Sem uma dedicatória para Wes Craven antecedendo os créditos que começam a subir ao final da fita, “Pânico 6” assume a dianteira quando comparado ao seu antecessor em relação a estabelecer o que de fato a dupla de diretores, Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett, tem a oferecer para esta franquia além de uma tentativa de assimilação da metalinguagem dos filmes de terror e da autoconsciência intrínseca à geração que cresceu consumindo estas produções e agora assume os holofotes como protagonistas. Um ano separa estes acontecimentos dos de 2022. Para Tara Carpenter (Jenna Ortega), agora uma caloura em uma faculdade na Grande Maçã dos Estados Unidos, é tempo o bastante para que ela e os demais sobreviventes possam seguir em frente, reorganizar os estilhaços da bagunça provocada pelo massacre de Richie Kirsch (Jack Quaid) e Amber Freeman (Mikey Madison) em Woodsboro, e viver novamente. Para Sam Carpenter (Melissa Barrera), entretanto, que não só lidou com os assassinos mascarados, mas também com a revelação de que Billy Loomis (Skeet Ulrich) é seu pai biológico, o perigo continua lá fora e é necessário que eles mantenham a cautela.
Em face deste novo lançamento, “Pânico (2022)” passa a soar como um experimento. Uma tentativa, à época, dos diretores retomarem a franquia valendo-se tanto de uma dedicatória ao principal responsável por seu sucesso quanto pela segurança em ser uma “sequência-legado” a lá o que “Star Wars: O Despertar da Força” fez em 2015, com personagens-legado retornando para ritualista da passagem de manto à esta nova geração. Importante destacar que o foco não é estabelecer uma série de comparações entre um filme e outro, mas sim ressaltar que, apesar da aposta segura, foi no antecessor que Bettinelli-Olpin e Gillett deram o pontapé para que houvesse uma presença maior da autoconsciência, que retorna nesta nova trama valendo-se da ideia de uma continuação que abdica de manter qualquer conformidade com o padrão que deve ser seguido em uma nova iteração. Parafraseando a tão carismática quanto antes e novamente fazendo as vezes de seu falecido tio, Mindy Meeks-Martin (Jasmin Savoy Brown), eles deixaram de serem os novos personagens, desta vez o assassino os persegue como parte do legado que começou lá atrás quando o primeiro banho de sangue aconteceu.
Em uma era onde as fake news distorcem uma narrativa para que possa ser prolongada por tempo o bastante ao ponto de durar por um ano ou até mais no boca a boca, e as teorias da conspiração continuam se espalhando em uma velocidade alarmante pela internet, principalmente através de fóruns online, “Pânico 6” é, essencialmente, uma história sobre trauma e legado. O primeiro sendo um terreno pelo qual os antecessores poucas vezes navegaram, valendo-se de passagens no tempo e da freneticidade que sucede a chegada de Ghostface, com exceção de “Pânico 3”, que, ao colocar Roman Bridger como o assassino da vez e irmão até então desconhecido de Sidney, abordou os reflexos a longo prazo do assassinato e da ausência de Maureen Prescott no psicológico da protagonista. Já o segundo, e aquele que considero como sendo um dos elos mais fracos desta nova iteração, não chega a ser um elemento novo para franquia. A diferença, entretanto, está em sua abordagem, que, apesar de reforçada pelos discursos autoconscientes de Mindy e pelo retorno de Kirby Reed (Hayden Panettiere), cambaleia ao apontar algo além da superfície óbvia.
Apesar de continuarem aversos a explorarem as dimensões dos cômodos internos sob outros ângulos, principalmente do cinema abandonado no qual se concentra boa parte da ação final, Bettinelli-Olpin e Gillett filmam Nova York de modo a transformá-la em um espaço claustrofóbico, destacando o vazio mal iluminado entre os arranha-céus e a massa de transeuntes fantasiados que abarrotam os vagões do metrô durante uma noite de Dia das Bruxas. Desta leva de produções do subgênero que inserem seus personagens em uma metrópole familiar, retomando um hábito que ganhou destaque lá em 1989 com “Sexta-Feira 13 – Parte VIII: Jason Ataca em Nova York” e encontrou seu melhor com o trabalho de direção de DaCosta em “A Lenda de Candyman”, é possível que a dupla não esteja no topo como exemplo de como desenvolverem esta mudança. Entretanto, considerando que seus personagens são pessoas que estão longe de suas casas há pouco mais de um ano e seguem em um árduo processo de readaptação após uma experiência traumática, o medo que buscam manipular tendo como base esta cidade é muito mais fácil de ser alcançado do que qualquer jumpscare.

