Por Fernando Grisi

The Inspection, que não tem tradução para português, traz a história de um jovem negro gay que, morando nas ruas e sem perspectiva de um futuro, decide que irá se juntar à marinha americana. Este é o filme de estreia do fotógrafo e cineasta Elegance Bratton, que também assina o roteiro, muito baseado em suas próprias experiências como um negro gay que passou pela marinha de 2005 a 2010.

Acompanhamos Ellis French, jovem de 25 anos que começa o filme em um ponto bem baixo, vivendo em uma habitação popular. Lá, um senhor gay lhe dá um pequeno sermão e diz: “espero não te ver aqui de novo”. Talvez motivado pela fala em si, ou por uma certa homofobia internalizada revivida ao conversar com o senhor, Ellis retorna à casa de sua mãe para avisá-la que irá se juntar à marinha. Ali conhecemos a personagem interpretada muito bem por Gabrielle Union, que mesmo com pouco tempo de tela no geral faz sua presença – e o preço de sua ausência – ser sentido durante toda a rodagem. A mãe de Ellis, no entanto, é uma personagem bastante detestável. Ela desaprova a homossexualidade do filho, motivo de sua constante rejeição à ele. 

Não espere uma catarse, uma virada de 180 graus no caráter de Inez French, porque mesmo que fique orgulhosa de seu filho por completar o treinamento e se tornar um militar, ainda não consegue superar o fato de que nada e nem ninguém consegue alterar sua sexualidade. E isto é algo que, mesmo para os anos 200, parece já ter saído da definição de tabu, mas para Inez é algo com o qual simplesmente não consegue conviver em paz. Ao final do filme temos um lindo momento entre Inez e seu filho, onde além de enxergarmos a capacidade imensa da atuação dos dois, temos uma escrita muito sensível e primorosa que nos mostra bem essa complexa relação parental de amar seu filho, mas não conseguir aceitá-lo pelo que é. O filme acerta em não vilanizar completamente a personagem, mesmo que não simpatizamos com ela 100% do tempo, e também acerta em não forçar uma redenção ou mudança abrupta para a personagem buscando um final otimista. Achei interessante que o filme é inclusive dedicado à mãe do diretor/roteirista Elegance Bratton, Inell Bratton.

Gabrielle Union e Jeremy Pope em The Inspection. © A24.

É muito bom assistir a um filme da A24 – mesmo que este seja apenas distribuído por ela nos EUA – com protagonismo queer, até porque não existem tantos até o momento. Como uma pessoa queer é muito significativo, muito pessoal e também muito pesado e difícil me deparar com as cenas de rejeição e apagamento da sexualidade considerada desviante de Ellis. E isso se traduz tanto de maneiras mais explícitas, como um espancamento por parte de seus colegas de dormitório por desconfiarem que ele é gay, passando pelos insultos constantes e boicotes em atividades em grupo, mas de certa forma o que me afetou mais profundamente foi a maneira como o próprio protagonista se apagou e se silenciou durante a maior parte de seu tempo no campo de treinamento da marinha, se submetendo aos constantes abusos quase como se quisesse passar por eles, como se pensasse que merecia aquilo.

Jeremy Pope entrega uma atuação realmente digna de Oscar no papel principal. É possível ver toda a repressão de uma vida, tanto externa quanto a repressão que o próprio personagem acaba aplicando para ele, em suas expressões. E as expressões são extremamente importantes, pois Ellis é um personagem que não está sempre se comunicando por palavras. Na verdade, ele não está se comunicando de maneira geral durante grande parte do filme, apenas reagindo e internalizando suas emoções e seu sofrimento. 

Houve muitas conversas e críticas sobre como o filme parece romantizar o ambiente tóxico e agressivo da marinha norte americano. No entanto, penso que o que foi realizado aqui por Bratton foi mostrar uma história de superação. O longa não foge das violências, tanto verbais quanto físicas, que foram praticadas com o recruta homossexual, mas ao nos fazer seguir Ellis persistindo em sua vontade de virar militar para “ser alguém” e para deixar sua mãe orgulhosa, entendemos que se não estivesse ali poderia estar em um lugar muito pior, física e mentalmente. Então, no final do filme, mesmo com Ellis tendo conseguido êxito neste empreendimento que se propôs a fazer, somos levados a pensar que talvez tenha sido em vão, pois a aprovação de sua mãe, talvez o que ele mais buscasse, não foi atingido. No entanto, como em todas as jornadas narrativas clássicas, nem sempre o que o personagem quer é o que ele precisa. E só podemos especular – e esperar – que Ellis, ou deveria dizer, Jeremy, tenha tirado dessa experiência algo que tenha sido valioso para ele.

NOTA: 7,8

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