Por Matheus Britto
Tamanhas são as boas intenções de “O Último Ônibus” que parece inevitável esperar pelo momento em que o novo filme do escocês Gillies MacKinnon, afeito a capturar a gênese do que fora o melodrama em meados da década de 1950, tropeçará em si mesmo, como o próprio Tom de Timothy Spall acaba por fazer enquanto está perambulando por uma metrópole durante uma das muitas madrugadas que percorre. É claro que o problema não está na ideia de acompanhar o intérprete do famigerado Rabicho da franquia “Harry Potter” retornando para o lar que precisou deixar para trás quando era mais novo, mas em como se dá sua execução, tão focada em “aquecer o coração” do público com mensagens melosas sobre bondade e um mundo multifacetado que se torna uma derivação apática de “Up (2009)” de Pete Docter.
O novo longa de MacKinnon segue Tommy Harper durante uma jornada que parece durar tanto quanto qualquer odisseia cinematográfica recente com três horas ou mais de duração. Após o falecimento de sua esposa, Mary (Phyllis Logan), o protagonista de Spall decide retornar ao vilarejo que deixaram para trás após sofrerem com as consequências de uma tragédia familiar. No decorrer do tempo necessário para que o viúvo de 90 anos atravesse da Escócia até o sudoeste da Inglaterra, agora mais próximo do que nunca de uma civilização diferente daquela que o casal conhecera, acompanhamos as muitas mudanças pelas quais a Grã-Bretanha passou e em como esta nação passa a ser sensibilizada pela gentileza que o idoso demonstra para com aqueles que o cercam.
Há ternura na atuação de Spall. O mundo agora conectado as telas dos smartphones e demais aparelhos eletrônicos não parece ser um problema para Tommy, que, recém-saído do canto no qual passou a vida ao lado da esposa, lida bravamente com um assediador racista dentro de um ônibus e não hesita quanto a formar vínculos com as diferentes famílias que encontra ao longo do percurso, embora tão passageiros quanto a comunicação na era digital. Juntamente a MacKinnon e ao roteirista Joe Ainsworth, o ator afasta-se de uma postura que possa banalizar o que é a velhice, afinal o que acaba por fazê-lo chamar atenção das outras pessoas é o fato de não temer demonstrar que possuí idade o suficiente para ensinar uma lição ou outra acerca das experiências que adquiriu ao longo da vida.
É uma pena, entretanto, que MacKinnon não tenha aprendido o suficiente com seu protagonista para evitar os muitos excessos que comete enquanto dirige estes acontecimentos. Neste sentido, “O Último Ônibus” está bem mais próximo de um remake em live-action de “Up (2009)”, que segue a linha de um ultrarrealismo incapaz de aproximar o público da carga emocional despejada de uma forma cada vez mais constante durante as cenas, do que ser uma história sobre um homem cujas atitudes foram responsáveis por mostrar para tantas outras que, na era da intensa conexão digital, a bondade será a última a abandonar as relações mundanas. O longa está tão esforçado em sua tentativa de “aquecer o coração” de quem pode acabar por escolhê-lo como uma opção a ser consumida no cinema que ignora completamente a possibilidade de que tudo pode soar meloso e artificial.
Talvez durante a pandemia de COVID-19, quando os filmes estavam retornando timidamente as salas de cinema e buscávamos por uma reconexão humana através de histórias inspiradoras que pudessem ser projetadas na tela grande após tanto tempo vivendo sob o que o digital estava ditando como sendo o novo normal para aquele período, “O Último Ônibus” poderia representar uma opção segura a ser selecionada. Entretanto, em 2023, após tantas narrativas sobre reconexões já terem sido lançadas, o longa não deixa de soar um tanto quanto ultrapassado, principalmente ao pedir por um investimento emocional e demonstrar logo em seguida ser capaz de sustentá-lo por tempo o bastante em uma jornada de uma hora que parece se arrastar para além disso.
NOTA: 4.0/10

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