Como de praxe, “Pânico 6” abre com uma vítima sendo perseguida por Ghostface. Tendo a magnitude desta nova ameaça sido estabelecida após uma série de reviravoltas que reforçam o caráter do texto quanto a abdicar da convenção esperada para uma sequência como esta e um assassinato econômico nas doses de sangue que espirram a cada facada, retornamos à presença de Sam. Barrera, em uma performance melhor em comparação àquela de sua estreia como a personagem em 2022, encarna uma sobrevivente cujos traumas a impedem de abrir mão do passado. A câmera a acompanha do consultório psiquiátrico ao apartamento que compartilha com a irmã em um subúrbio nova-iorquino, e embora esteja por boa parte do tempo em primeiro tempo, assumindo o centro como alguém que acredita estar com toda esta situação sob controle, percebe-se que há, logo por detrás daquela faceta de heroísmo de alguém que quer que você acredite que está tudo bem, uma personagem que têm vivido em constante estado de luta e fuga. Preocupada demais com Tara, ao ponto desta lhe questionar sobre o rumo da própria vida durante uma discussão, e hesitante quanto a criar novos vínculos.
Em contrapartida, para personagem de Ortega, não há forma melhor de seguir em frente do que fazer o que qualquer adolescente recém-chegado à faculdade faria: participar de uma festa em uma fraternidade. Embriagada pelo desespero em viver “fora da sombra deste legado”, enquanto a dupla de diretores a acompanha pela confraternização, nem sempre no centro e cercada pela cacofonia e pelas luzes multicoloridas, torna-se claro que a jovem tem sido tão sufocada pelo trauma quanto Sam. O que ambas não perceberam, entretanto, é que a jornada para fora deste caminho no qual acabaram caindo por uma ironia do destino que começou lá atrás, em 1996, só poderá ser percorrida caso estejam em pé de igualdade. É necessário deixar todo aquele dramalhão comum a experiência de viver tão próximo da própria irmã de lado, mesmo que seja por uma ou duas noites, para que seja possível sobreviver a perseguição de um Ghostface que diz ser diferente de todos aqueles que outros rostos desta franquia, inclusive aqueles que retornam, enfrentaram anteriormente.
O que em “Pânico (2022)” era uma relação levada a causar indiferença em boa parte do público, quase como se fosse um ensaio finalizado as pressas visando as consequências da revelação de Sam como filha de Loomis, sofre um salto e tanto, ao ponto de ser o coração desta jornada de trauma em “Pânico 6”. Algo que também é possível estender para presença magnética e cômica dos irmãos Meeks-Martin (Savoy Brown e Mason Gooding). A nova geração finalmente ganha o espaço que lhes fora negado para que desenvolvam dinâmicas individuais por entre as cenas que compartilham, favorecendo o que, no passado, fora bastante truncado: estabelecer qualquer forma de vínculo que possa estar à altura daquela que estabelecemos juntamente à Dewey, Sidney, e Gale no decorrer das continuações. Em meio a carnificina de doses econômicas de sangue, são os breves momentos de calmaria, normalmente compartilhado somente entre os quatro sobreviventes, valendo um destaque especial para quando estão conversando no apartamento das irmãs Carpenter, que torna possível reconhecer que estamos de fato nos afeiçoando a eles.
É uma pena que o mesmo não possa ser dito em relação a Kirby Reed. Retornando como uma espécie de personagem-mentora ao lado de Courteney Cox, Panettiere não abandonou aquele olhar sagaz de uma boa entendedora de filmes de terror cujo conhecimento agora rivaliza com o de Mindy e que, no momento, assumiu como agente especial do FBI, carregando uma cicatriz do que lhe aconteceu no passado (como todos os demais). Entretanto, conforme a narrativa avança, sua presença não escapa ao gratuito, uma mera piscadela ao fã de longa data que esperava por uma resposta àquele easter-egg visto no cinema e então retweetado diversas vezes durante o ano passado, quando o longa de 2022 chegou as plataformas digitais. Seja com aqueles personagens que retornam de modo a agregarem esta parcela de “legado” a este trauma, ou com seu assassino, para um filme que busca analisar este tema através da autoconsciência entre protagonistas que cresceram consumindo estas produções e agora explicam suas regras e uma franquia como “Facada”, “Pânico 6” cambaleia por vezes demais para ser capaz de sustentar uma linha discursiva que escape a obviedade e ao raso.

Há um tom de questionamento entorno de tudo o que cerca o legado que “Facada” tem criado neste universo, abarcando do fandom tóxico que vimos em “Pânico (2022)” ao modo como as vítimas são reconhecidas nas ruas de uma cidade como Nova York, principalmente se estas passam a serem os alvos de teorias da conspiração. Objetos clássicos das produções anteriores retornam como adereços em um santuário construído no subterrâneo nova-iorquino, indicando para um assassino que, novamente, é um fã, e apontando o que sabemos, de fato, há uma mitologia sendo construída. No entanto, nesta tentativa de costurar o que aconteceu na sequência de abertura com o momento da revelação da identidade deste novo Ghostface, o longa dificilmente consegue equilibrar o que intencionava apontar com este tema, recorrendo a uma repetição nada agradável do que já acompanhamos antes. Após um embate sangrento no cinema, cercado pelas facas e pelas máscaras dos assassinos anteriores, tudo é resolvido da maneira mais simples possível: com um personagem reforçando que nem todo legado deve ser considerado como sendo ruim.
Sem o senso de humor necessário para ser irônico consigo mesmo e com as batidas do subgênero, como os antecessores foram, “Pânico 6” não é o que possa ser considerado como esta franquia estando em seu melhor, principalmente no que diz respeito ao seu meta comentário. No entanto, diante da ideia de deixar a pacata Woodsboro para trás pela terceira vez e da possibilidade de avançar este universo com estes personagens, não deixa de cutucar a curiosidade quanto ao que nos espera durante aquelas duas horas, principalmente com o cenário da vez sendo Nova York. Desvencilhando-se do fandom tóxico como principal ameaça para focar na culpabilização da vítima e em uma tentativa de questionar o legado, Bettinelli-Olpin e Gillett, aparentemente, entenderam que o melhor é não tentar assimilar Wes Craven como uma forma de manter esses filmes sendo lançados por quanto tempo o estúdio considerar necessário, e sim seguir em direção ao que sabem fazer de melhor. Nem tão criativos e um tanto quanto econômicos na quantidade de sangue em cada assassinato, a dupla de diretores insere seu DNA de forma definitiva através da violência que acompanha esta nova geração.
NOTA: 7.0

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