Por Matheus Britto
O que é que está acontecendo com a maternidade dentro do cinema de horror em 2023? Qualquer que seja essa resposta, está se espalhando rápido o bastante. Recém-saídos dos lançamentos de “A Morte do Demônio: A Ascensão” e “Beau tem Medo”, ambos sobre mães e o impacto de cada uma em seus filhos, chegou o momento de experimentarmos outra experiência que o gênero pode proporcionar em um espaço tão curto de tempo. Desta vez, através de “O Nascimento do Mal”, que, dentre as muitas sensações que poderia causar, revive o que seria se deparar com um clichê de capa duvidosa em uma estante da locadora mais próxima, e, por puro impulso, alugá-lo para uma noite de sábado.
Depois de estrelar as duas adições recentes da franquia “Pânico” como Sam Carpenter, chegou a vez de Melissa Barrera participar de um clássico clichê de casa mal-assombrada no interior dos Estados Unidos, acrescido dos perigos da maternidade e de traumas do passado. Sob a direção da estreante Lori Evans Taylor, a potencial “Scream Queen” da geração atual deixa para trás Woodsboro e toda metalinguística da franquia slasher para assumir seu papel como Julie Rivers, uma esposa dedicada que, após um acidente, precisa repousar em sua nova casa ainda em reforma para que não coloque a segurança de sua criança em risco no decorrer das semanas que antecedem o dia do nascimento.
O potencial do longa esvazia-se à medida em que se torna claro que este é o caso de um daqueles clichês de locadora que, no final das contas, tem em seus personagens e sua narrativa uma derivação de um clássico do cinema ou de qualquer outro filme que tenha obtido um bom desempenho nas bilheterias durante seu lançamento no ano anterior. Sem qualquer incentivo a uma linha de questionamento quanto ao que pode estar realmente acontecendo com a protagonista nestas semanas de repouso, Evans Taylor segue uma Barrera esforçada em lutar contra o vazio de uma casa mal-assombrada que se torna tão desinteressante quanto seu drama sobre estar ou não tendo alucinações com seu filho morto.
A cineasta estreante escolhe dar o pontapé de sua carreira através do terror e parece conhecer o bastante do gênero em questão para dirigir sua protagonista, no decorrer do terceiro ato e consequentemente da parte final do processo desta gestação ameaçada por forças externas, como se esta fosse uma personagem moderna espelhada no visual de uma Deborah Kerr ou qualquer outra atriz que esteve em destaque no meio gótico em meados das décadas de 1960 e 1970. No entanto, Evans Taylor nunca vai tão longe quanto poderia em qualquer forma de impulsionar uma reação diante daquela situação. Por que deveríamos nos preocupar com esta gravidez sendo que nenhuma ameaça convincente fora construída até então?

Em contramão aos demais nomes do elenco, Barrera corresponde a parte das expectativas da diretora, encarnando uma personagem vulnerável, mas que conserva dentro de si o que lhe resta de força para que possa lutar contra quem quer que tente interferir no nascimento de sua criança. Sua atuação, entre um maneirismo e outro, tão notáveis aqui quanto nas duas adições de “Pânico”, principalmente durante o terceiro ato, a coloca no patamar de uma mãe que está determinada a fazer o possível e o impossível pela sobrevivência de seu bebê. Afasta-se a vulnerabilidade e surge, juntamente com a mensagem piegas dos minutos finais, alguém que não teme encarar de frente este fantasma que está perambulando pelo local.
“O Nascimento do Mal” debruça-se sobre o que há de mais basilar quanto a exercitar um dos medos mais comuns de seu público, inserindo uma personagem vulnerável dentro de um cenário no qual todas as probabilidades estão contra sua sobrevivência, embora saibamos o final que esta história terá antes mesmo que o segundo ato tenha terminado, mas sem oferecer o bastante, tanto visual quanto textualmente, para nos preocuparmos além dos primeiros vinte minutos, em que Julie lida com o acidente e as primeiras aparições. Para alguém que está sendo perseguida, falta uma atmosfera capaz de cutucar insistentemente a curiosidade até do mais descrente entre os telespectadores.
Um amontoado de clichês que têm sido parte do terror há tanto tempo quanto é possível lembrar, o longa de estreia de Lori Evans Taylor engessa qualquer reflexão sobre maternidade, seja para temê-la ou romantizá-la, e não reconhece o que há de prazeroso em contar uma história que, embora esteja em um espaço-comum, é bem resolvida o suficiente para manter seu público na ponta do assento, aguardando pela próxima reviravolta, por mais previsível que possa ser. Enquanto “O Nascimento do Mal” gira superficialmente entorno de si mesmo por excessivas vezes, Melissa Barrera tenta seu melhor com o que recebe.
NOTA: 5,0/10

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