Em uma das curtas histórias contidas dentro do ótimo longa-metragem de 2014 “Relatos Salvajes“(“Relatos Selvagens” no Brasil), dirigido por Damián Szifron, intitulada “El más Fuerte” (O Mais Forte), acompanhamos um homem viajando pelo deserto em um carro de luxo, que se depara com outro homem dirigindo um carro muito simples. Se você ainda não assistiu ao filme, deixo a forte recomendação. Szifron conta histórias que são em sua maioria muito violentas, mas que utilizam tal violência para fazer comentários poderosos e irônicos (chegando às vezes até a serem engraçados) e muito críticos à estrutura da nossa sociedade e ao senso de moral e ética de seus integrantes.
A nova série da A24 que estreou esta última semana na Netflix, “Beef “, me fez lembrar a sensação de assistir ao longa argentino pela primeira vez. Especialmente à história mencionada anteriormente. Não só por ambos os produtos começarem (e quase terminarem) com perseguição de carros, mas por “Beef ” nos apresentar camadas muito baixas do comportamento humano que qualquer um de nós pode chegar ou presenciar sem nem nos darmos conta.
Não vou tentar resumir a série ou a proposta, mas também vou deixar a crítica livre de spoilers. “Treta”, o título brasileiro da série, é exatamente o que temos aqui. Um incidente isolado e não muito grave entre dois adultos, que poderia ter passado batido. Outras pessoas na mesma posição, ao receberem uma buzina no trânsito apenas ignorariam e seguiriam seu dia, e de maneira semelhante, se estivessem na outra posição, nem teriam buzinado. No entanto, nossos personagens, assim como os de Relatos Selvagens, parecem não conhecer o significado de paz, e não somente no trânsito.
Danny Cho é o típico “hustler“, pessoa que está sempre fazendo mil e uma coisas, não necessariamente relacionadas à sua profissão ou vocação primeira, para conseguir se sustentar e sustentar sua família. Nesse sentido, o personagem lembra o protagonista de outra série da Netflix em parceria com a A24, “Mo” (fica inclusive outra recomendação de uma ótima série). Outra semelhança entre Danny e Mo é o fato dos dois serem imigrantes. Esse tipo de experiência, daqueles que ainda criança saíram de seus países de nascença para se mudar para os Estados Unidos com a família vem sendo mais frequentemente retratado na cultura pop. Danny tem o sonho de trazer seus pais idosos da Coréia do Sul para viverem em uma casa grande e luxuosa em Los Angeles, cidade onde ele vive em um local consideravelmente menos luxuoso. Tal vontade é claramente um reflexo direto do American way of life, o Estilo de vida americano, que influenciou principalmente as gerações dos anos 50 aos 80.
O estilo de vida americano consistia em se ter a casa própria, uma família, inúmeros eletrodomésticos…enfim, tudo para fazer com que a sociedade se tornasse cada vez mais consumista. É com uma mentalidade assim, que domina até hoje a sociedade do ocidente do planeta, que vivemos nossas vidas negligenciando as pessoas a nossa volta e muitas vezes nossos próprios desejos íntimos, por estes não condizerem com o plano consumista que o capitalismo agressivo traçou para nós muito antes de nascermos. Pode parecer que eu estou dando uma volta enorme ao redor do assunto, ou que essa discussão não tem absolutamente nada a ver com a série, mas Treta é mais um produto que nos mostra muito bem que nossas ambições profissionais e materiais nunca serão suficientes para nos trazer realização pessoal.

