Por Fernando Grisi

Benjamin Caron é diretor de alguns episódios das séries “The Crown” e “Andor”. Aqui em “Sharper-Uma Vida de Trapaças”, lidera um elenco estrelado neste thriller que pretendia ser uma grande opção do streaming Apple TV+ para o começo do ano, mas tem mais erros do que acertos.

Como roteirista, estou sempre tentando observar o que aparece na Blacklist de cada ano, e Sharper foi um desses roteiros, ainda que não tenha sido escrito pelo diretor do filme. No entanto, para mim o roteiro acabou se mostrando o ponto mais fraco da produção. É perceptível, enquanto se assiste ao filme, a tentativa dos escritores em fazer o longa sempre estar um passo à frente do espectador. Não é uma comparação muito justa, mas não consegui deixar de lembrar do excelente filme “A Criada”, de Park Chan-Wook. O roteiro do filme sul coreano é um primor em criar reviravoltas e intrigas baseadas nas complexas relações interpessoais construídas ao longo da narrativa. O roteiro do filme norte americano, contudo, é muito mais focado em apresentar reviravoltas e plot twists para chocar o espectador, sem necessariamente construir a sensação de desconforto crescente tão essencial ao gênero suspense, e nem ao menos escalar as ações dos personagens até o momento de uma revelação bombástica, fazendo com que tais revelações pareçam vazias.

É natural que em uma produção focada em vigaristas e trapaceiros, nenhum dos personagens seja exatamente agradável ou nos faça sentir simpatia por suas ações egoístas e inescrupulosas. Mas por que não deveriam? Atualmente somos tão atraídos à figuras de anti-heróis, às vezes mais do que aos próprios heróis, e Sharper não se aproveita de nenhum de seus personagens inteiramente para construir uma relação próxima conosco. Novamente, é compreensível a escolha de mostrar todos (ou quase todos) os personagens tendo suas ações negativas gerando consequências negativas para eles, mas isso fez com que a experiência, para mim, fosse diminuída por tornar os participantes desta rede de intrigas unidimensionais e os beats apresentados previsíveis.

Briana Middleton e Justice Smith em cena de Sharper. © A24/Apple TV+.

A narrativa é dividida em capítulos, com cada um deles levando o título de e nos apresentando mais profundamente a cada personagem. Mas como comentei acima, o roteiro não parece ter interesse em nos aproximar de nenhum destes personagens, parecendo muitas vezes até repetitivo em suas colocações. Mesmo que eles sejam pessoas desprezíveis, é trabalho do roteiro fazer com que nos importemos com ao menos algum jogador deste maluco jogo de trapaças. Do modo como foi construída, a história faz com que fiquemos intrigados com os reais objetivos dos personagens apresentados, claro, mas nunca realmente engajados com eles. Por conta disso, o terceiro ato do filme, apesar de ter desagradado a muitos, não me incomodou. Pois foi ali, nos últimos vinte minutos, onde pude ter um gostinho de uma tensão maior na qual havia uma identificação da minha parte, e consegui realmente me importar com o que aconteceria agora que estávamos tão perto do final. E, mesmo sendo um tanto exagerado e apressado, não posso dizer que tenha sido uma resolução insatisfatória do ponto de vista narrativo. Já do ponto de vista moral tenho certas ressalvas, que não entrarei em detalhes para não dar spoilers.

A melhor parte do filme acaba sendo, não sei se seria surpresa para alguém, a atuação de Julianne Moore, que em meio a um elenco bastante estrelado se destaca bastante. Para mim o filme sem a atriz teria um trabalho muito mais difícil em se conectar com seus espectadores. A direção de Benjamin Caron é um elemento que infelizmente não surpreende. Apesar de ser eficiente em construir uma Nova York ora suja e desconvidativa e ora grandiosa e luxuosa, não faz muito considerando o potencial que tinha em mãos. O que acaba se destacando no aspecto técnico é a direção de fotografia de Charlotte Bruus Christensen, que tem em sua filmografia filmes como Fences e “Um Lugar Silencioso”. Ela consegue criar composições visuais muito significantes e agradáveis de se ver, novamente auxiliando na construção de espaços escuros e desconvidativos com uma câmera claustrofóbica ao mesmo tempo que consegue ressaltar os elementos da alta sociedade nova iorquina com suas linhas em construções grandiosoas, sempre com movimentos suaves que nos chamam para a ação.

Em suma, Sharper se consolida como boa opção no catálogo da Apple TV+, que mesmo não surpreendendo positivamente em nenhum aspecto, tem seus pontos positivos e chances altas de divertir os amantes de thrillers e outras produções que lidem com seus temas de trapaças e vingança em uma trama fácil de compreender.

NOTA: 6.4

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