respostas, mas para citar a própria Lydia Tár ao explicar para o estudante da Juilliard a intenção de Bach ao escrever o famoso prelúdio de “The Well-Tempered Clavier”:
“É uma pergunta. Que gera uma resposta. Que gera uma nova pergunta. Tem uma humildade em Bach, ele não finge ter certeza sobre nada. Porque ele sabe que é sempre a pergunta que envolve o ouvinte. Nunca é a resposta. Agora, a verdadeira pergunta é: o quê você acha?”
O filme estreia dia 26 de janeiro de 2023 nos cinemas brasileiros.
Nota: 9,6

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