Por Julia Paes
Assim que “Aftersun” chegou nas salas de cinema, fui conferir o filme que estava impactando tantos especialistas através do mundo. Ao sair da sala depois da minha sessão, a história contada por Charlotte Wells me acompanhou durante um bom tempo e entendi tamanho burburinho. A obra é marcada pela dualidade da vida e de nossas memórias, e aí reside um teor atemporal da história. Numa espécie de revisão dos fatos, colocando frente a frente sua versão do passado com a atual, Wells nos oferece uma viagem íntima a um pedaço de sua existência, e que provavelmente até aquele momento, poucas pessoas tiveram acesso.
Um mundo de diversas possibilidades se escancara para Sophie, uma menina de 11 anos, que viaja com seu pai para a Turquia. Ali a garota começa a aprender um pouco mais sobre o mundo e como ele funciona, numa jornada também pessoal, ela desbrava novos lugares dentro de si. E, enquanto nós vemos a menina desabrochar em frente às câmeras, aprendemos um pouco mais sobre o poder da memória, e talvez que não devêssemos confiar tanto assim em nossas recordações.

Sophie, interpretada pela fantástica estreante Frankie Corio, documenta toda a viagem com sua filmadora. E é com essas imagens produzidas, que a Sophie adulta olha para a viagem com um novo olhar para seu passado. Paul Mescal interpreta Calum, o pai da menina, numa performance de tirar o chapéu com suas nuances, e se desenvolve um pai que não estava e nunca estará pronto para esse papel. A falta de responsabilidade de Calum tem efeitos profundos em sua filha por toda sua vida. A simplicidade da história se contrabalancea com a profundidade da temática. Em cenas entre passado e futuro, acompanhamos uma relação entre pai e filha tomar rumos indesejados.
“You Can Live Wherever You Want To Live“
“Você pode viver da maneira que bem quiser viver”
Charlotte Wells, também estreante em sua posição, apresenta uma sensibilidade ao contar sua história, que há muito não me impactava nos filmes mais recentes. A construção dos personagens principais, em especial na complexidade das batalhas pessoais que os protagonistas travam, são muito bem elaboradas. As escolhas técnicas seguem o mesmo caminho, com seus enquadramentos de tirar o chapéu, transições que roubam nosso fôlego, as cores vivas e marcantes da Turquia, os detalhes que marcaram a época.

A nostalgia está presente em todo o filme, e não apenas a nostalgia de nossa infância, mas a nostalgia de momentos que um dia já vivemos é a chave principal da obra. Para quem viveu sua infância no final do milênio, a sensação fica mais latente. As roupas, as músicas, as tecnologias, tudo é muito encantador. Sophie liga, em certo momento, para sua mãe em uma cabine telefônica, uma cena raramente vista hoje em dia, e que as nossas crianças jamais saberão o que é usá-la. A genialidade da escolha de “Losing My Religion”, do REM, uma das músicas mais conhecidas dos anos de 1990, e que ajuda a impulsionar o roteiro, ajudando na construção da narrativa. A câmera filmadora extravagante gravava os momentos especiais, que faziam parte do cotidiano das pessoas.
A magia do filme está na sutileza dos detalhes. Charlotte Wells faz uma ótima reflexão sobre como nossas memórias são essenciais para nós, ao mesmo tempo que são perigosas. Hoje é o lançamento do filme no MUBI, e ao pensar o que escrever sobre ele, fui levada por momentos incríveis da minha vida, e é exatamente nesse ponto que a obra se mostra tão potente, de nos aproximarmos com pedaços da gente que nem nos lembrávamos que existia. Ele consegue nos acompanhar durante algum tempo, não deixamos ele no momento que acaba.
Disponível hoje no MUBI.

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