Estar bem consigo mesmo é um privilégio que não acredito ser desfrutado por ninguém 100% do tempo. Há sempre algo sobre nossas vidas que sentimos que deveria ser melhor, que poderia ser diferente. Pode-se argumentar que o sentimento de insatisfação se faz até importante para nós como sociedade. Afinal, se estivermos satisfeitos ficamos estagnados, e os grandes feitos da humanidade partiram, de um modo ou de outro, da indignação e sentimento de que as coisas poderiam e deveriam ser melhores.
Trazendo a análise de volta ao enredo da série, do outro lado da história, mas tematicamente colada à de Danny, acompanhamos os dramas e tribulações de Amy Lau. Dona de uma loja de plantas extremamente bem sucedida (há uma oferta milionária pelo seu negócio batendo à porta), casada com um artista não tão bem sucedido (que mais faz o trabalho de “dono de casa”) com quem tem uma filha pequena que ama mais do que tudo, vivendo uma vida feliz e livre de preocupações financeiras em uma casa enorme num ótimo bairro de Los Angeles. Qualquer um de nós adoraria estar no lugar de Amy, ela parece ter a vida perfeita, a vida que muitos de nós gostaríamos de ter. Diferente de Danny, ela não tem nenhum problema financeiro para se preocupar. Ainda assim, existe algo dentro dela que nunca a deixa desfrutar de sua aparente vida perfeita. O processo de venda de sua empresa a está estressando, mas não somente por ser complicado e burocrático. Pois, mesmo com Amy dizendo a todos e a si mesma que está pronta para vender seu negócio e se dedicar mais à sua família, especialmente sua filhinha June, há algo dentro dela que sabe que, se vender a companhia, haverá um enorme vazio em sua vida.
É como se ela precisasse do estresse, precisasse da correria e da emoção de se fechar um contrato, de lidar com funcionários, de sentir que está no controle. [mini spoiler] A cena em que se masturba com uma arma de fogo, para mim, é uma representação imagética perfeita do confronto e do pensamento da personagem interpretada por Ali Wong. Ela quer sempre estar no controle (para muitos, especialmente norte-americanos, armas de fogo trazem uma sensação de segurança), mas ao mesmo tempo há uma contradição aqui, pois uma arma também é muito perigosa. Então assim Amy nos mostra que sim, ela está sempre brincando com o perigo, mas isso a excita, pois sabe que, no fundo, é ela quem está no controle da situação. É ela quem está segurando a arma.
Por conta disso é que a série se torna tão prazerosa de se acompanhar. Porque se de um lado temos Amy querendo sempre estar no controle de sua vida, provando a todo momento para si mesma e para todos ao seu redor de que consegue lidar com quaisquer adversidades, do outro lado está Danny Cho, que incansavelmente busca suas próprias maneiras de crescer financeiramente, sempre estando um passo à frente de todos, também sentindo a todo instante que está, ou ao menos deveria estar no controle de toda e qualquer situação.

Quando disse no início da crítica que nossos personagens principais parecem não conhecer o significado de paz, me referia justamente à esta sensação que os habita a todo momento, uma voz no fundo de suas cabeças dizendo que na verdade eles nunca terão o controle, e vê-los tentar lutar contra essa voz é muito interessante. Querer sempre estar à frente é arriscado, porque nossas vidas muito raramente são previsíveis. E é aí que está a graça da série, ao imaginar o que aconteceria quando dois maníacos por controle se envolvem em um jogo de gato e rato, no qual um está sempre sendo passado para trás pelo outro, está sempre perdendo e retomando o controle, cada vez com riscos, consequências, e prêmios maiores.
Assim chegamos ao ponto técnico mais alto da série, a meu ver, ao lado de sua escrita. Ali Wong e Steven Yeun, que interpretam os protagonistas, são provavelmente o maior destaque da produção. Conhecia Wong apenas por seus especiais de comédia, e apesar de estar extremamente engraçada em todos os episódios, com suas expressões fazendo parecer que vai explodir a qualquer momento mas mantendo um sorriso forçado, me fez acreditar totalmente no drama mais intenso que carrega consigo. Sobre Steven Yeun não há muito o que comentar, o ator já havia se provado em trabalhos anteriores, mas aqui segue entregando seu melhor. Ele atua em um alcance muito variado, que vai da raiva ao arrependimento, do afeto à vulnerabilidade (há uma cena na igreja que é um ótimo exemplo deste último ponto).
Seus dois personagens não são modelos de cidadãos de bem, arautos da moral e ética humana, muito pelo contrário, é possível dizer que são personagens detestáveis. Atualmente estamos observando um crescimento do afeto do público para com os chamados anti-heróis, protagonistas com valores questionáveis mas com suficientes traços relacionáveis que nos fazem torcer por eles. Aqui temos dois anti-heróis, e que não lutam pelo bem, pelo contrário, estão sempre tentando causar o mal um para o outro. São personagens que parecem buscar o caos, persegui-lo, e se alimentar dele. Apesar de demonstrarem odiar um ao outro, não podem negar suas semelhanças, de modo que sempre acabam se atraindo para a vida do outro. Ainda assim, e adicionando o mérito dos atores, a química quase que instantânea, e nem mesmo exclusivamente física (considero que essa química é sentida mesmo quando os protagonistas não estão juntos no mesmo espaço, de maneira talvez puramente temática) é inegável e muito poderosa. Sabemos, assim que somos apresentados aos dois, que um não sairá da vida do outro tão facilmente.
Dessa maneira, considero o final da primeira temporada até um pouco previsível, e com um caminho até ele um pouco longo demais, mas de forma alguma decepcionante, e mal posso esperar para poder conferir a continuação, caso se confirme. Os pontos negativos de Treta, apesar de existirem, na minha visão, são muito superados pelos quesitos positivos, de modo que considero inútil me estender sobre eles. Só deixaria a crítica mais longa e mais chata. Espero que tenham gostado, e lembrem-se, sejam gentis no trânsito. Nunca se sabe, né.
Nota: 9,0

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