Entre 2000 e 2001, uma série de crimes contra profissionais do sexo iranianas assombrou as ruas de Mashhad. Alegando estar lutando em uma cruzada contra a corrupção da moral que estava acontecendo pela cidade santa e dando continuidade ao que chamou de “esforços da guerra”, em referência a Guerra Irã-Iraque da década de 1980, o chamado “Assassino Aranha” provocou o caos através de um debate entre grupos opositores, enquanto alguns criticavam a ineficácia da polícia local para capturá-lo diante do crescente número de mortes, outros compartilhavam do mesmo desgosto quanto ao aumento dos casos de prostituição. Embora três assassinatos sejam atribuídos a um possível imitador, ao ser capturado em julho de 2001, somava-se um total de 19 mulheres assassinadas por Saeed Hanaei durante este período em que conseguiu escapar das buscas das autoridades competentes.

Com um olhar crítico quanto a situação do extremismo religioso e uma tentativa de exaltar o poder do jornalismo em casos como este, principalmente quando o descaso das autoridades locais destaca o fato de que aqueles que deveriam proteger a população possuem uma visão que não é muito diferente da do próprio assassino em série, Ali Abbasi dirige um drama tribunal parcialmente fictício dos assassinatos que aconteceram nas noites de Mashhad. Desta vez não é o acaso que fará Saeed (Mehdi Bajestani) ser capturado e julgado por seus crimes, e sim a resistência da implacável Rahimi (Zahra Amir Ebrahimi), uma jornalista que tem consciência quanto ao papel das mulheres na comunidade local e que continua fazendo o necessário para manter seu espaço na linha de frente, determinada a realizar o trabalho que as forças competentes têm demonstrado pouco interesse em concluir.

Still de “Holy Spider”. ©Why Not Productions

É difícil não comparar “Holy Spider” com qualquer outro longa sobre assassinos em série que tenha sido lançado em qualquer momento do começo dos anos 2000 em diante, ou até procurar por um espacinho no qual seja possível encaixá-lo em meio a esta crescente safra de assassinatos modernos. Muito disso devido a uma parcela da natureza que Hollywood nos condicionou a esperar em histórias como essa, e que Abbasi emprega durante a primeira hora da adaptação destes acontecimentos. Entretanto, no que difere a um “Zodíaco”, cujo mistério era uma parte fundamental da investigação protagonizada por Jake Gyllenhaal, qualquer sinal de suspense é imediatamente traduzido em uma certeza assustadora quanto a quem é esse assassino, quem são essas vítimas e o porquê de elas, dentre tantos outros, terem sido escolhidas para serem os alvos desta cruzada religiosa.

“Holy Spider” é um drama de assassinato envelopado em um drama ainda mais amplo sobre a linguagem política, mais especificamente acerca dos esforços do sistema para manter preservada a imagem da sociedade iraniana, e como o judiciário tem atuado para lidar com casos como este. Entre becos que se tornam assustadoramente claustrofóbicos na calada da noite e praças frequentadas por profissionais do sexo que estão lá por diferentes justificativas, mergulhamos na teia de aranha que surge logo após Saeed Hanaei cometer o primeiro assassinato. Ao estrangular suas vítimas com seus próprios lenços e descartá-las em rodovias vazias durante a madrugada, o que este pai de família aparentemente comum que estava procurando por um propósito sagrado não sabia era que estava prestes a reacender uma fagulha que seria responsável por expor uma faceta perigosa daquilo que estava determinado a manter em segurança do que considerava como imoral.

Still de “Holy Spider”. ©Why Not Productions

Bajestani carrega um olhar perigoso a cada aparição. É uma inspiração para o filho que entrou recentemente na adolescência, é também alguém cuja presença provoca medo na esposa, embora este sentimento seja limitado aos olhares e nunca seja verbalizado. A luz do dia, um homem quieto e ressentido do próprio retorno da Guerra Irã-Iraque, mas aparentemente comum, e durante a noite, alguém com assombrosa determinação de limpar o pecado das ruas sagradas de Mashhad. Já Ebrahimi, atuando como uma jornalista vagamente baseada na única sobrevivente desta tentativa de assassinato, mas em grande parte criada para os propósitos de Abbasi, expressa uma energia pulsante e incontrolável nesta tomada de atitude que desafia e questiona a virtude por trás da cruzada do assassino.

Abbasi não passa muito tempo com as vítimas do Assassino Aranha. Com exceção dos esparsos momentos que apelam ao sentimentalismo ao abordar o quão melancólica e solitária eram suas vidas antes dos assassinatos, o cineasta, ao operar em parte junto a ficção dos acontecimentos, está comprometido por completo com este retrato do extremismo religioso versus a energia irrefreável do jornalismo. Enquanto a primeira hora soa como sendo subversiva o bastante em relação ao que esperar de produções baseadas em crimes reais, fugindo do clichê e do suspense genérico da busca pela identidade do assassino, a segunda, embora tenha muito o que apontar como consequência das declarações de Saeed durante o julgamento e da resposta pública ao que estava acontecendo, parece simplificar tudo até demais.

Nota: 7,0

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