Por Thiago Barboza

“Memória Sufocada” é o título do documentário que teve sua estreia agora dia 30 de março, um dia antes da data de quando o golpe militar ocorreu, em 1964. O filme que tem direção de Gabriel Di Giacomo, propõe um olhar aprofundado sobre o DOI-CODI, um antigo órgão da ditadura que funcionou na cidade de São Paulo. Ao se debruçar primeiramente no que aconteceu no prédio que serviu de base para imagens do filme, o diretor consegue exportar a visão micro sobre o órgão ditatorial para uma visão macro, denunciando os atos da ditadura e mostrando como a engrenagem da opressão funcionava em harmonia nos mais diversos níveis hierárquicos nacionais.

Desde seus primeiros instantes, o longa choca e estabelece qual é a linguagem pensada por seu diretor. Ao intercalar falas gravadas de Carlos Alberto Ustra e imagens do prédio hoje abandonado, podemos pensar que na verdade estamos assistindo um filme de terror. A forma com que o ex-militar fala em seu depoimento aliado aos corredores escuros e inóspitos do local torna quase que impossível o espectador não imaginar os horrores que ocorreram dentro daquelas salas durante o funcionamento do Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna.

O recorte que o filme apresenta é principalmente o período enquanto Ustra esteve à frente do comando do órgão, de 1970 a 1974. A partir deste ponto, transitamos entre depoimentos de vítimas e militares da época para imagens das pesquisas da equipe que nos levam a relatos norte-americanos de como os EUA se envolveram para que o Golpe de 64 acontecesse. Talvez o principal momento deste ponto apresentado seja a apresentação da entrevista que Carlos Lacerda deu ao programa “Firing Line”. A condução da entrevista feita pelo apresentador e as respostas de Carlos se encaixam perfeitamente nos momentos em que ela é inserida, dando ritmo ao documentário e facilitando a transição de argumentos ao longo do filme.

© Embaúba Filmes.

Apesar de delicado, o tema que o documentário apresenta é extremamente necessário para discussão. Para as gerações mais novas, o assunto da ditadura pode parecer chato ou distante demais para se importar, o que pode construir o desinteresse e dificultar o real entendimento do momento. O filme traz na sua linguagem uma possível solução para este problema e com certeza seu principal acerto. Com o uso intenso da edição e do videografismo ao longo de todo o filme, o diretor traz para a realidade juvenil os temas abordados na obra. Através de vídeos curtos, mensagens na tela que simulam os aplicativos de hoje em dia e “prints” de páginas da internet, o filme diminui a distância entre o que é tratado e os dias atuais e facilita a compreensão para a juventude atual.

Com essa estilística estabelecida ao longo dos 76 minutos de duração do filme, a obra se destaca na abordagem objeto analisado ao mesmo tempo que não diminui o impacto do que é mostrado. Sendo a esmagadora maioria imagens de arquivo, o filme conta com inserções pontuais do prédio do DOI-CODI que pode trazer ao espectador mais ansioso um ar simplório para o filme, mas que é logo deixado de lado ao analisarmos a sensibilidade e o tato que a edição junto com a direção e fotografia tiveram em montar o filme da forma que ele foi finalizado, demonstrado a importância do projeto para todos os envolvidos e a clara mensagem que o documentário deseja passar.

Para a realização desse projeto o diretor Gabriel Di Giacomo, que também assina o roteiro, precisou passar por uma extensa pesquisa sobre o órgão em que ele se debruçou, sem contar com o período da ditadura como um todo. Dado o grande recorte temporal, além da complexidade do período, o filme “Memória Sufocada” gerou um site homônimo que conta com a programação do longa, além de mais conteúdo proveniente da pesquisa para o filme, enriquecendo ainda mais o debate levantado pela obra.

“Memória Sufocada” não é um filme fácil. De um lado a dificuldade que a equipe passou com o trabalho de pesquisa, a seleção de imagens, o tema tratado e do outro a dificuldade de um espectador menos familiarizado com o tema ouvir os relatos e ver fotos das pessoas que se foram. Diante deste cenário, “Memória Sufocada” torna-se uma boa realização fílmica e ganha seu lugar na discussão do assunto, principalmente servindo de porta de entrada para um público que ainda não se interessa pelo tema.

Nota: 7

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