Por Fernando Grisi
Primeiramente, gostaria de agradecer a O2 Filmes pela cópia avançada do filme que me foi disponibilizada para que pudesse escrever esta crítica.
Medusa Deluxe estreou quinta-feira, 08/06 em circuito limitado no Brasil, e irá se expandir para outras cidades a partir desta próxima quinta-feira, dia 15/06. O filme britânico teve seus direitos de distribuição nos Estados Unidos adquiridos pela A24, e aqui no Brasil chega em mais uma ação da já consolidada parceria O2 Filmes/Mubi Brasil, na qual o filme chega primeiro nos cinemas e depois é disponibilizado no streaming da Mubi.
Medusa Deluxe é o longa-metragem de estreia do Inglês Thomas Hardiman, que até então havia escrito e dirigido apenas curtas-metragens. Aqui o diretor nos apresenta uma proposta diferenciada e muito instigante, e isso começa pela decisão de contar a história simulando um longo plano sequência, como foi feito no filme vencedor do Oscar em 2015 de melhor filme “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)”, que coincidentemente é outro filme sobre bastidores da indústria do entretenimento. Assim como no filme de 2014, aqui conseguimos perceber alguns cortes invisíveis, mas a escolha por essa maneira específica de contar a história faz bastante sentido considerando o gênero suspense e a vontade de inserir o espectador profundamente na trama, fazendo-o acompanhar os acontecimentos “em tempo real”, o quê aumenta ainda mais a tensão e a vontade por descobrir o que de fato está ocorrendo nos bastidores de uma competição de penteados artísiticos.
A história se passa ao longo de aproximadamente uma hora e meia, que é a duração do filme, nos bastidores de uma competição regional de cabeleireiros. O que significa que não chegamos a vislumbrar muito da competição em si, do palco, dos holofotes, mas ficamos “presos” com as personagens nos fundos do local do evento, em seus corredores, suas salas, seus refeitórios e banheiros. Logo nos primeiro minutos ficamos sabendo da morte de um dos competidores, e que a polícia já está no local investigando. A primeira personagem que conhecemos é Cleave, muito bem interpretada pela atriz Clare Perkins, que conta uma história sobre uma agressão que cometeu no passado com o homem assassinado. Logo de cara nós a colocamos como possível suspeita, mas Medusa Deluxe não é o típico “Whodunit” (filmes de suspense nos quais há o objetivo de descobrir quem é o assassino). O roteiro escolhe por focar justamente nas relações entre os participantes dessa indústria tão intensa e competitiva, e sobre a qual eu não sabia praticamente nada. O quê considero outro diferencial do filme: ele parece único, mesmo com o estilo de plano sequência não sendo mais algo novo em 2023.
Assim, ao longo do filme exploramos relações entre algumas personagens, especialmente as cabeleireiras e suas modelos, enquanto aguardam a polícia chamarem-nas para serem interrogadas. Elas tentam entender o que está acontecendo e quem pode ter matado seu colega, mas também revivem intrigas e rixas do passado e criam novos conflitos dentro desse contexto de estarem isoladas em um local cercadas por competidores ferozes. Aqui cabe comentar sobre as atuações. Não há um elo fraco sequer no elenco, apenas personagens que aparecem por mais ou menos tempo. O destaque que todos farão, acredito eu, será justamente para a personagem que vimos primeiro, Cleave, tanto que fiquei levemente desapontado quando nos afastamos dela durante boa parte da rodagem. Outro destaque que faço é para Harriet Webb, que interpreta Kendra, e Kayla Meikle, que faz o papel de Divine. Quando se filma em plano sequência, é essencial que os atores estejam muito bem preparados para entregar suas falas e suas reações nos tons corretos, e isso ocorre aqui, sem exceções. Destaque especial também para Heider Ali, que tem um papel bastante pequeno durante a primeira metade do filme, mas protagoniza um dos momentos mais intensos da obra.

Também temos uma subtrama, se é que posso chamá-la assim, do companheiro do homem que foi assassinado e agora está inconsolável com sua perda, Angél, enquanto o organizador da competição de penteados, René, tenta cuidar dele. Confesso que não me importei tanto com essa parte da narrativa, acredito que teria gostado mais se tivéssemos ficado mais focados nas cabeleireiras e em suas relações, mas tal subtrama serve bem ao ritmo da história, que por ser um grande plano sequência, corria o risco de ser maçante e estendida demais.
