Por Matheus Britto
Diferente de sua estrela da vez, Adèle Exarchopoulos, a cineasta Léa Mysius é um nome relativamente novo no meio que está atuando. “Ava”, seu longa de estreia que analisa a sexualidade feminina e os medos tão comuns a esta fase da adolescência através da jornada de uma adolescente que está perdendo lentamente sua visão, foi lançado apenas em 2017. E agora ela retorna com “Os Cinco Diabos”, segundo de sua carreira, explorando um terreno familiar no que diz respeito as dores e aos dilemas que têm permeado o universo feminino, acrescido de elementos que correspondem a um realismo fantástico. É verdade que há uma certa perversidade em acompanhar uma criança da idade de Vicky Soler (Sally Dramé) tendo que lidar com descobertas que imediatamente confrontam sua existência, entretanto, o resultado aqui alcançado muitas vezes nem sempre parece estar de acordo com o que fora pretendido pela diretora.
Entre as mirabolâncias de uma viagem no tempo que, quando ocorre, a câmera segue sua “viajante” como se fosse uma voyeurista no passado dos pais e um ritual com um corvo cozinhado que está à altura de uma produção sobre bruxas adolescentes lançada logo no começo dos anos 2000, “Os Cinco Diabos” segue duas gerações de mulheres, com foco em Vicky Soler, principal linha que conecta presente e acontecimentos específicos da história daquela pacata cidade no sopé dos Alpes. Uma criança aparentemente comum, a garota, devido as inúmeras ocorrências de bullying na escola, tem como passatempo coletar e colecionar itens em potes de vidro, permitindo seus aromas evoquem memórias posteriormente. Seu cotidiano, no entanto, muda com a chegada de Julia Soler (Swala Emati), uma parente que há muito foi excluída pela comunidade local, e a série de revelações que esta forasteira traz a tona.
O olhar de Dramé carrega uma sabedoria que está além daquela que passamos a esperar sendo demonstrada por alguém de sua idade. A solidão, bem como o bullying que tem enfrentado há um tempo considerável por parte de seus colegas de classe, a tornou uma criança com uma capacidade impressionante quanto a observar o que está além da superfície óbvia. É o que a permite, por exemplo, perceber a estranha tensão que logo surge entre sua mãe, Joanne (Adèle Exarchopoulos), uma ex-Abelha Rainha do colégio local, e a hóspede recém-chegada. E não satisfeita em notar aquele comportamento pouco condizente entre duas mulheres que são parte da mesma família, é também o empurrão que a faz mergulhar de cabeça nesta cova de conflitos mal solucionados que é o passado de seus pais com Julia e outros tantos habitantes daquela pacata cidade, como Nadine (Daphné Patakia).
O longa de Mysius assimila parte das experiências fundamentais à uma jornada característica dos chamados coming-of-age, entretanto, não leva sua protagonista à uma busca desoladora de registros fotográficos e diários que estejam escondidos em um sótão qualquer para descobrir a verdade, e sim à uma série de viagens para momentos específicos do passado. É um conceito que ecoa similaridades com aquele que Edgar Wright desenvolveu recentemente em “Noite Passada em Soho”, com o glamour e a música dos anos 60 dando espaço para aquele clima de pouco acolhimento que há no sopé dos Alpes e para dureza que há naqueles relacionamentos, que abriram mão de qualquer resquício de uma paixão acalentadora diante de um conformismo quanto a pouca possibilidade de seguirem com as vidas do modo como pretendiam quando eram novos e podiam sonhar.

Como a protagonista de Wright durante o longa de 2021, é fácil para Vicky Soler substituir a solidão por esta obsessão em acompanhar tão de perto o passado dos pais sem correr qualquer perigo quanto a ser vista por alguém. Durante estas breves desventuras pela história, Mysius a filma como uma espécie de voyeurista, observando e descobrindo o que não deveria sobre estas pessoas que, antes de assumirem suas responsabilidades como pais e mães, eram apenas jovens com sonhos e desejos. O horror desta narrativa, portanto, revela-se através da descoberta da possibilidade de uma não existência para garotinha, e neste ponto, a cineasta, diante das três personagens que compartilham este cenário, volta-se a uma culpabilização imediata da repressão do amor entre dois iguais que tem sido fomentada por uma linha de pensamento preconceituosa e retrógrada.
Não há uma vírgula sequer neste discurso de culpabilização de Mysius que já não tenha sido dita anteriormente, ou até mesmo sido desenvolvida de um modo um tanto quanto melhor por qualquer outro realizador que tenha se aventurado pelo cinema de representatividade LGBTQIA+. Entretanto, há uma certa beleza de aquecer o coração em acompanhar, não muito tempo após a protagonista ter descoberto sobre o amor entre essas duas mulheres, uma Joanne completamente sem paciência com as pessoas daquela cidade puxando Julia para estar ao seu lado no palco, em meio a tantas luzes neon, e cantando desafinadamente “Total Eclipse of the Heart” diante de todos aqueles que não hesitaram em apontarem o dedo e excluírem a recém-chegada. É tanto um ato de resistência protagonizado por alguém que não caiu completamente na conformidade da vida quanto uma declaração sobre a paixão entre elas não estar perdida.
Jimmy Soler (Moustapha Mbengue), pai de Vicky e marido de Joanne, acompanha o desdobramento deste momento boquiaberto, demonstrando que finalmente está se dando conta do que não tinha percebido durante todos esses anos. Sua reação, entretanto, reflete aquela que parece ter sido outra intenção de Mysius ao contar esta história. Não há muito para o ator ou qualquer outro nome masculino no elenco de apoio fazer, isso é devido não somente as atuações das três mulheres principais serem poderosas o bastante para sustentarem os próximos acontecimentos para onde quer que a cineasta escolha levá-los, mas também ao fato de que “Os Cinco Diabos” é um filme sobre as dores e outros tantos sentimentos do universo feminino contado através de uma perspectiva feminina. Há uma miríade de temáticas abarrotando seu texto, mas essencialmente, este é o seu foco.
Ao passo em que o amor é redescoberto pelos adultos, que até então estavam vivendo em um estado de absoluto torpor, e descoberto pela garotinha que escolheu se aventurar pelo passado sem ter conhecimento do que encontraria por lá, a penetração das cores vibrantes no trabalho de Paul Guilhaume acelera o processo de degelo da paisagem pouco acolhedora do sopé dos Alpes introduzido durante aqueles primeiros minutos, chegando ao ponto em que desaparece completamente durante o incêndio catastrófico que encerra “Os Cinco Diabos”. Desde a primeira temporada do sucesso da Netflix, “Dark”, as mirabolâncias de uma viagem no tempo em uma cidade cheia de ressentimentos não eram tão empolgantes de acompanhar, principalmente quando acrescidas das experiências fundamentais à uma jornada de amadurecimento e de um romance cuja paixão foi capaz de sobreviver a passagem dos anos.
Nota: 7,0

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