Por Matheus Britto

Em “Criaturas do Senhor”, Aileen O’Hara (Emily Watson) desempenha um papel tanto de uma mãe que, como qualquer outra, precisa lidar com um processo de redescoberta no que diz respeito a quem é seu filho quando está inserido em meio aos demais vínculos que estabeleceu durante os anos em que esteve naquela ilha, quanto de uma cúmplice que, em um primeiro momento, não hesita em acreditar na inocência do rapaz quando este é acusado de um crime hediondo. Temente a Deus e uma voz a ser ouvida entre as mulheres daquela comunidade, principalmente aquelas que trabalham na fábrica de separação de ostras, a personagem quer apenas manter Brian (Paul Mescal) ao seu lado pelo máximo de tempo que for possível após seu inexplicável retorno da Austrália.

O longa abre com um acidente. Para aqueles que se aventuram pelas águas imprevisíveis que cercam aquela paisagem litorânea, a possibilidade de uma morte por afogamento não é parte do desconhecido, é, na verdade, uma constante. Enquanto os habitantes demonstram solidariedade para com a família do falecido, Brian retorna ao local, sendo bem recebido por boa parte das pessoas que estão presentes. Sua irmã, Erin (Toni O’Rourke) é imediatamente acolhedora, bem como sua mãe, que demonstra surpresa pelas mudanças pelas quais seu filho passou no decorrer destes sete anos em que esteve na Austrália. No entanto, logo torna-se claro que ele não nutre um bom relacionamento com seu pai, Con (Declan Conlon), cuja recepção claramente distante destaca a existência de um conflito mal resolvido entre eles.

A alegria causada pelo retorno de Brian e sua tentativa de se readaptar a esta comunidade não dura o bastante. No roteiro de Shane Crowley, “Criaturas do Senhor” não tem o que possa ser considerado como suficiente para que este tropo de uma mãe descobrindo uma nova face de alguém que ama valide qualquer decisão de torná-lo um drama a ser solucionado em um tribunal, refém de longos discursos declamados entre acusado e acusador. Ao abordar o surgimento deste dilema tanto maternal quanto moral no seio de Aileen, em dúvida em relação ao caminho que deve seguir, a roteirista, com tantos personagens tementes a Deus, está inclinada a procurar por um encadeamento entre conflito e solução que permaneça em um nível entre humano e Divino.

Para Aileen, acreditar na inocência do filho é também acreditar que aquele rapaz, aos 35 anos de idade, é o mesmo garotinho que ela luta para preservar na memória. O contrário disso seria atestar que falhou, mesmo diante de tamanha luta, ou, na melhor das hipóteses, que uma parte fundamental passou diante de seus olhos durante este processo de criação, a impedindo de enxergar o que estava errado. Com a infância há muito tendo permanecido no passado, este crime confirma o pior para uma mãe: a inocência desapareceu em Brian. No entanto, ela não é somente alguém que está desempenhando uma função maternal, é também uma mulher, que lidera outras quando estão trabalhando em uma dinâmica de equipe e as escuta sempre que for possível.

Em uma era em que movimentos como o #MeToo seguem incentivando mulheres a seguirem adiante com as denúncias contra os seus abusadores, e a safra de produções que denunciam a persistência desta mazela social tem aumentado anualmente, a jornada de Aileen em “Criaturas do Senhor” assume um caráter de manifestação contrária ao silenciamento das vítimas através deste legado histórico-cultural determinado a proteger o acusado. Não é a protagonista de Watson quem sofre o crime, e pelo pouco que é apresentado de seu passado, ela nunca chegou perto de lidar com uma situação como esta, entretanto, é nela que reside esta decisão de inocentar ou punir alguém que está visivelmente se aproveitando do protecionismo que os homens da comunidade têm para oferecer.

Emily Watson e Paul Mescal em still de “Criaturas do Senhor”. ©A24

A relação entre Aileen e Brian é baseada neste amor em excesso, nesta proteção que parece não enxergar um limite entre o que é aceitável e o que é ser excessiva, neste anseio por mantê-lo ao seu lado pelo tempo que for possível após sete anos nutrindo, em silêncio, este sentimento de saudade que somente uma mãe é capaz de sentir por seu filho. “Você não quer ouvir o lado dela da história?”, questiona Erin, em uma forma de cutucar este despertar da protagonista para fora desta bolha na qual está inserida para acreditar na inocência do rapaz. Aos 35 anos, pode ser que ele não seja tão inocente quanto ela está se esforçando para continuar acreditando, não hesitando quanto a ser uma cúmplice em um primeiro momento, forjando um álibi para noite em que este crime ocorreu.

No entanto, além de um subtexto que transita entre uma manifestação de caráter social e uma provação Divina que levará esta personagem a lidar com uma revelação interior, para um filme que precisa estar em compasso com a sugestão, a direção de “Criaturas do Senhor” carece deste fator, principalmente na forma como escolhe acompanhar Brian em sua chegada e permanência no local. Acreditar na dor de Aileen enquanto uma mãe que se recusa a presenciar a perda da inocência de seu filho é fácil, porém, o rapaz é introduzido como alguém extremamente unidimensional. Quando o crime é denunciado, é mais fácil acreditar que ele realmente o cometeu do que o contrário disso, por exemplo, uma vez que, até então, tudo o que fora apresentado aponta para alguém não tão gentil quanto parece.

Se existe qualquer outra qualidade que possa colocar em cheque esta possibilidade de o personagem de Mescal ser culpado, além do fato de que sua mãe está se agarrando a esta pontinha de esperança quanto a preservar a inocência do rapaz que ama desde o primeiro momento em que ele respirou após sair de seu ventre, o filme demonstra pouquíssimo interesse em apresentá-la. É, de uma certa forma, como se a tradução da jornada de Aileen em um manifesto levasse os responsáveis a temerem pela mensagem que poderiam acabar transmitindo quanto ao modo como esta vítima escolheu seguir em frente com a denúncia e as consequências com as quais precisou lidar dentro daquela comunidade até que finalmente pudesse encontrar uma resolução.

Para estas criaturas do Senhor que estão vivendo na escuridão, Chayse Irvin captura cada centímetro desta paisagem irlandesa para transformá-la em um pedaço claustrofóbico tanto para aqueles que estão sendo duramente silenciados quanto os que estão tentando ignorarem a provação Divina pela qual estão prestes a passarem. Juntamente ao som pacífico do oceano e a aspereza das ostras quando estão sendo separadas na fábrica local ou quando estão colidindo no fundo de um barco pesqueiro que navega contra a maré turbulenta, “Criaturas do Senhor” transporta o público para uma comunidade litorânea cuja união é apenas mais uma forma que encontraram para continuarem disfarçando a desigualdade e a conformidade entre gêneros fomentadas pela veia patriarcal.

Além da atuação de Watson e do esforço de Mescal com o pouco que recebe, pouco pode salvar “Criaturas do Senhor” do vazio com o qual se depara. Acontece que, embora a dor seja perceptível na jornada de Aileen justamente pela ideia de ser uma mãe lidando com a confrontação de uma face ruim do próprio filho, o longa está em um espaço-comum tão desinteressante quanto outras iterações que, no passado, tentaram seguir por um caminho semelhante a este. Com Brian sendo declarado culpado logo após sua chegada nesta ilha, não resta muito o que esperar além do momento em que a protagonista finalmente perceberá a verdade e recorrerá, durante um ato final de autoconsciência, à uma ação que soa metaforicamente bíblica e questionável ao mesmo tempo.

NOTA: 5.0/10

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