Ainda assim, senti que o filme poderia ser um pouco mais curto, um pouco mais conciso. Não chega a ser uma experiência cansativa, como mencionei, apesar de parecer ter mais que seus 95 minutos de duração, e entendo que uma certa sensação de cansaço poderia ser até esperada pelos realizadores, principalmente considerando a forma como a obra foi concebida. Mas, só para não deixar de falar sobre, penso que dez minutos a menos teria feito um favor para a história. A montagem de Fouad Gaber aqui é praticamente inexistente, o quê é uma característica positiva, visto que os planos deveriam parecer como um só. Por isso uma concisão por parte do editor seria algo difícil de atingir, e por isso acredito que em frente a esta dificuldade o ritmo é até que muito bem compassado.
Também preciso exaltar outros aspectos técnicos da produção, visto que a mise-en-scène dentro de um contexto de plano sequência é diferenciada e bastante complexa. O diretor Thomas Hardiman mostra bastante controle mesmo sendo este seu primeiro longa, criando uma sinfonia muito bem afinada entre todos os departamentos. Já mencionei as ótimas atuações, mas a direção de fotografia de Robbie Ryan também se mostra primorosa ao se aliar perfeitamente com as personagens e seus movimentos. A câmera sabe muito bem quando ficar parada e quando se mover, sempre muito intencionada de acordo com o local para onde a trama quer ir, emocional e fisicamente. Assim, é interessante analisar seus movimentos, pois no contexto das coxias do grande teatro/centro de convenções no qual os personagens estão inseridas, temos diversos ambientes diferentes com diferentes pessoas neles. Então o fato de, em uma cena a câmera “optar” por ficar com as modelos dentro do camarim quando uma cabeleireira vai ao banheiro, ou em outra cena “decidir” seguir um único personagem que pensávamos não ser tão relevante, é algo muito bem pensado e construído por Hardiman e sua equipe, que sempre nos deixa adivinhando e, para mim, é um dos maiores méritos da obra.
Obviamente não poderia deixar de falar sobre o trabalho do departamento de arte, principalmente no que diz respeito aos penteados. Créditos para Scarlett O’Connell, Anne Little, Eugene Souleiman e sua equipe. Não há nem muito o que dizer sobre, pois qualquer um que assistir ao filme, ou mesmo ao trailer, verá que os diferentes e extravagantes estilos de cabelos do filme são primorosos e diferenciados. Gostaria apenas então de exaltar o trabalho de figurino, feito por Cynthia Lawrence-John, e maquiagem também, responsabilidade de uma grande equipe, que podem passar despercebidos ao lado de tantos penteados magníficos, mas que são essenciais para a composição do todo das personagens, sejam as modelos ou as cabeleireiras, e que também estão muito bem feitos e atentos à detalhes.
A trilha sonora de Toby Williams também merece uma menção, pois apesar de não estar tão presente em quantidade, está certamente presente na qualidade. É enervante na medida certa, e aparece nos momentos certos, sem ser intrometida demais. Está ali para ressaltar as situações, e não para tentar criar um clima específico do zero sem os outros departamentos terem contribuído para tal. Ainda sobre a fotografia, cabe uma menção à iluminação, feita por Leo Olesker, que auxilia tanto a foto quanto a arte criando os ambientes que parecem muito reais, muitas vezes mal iluminados, ou até mesmo escuros, mas não por demérito da equipe de gaffer, muito pelo contrário, aliás. O ambiente escuro, desconvidativo e mesmo sujo proposto pela arte é lindamente ressaltado pelo departamento de iluminação. Além de haver experimentações com iluminações diferentes e mais “vivas” em certos momentos da narrativa.
Medusa Deluxe é um dos filmes mais intrigantes que assisti em 2023. Apesar de não ser tão intenso quanto poderia, e um pouco mais esticado do que precisava, o longa é uma estreia impressionante de Thomas Hardiman na direção, confirmando a habilidade da A24 em farejar novos talentos e trazê-los para seu catálogo nos EUA (vide Aftersun, de Charlotte Wells, ano passado). Muito bem atuado, com uma fotografia instigante e primorosamente executada, e penteados de matar (literalmente), este é certamente um lançamento que não deve ser perdido.
Nota: 7,4

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