Retomando séculos de existência, a religião tem ocupado um papel de destaque no dia a dias das pessoas. Em momentos no qual o fardo parece maior do que é possível carregar, recorrer a Escritura Sagrada, texto este interpretado e escrito por homens, procurando por orientação tanto espiritual quanto moral parece a única opção adequada para lidar com aquela situação. É, para muitos, um porto seguro que dificilmente será contestado, cujas palavras devem ser transmitidas como ensinamentos, alcançando aqueles que estão em busca de uma luz contra seus males. Entretanto, existe também uma parcela que visa utilizá-la como um importante instrumento de controle, fundamental a perpetuação de determinados valores que acentuam sua incompatibilidade com a forma como a convivência igualitária entre gêneros deve ser mantida.

A opressão religiosa contra grupos historicamente marginalizados é uma das maiores manifestações de desigualdade entre gêneros que persiste em um cenário como este, no qual garantir que todos tenham pleno acesso aos seus direitos nunca foi tão importante. Vítimas de diferentes formas de violência e de abuso, não são poucas as ocorrências em que mulheres são subjugadas a papéis tradicionais de acordo com uma má interpretação dos escritos sagrados, impossibilitadas de questionarem estas imposições. Diante da temática que reflete o que foi a ascensão da extrema-direita durante o Brasil de Bolsonaro, “Raquel 1:1” pode parecer, em um primeiro momento, como um lançamento que está ocorrendo tardiamente, entretanto, não há momento melhor que o presente para repensar o passado através de um registro como este.

De Mariana Bastos, o longa segue a chegada da protagonista, uma adolescente temente a Deus, e de seu pai, que demonstra uma postura crítica a religião, a uma pacata cidade no interior de São Paulo. Após o falecimento da mãe, uma das muitas vítimas dos casos crescentes de Feminicídio dentro da sociedade brasileira, ambos estão em busca de um recomeço, longe da turbulência de um espaço como a capital paulista. Entretanto, o que parecia ser uma oportunidade de uma vida longe dos problemas logo demonstra ser, na verdade, uma jornada de amadurecimento para acertar as contas com o passado traumático que persistente persegue Raquel (Valentina Herszage) e questionar o meio no qual está inserida, sendo parte de um sistema que fomenta a opressão religiosa na juventude.

Para Raquel, enquanto lida com as lembranças da experiência traumática que viveu durante as últimas horas de vida da mãe, é possível reavaliar o que é este legado que o Cristianismo tem deixado, tanto através das muitas interpretações da Escritura Sagrada quanto das pessoas que escolhem seguir suas palavras, sem abrir mão de manter contato com a própria espiritualidade para tal. Uma visão crítica, embora esteja em discordância imediata com a postura acrítica que pode ser observada dentro destas comunidades, não a torna uma pecadora, como os habitantes passam a acusá-la no momento em que os boatos sobre os encontros que tem organizado para releitura da Bíblia nos arredores da cidade se espalham, alcançando a esfera religiosa, representada por uma personagem a lá Damares e sua filha.  

Foto promocional de “Raquel 1:1”. ©O2 Play

Herszage carrega o olhar da característica adolescente que não quer que o passado dite quem ela é no presente. É claro que o que aconteceu não será esquecido tão cedo, mas não será o que irá defini-la quanto a quem quer ser daquele ponto em diante. Ao passo em que adentra este território até então inexplorado da redescoberta e do amadurecimento, há sutileza nas mudanças que ocorrem em seus olhares. Existe ali, conforme passa a compreender qual é o seu propósito durante este processo de releitura e reorganização das passagens bíblicas, uma real revelação que a leva ao momento em que, prestes a iniciar um incêndio, a protagonista caminha em direção aos seus nêmesis carregando um semblante marcado pelas dores e pelas lutas de outras tantas mulheres que foram injustiçadas no passado.

Embora recorra ao sobrenatural, como sussurros que chamam atenção da protagonista para uma abertura em uma caverna e ferimentos que começam a se espalhar por seu corpo, e ao mistério quanto a uma possível possessão durante a primeira hora, Bastos foca no horror das relações sociais quando estas são moldadas através dos centros de convivência religiosos, em meio a duradouros processos de exclusão da mulher do protagonismo nas histórias bíblicas e da distorção do que elas representam. A perseguição dos ditos cidadãos de bem contra uma adolescente que ousou se perguntar por que deveria ocupar um espaço que não lhe diz respeitava passa a ser tão assustadora quanto a vaga ideia de um possível espírito que possa ter se apossado de seu corpo, pronto a trazer o caos aquela cidade.

Aquela comunidade deixa de ser segura para Raquel ao passo em que passa a ser mal interpretada da mesma forma que a mulher com quem compartilha o nome foi durante sua história na Bíblia. O horror de um subúrbio que demonstra sua verdadeira faceta ao ser confrontado com a criticidade de alguém contrária a conformidade dos papéis de gênero acentua o claustrofóbico que ronda toda aquela situação, com a protagonista quase sempre estando inserida em ambientes fechados. No entanto, o que a difere dos demais neste aspecto é que, neste processo de redescoberta e amadurecimento, ela está em busca de um novo caminho, interpretando a luz não somente como uma forma de orientação espiritual, mas também autoconsciência.

Diante das metáforas óbvias que seu texto carrega, não há muito o que possa ser interpretado no que diz respeito as motivações da protagonista, uma vez que elas seguem uma linha reta, estando bem esclarecidas. O que resta, neste caso, é claro, é sentar e acompanhar uma jornada de amadurecimento poderosa quanto a forma que foi filmada e atuada, que reverbera muito do que foi duramente sufocado durante os quatro anos em que a extrema-direita religiosa ascendeu amplamente em território nacional, fomentada pelos discursos do ex-presidente, abarrotados de más interpretações das Escrituras Sagradas. É uma manifestação que chega no tempo adequado para que haja reflexão, não muito tempo após experiências semelhantes serem noticiadas e nem muito antes de impedir que tornem a acontecer.

Mariana Bastos compreende a importância que a política carrega ao estar presente em discussões como esta, assim como também sabe o quão importante é repensar o papel que tem sido desempenhado pela religião no meio social durante tantos anos, e então escolhe seguir por este caminho, contestando não somente as convenções que tem sido integradas ao presente, mas também um passado de más interpretações, responsável por milhares de mulheres que foram subjugadas. “Raquel 1:1”, assim como “Medusa” de Anita Rocha da Silveira, acrescenta novos contornos a esta onda mais recente e promissora do cinema de horror nacional que visa dialogar e refletir sobre a opressão religiosa através de uma perspectiva que explora a feminilidade e a materialidade do corpo.

NOTA: 7,5/10

Avatar de Matheus Britto

Published by

Categories:

Deixe um comentário