Como um bom fã de slasher, foi difícil não contar os minutos até que “X – A Marca da Morte” fosse lançado, embora na época em que chegou ao meu conhecimento, as informações sobre a produção fossem escassas. Tanto inconsciente quanto até conscientemente, passei a esperar por uma experiência próxima aquela que os curiosos vivenciaram ao longo de outubro de 1974, quando “O Massacre da Serra-Elétrica” chegou as salas de cinema, prestes a completar um ano desde que suas filmagens haviam sido encerradas. E não é como se a receita não fosse semelhante. Um grupo de personagens que, como os de Tobe Hooper, esbanjavam características do que era ser desajustado de acordo com o censor conservador da sociedade norte-americana da década de 70, rumando em direção ao desconhecido que os aguardava em uma fazenda no interior do Texas. Entretanto, diferente de Sally Hardesty e dos que a acompanhavam naquela van azulada pelas estradas texanas, esta trupe estava buscando pela fama que poderiam conquistar no cenário do cinema independente.

A bem da verdade, as comparações com “O Massacre da Serra-Elétrica” ou com qualquer outra obra de Hooper lançada posteriormente — é possível encontrar semelhanças com o clássico “Devorado Vivo” — terminam no campo das inspirações. Em “X”, encontrei um terreno sólido o bastante para continuar pensando sobre o que acabara de acontecer, principalmente no decorrer dos dois primeiros atos quando Ti West foca na construção da atmosfera de suspense que antecede o banho de sangue que percorre a madrugada, por um bom tempo (obviamente andar de metrô em São Paulo é um bom auxílio neste exercício pós-experiência cinematográfica). O confronto, tanto direto quanto indireto, entre o casal de idosos e a equipe de filmagem levanta a questão quanto ao porquê de tantas gerações terem colocado o sexo sob uma perspectiva condenatória, algo que, levando em consideração a crescente onda de reprovação quanto a inclusão de momentos íntimos em longas-metragens, voltaremos a questionar em um futuro bem próximo.

Embora os assassinatos ocorram após todos as vítimas terem um contato voluntário (consumação encenada) ou involuntário (filmagem desta consumação encenada) com os atos carnais, West subverte o papel do sexo em “X”. É um perigo maior do que a repressão sexual, fomentada por um massivo bombardeamento de um pensamento ultraconservador? Por que a ideia de pessoas vivendo de acordo com os próprios termos e consumando o que é comum a todos os seres humanos é tão assustadora em comparação ao que o falso moralismo tem a esconder quando olha para outro lado e finge que o prazer não existe? Pearl não assassinou esses personagens somente por estar seguindo um modus operandi semelhante ao de Michael Myers ou qualquer outro assassino em série mascarado que tenha feito sua fama assassinando adolescentes no subúrbio durante o terror de 70 e 80. A presença deles acentuou a certeza quanto a ter permitido que o tempo passasse enquanto permanecia presa a uma vida que não desejava.

Still de “X – A Marca da Morte”. ©A24

Uma vez fora da sessão, é impossível não repassar mentalmente boa parte dos detalhes do que aconteceu no filme e tão logo focar no primeiro assassinato, que é, de longe, uma das melhores cenas da segunda parte de “X”, estando lado a lado com o quase duelo entre Maxine e Pearl. No momento em que RJ deu partida na caminhonete que os levou até aquela fazenda, que estava prestes a ser transformada em um abatedouro, e a clássica Don’t Fear the Reaper começou a tocar no rádio, foi difícil conter um sorriso ao lembrar, com um certo carinho nostálgico, de Laurie Strode na tarde que antecedeu o massacre em “Halloween (1978)”. Uma decisão intencional para acenar ao fã de slasher que não deixaria este detalhe passar despercebido ou uma escolha feita ao acaso, Ti West estava cortando a faixa e inaugurando o banho de sangue que acompanharíamos durante os próximos minutos. A câmera se desloca do personagem ao volante para senhora idosa no meio do campo, a música diminui lentamente, e sabemos que o ceifador chegou.

Enquanto as mortes estão acontecendo, “X” não abdica de uma das bases fundamentais do gênero: manter a empatia em exercício. Apesar de encontrarmos com facilidade comentários supersimplificando a capacidade que há em exercitar o que sentimos diante de situações que colocam esses personagens em perigo — diante da tal supervalorização do roteiro, qualquer vítima é vista como descartável, e por vezes tem sua existência anulada — o terror possuí um vasto terreno no que diz respeito a ser empático. Não é tão fácil quanto parece permanecer indiferente quando alguém, não muito diferente de quem está deste lado da tela do cinema ou da TV ou de qualquer que seja o aparelho em que o filme está rodando, está correndo para se salvar, sendo perseguido por um desconhecido mascarado assustadoramente silencioso e bem-preparado. Ou até mesmo quando um inocente está parado em primeiro plano, totalmente inconsciente de que na penumbra daquele cômodo está um assassino, prestes a desferir um golpe que será fatal.

Em “X”, enquanto a contagem de vítimas aumenta e a repressão sexual é culpabilizada como a principal responsável pelo pontapé daquele massacre, este exercício empático parte da dualidade entre Maxine e Pearl, ambas interpretadas por Mia Goth. Diante daquele discurso sobre não aceitar uma vida que não merece, é fácil olhar para a primeira, que esbanja sensualidade por acreditar em si mesma e está vivendo de acordo com os próprios termos, e acreditar ter encontrado similaridade com a postura que acreditamos projetar. Não queremos uma vida que não merecemos, todavia, Pearl também não queria, o que levanta a seguinte questão: estamos lutando por isso, ou, diante de cada decepção e das negativas que recebemos, mergulhamos em um caminho não muito diferente daquele que esta personagem aceitou? Julgamos enquanto aceitamos inconscientemente, e de julgamento em julgamento, quando nos dermos conta, pode ser que seja tarde demais para viver.

Still de “X – A Marca da Morte”. ©A24

Levando em consideração a demanda atual de consumo, que busca por um terror que soe absurdamente inteligente e rebuscado, como se o gênero não fosse capaz de tamanha perspicácia — sim, estou falando de você desta vez, terror elevado — faz bem pensar que tem um ou outro Ti West perambulando pela indústria, embora “X – A Marca da Morte” não esteja totalmente livre desta tentativa de ter um ou outro momento que pareça mais inteligente do que seria necessário. Infelizmente não estava lá em 70 para acompanhar os lançamentos de clássicos deste subgênero, entretanto, ao escrever este texto e após repassar detalhe por detalhe do filme, posso afirmar com segurança que não há problema em estar vivendo nesta época, afinal, em um intervalo de tempo, pude acompanhar “Maligno”, um gialli escancarada e absurdamente cafona como somente Wan seria capaz de dirigir, “X”, e “Pearl” chegando aos cinemas e proporcionando experiências inesquecíveis.

“X – A Marca da Morte” está disponível para assinantes do Prime Video e a crítica, também de minha autoria, pode ser lida aqui. Já a próxima fita deste double feature insano das obras de Ti West será “Pearl”, um slasher que retoma os aspectos melodramáticos da Era de Ouro de Hollywood, e poderá ser encontrado em breve no site.

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