Por Thiago Barboza

Uma obra de arte pode ser muitas coisas. Engraçada, triste, surreal, política, social, transgressora, pragmática. Quem vai definir isso é o artista e sua plateia. Com o cinema, não é diferente. Sendo a sétima arte, o cinema tem a capacidade de trazer todas as discussões possíveis em um meio ativo, de movimento, de consumo massivo.

A indústria norte americana é, sem dúvida, a principal máquina de cinema do mundo, com alcance e dinheiro quase que incomparáveis. Paralelo a esta afirmação, também é certo dizer que mesmo com todas essas ferramentas, o cinema estadunidense pecava em tratar assuntos que são da realidade da nossa sociedade contemporânea.

Com isso, durante muito tempo a indústria cinematográfica fugiu desse papel de difusor de ideias. Claro, sempre ouve a celebração do cinema pelo cinema, mas pautas importantes passavam por baixo do radar do “mainstream”. De um tempo pra cá este cenário vem mudando, e “Moonlight” é um desses exemplos de mudança.

De início, é importante frisar que não basta filmes com pautas importantes como racismo, homossexualidade, identidade de gênero serem feitos de qualquer jeito. A escolha de toda a equipe de “Moonlight” foi essencial para traduzir a ideia do roteiro para filme através da sensibilidade e lugar de fala que todos os envolvidos tinham sobre o assunto. Do diretor Barry Jenkins ao ganhador do Oscar por seu papel no filme, Mahershala Ali, “Moonlight” é um filme especial, que ataca assuntos importantes e pessoais para tantas pessoas de uma forma sutil, mas poderosa.

Chiron (Alex Hibbert) e Juan (Mahershala Ali) em cena comovente de “Moonlight”. © A24.

No filme, seguimos a jornada de Chiron, Little para os íntimos. Durante sua infância, Chiron encontra Juan, interpretado por Mahershala Ali e deste ponto em diante, sua vida começa a mudar. Interessante notar que o filme praticamente começa com o encontro entre os dois, contando os problemas que Chiron enfrentava através de diálogos e passagens que remetem a este passado sem Juan em sua vida. Nota-se que o principal ponto é como Chiron se desenvolve e descobre a partir deste acontecimento.

Junto da proposta de acompanhar nosso protagonista ao longo de sua vida, vem a competência artística para trazer essa proposta à tona. O trabalho de fotografia do filme é impecável, usando de cores bem presentes e fortes para demonstrar os diferentes sentimentos que Chiron tem nos diferentes pontos de sua trajetória. A direção de Barry Jenkins traz uma câmera móvel, que se move dentro das cenas para nos ambientar, mas que sabe quando parar e dar a ênfase necessária ao momento retratado e que marca o crescimento de Chiron como pessoa.

Achar que o sucesso e reconhecimento que “Moonlight” recebeu faz parte de alguma cota ou algum dever de celebrar obras com pautas importantes é, no mínimo, idiotice. Quem assiste ao filme é atingido pelo poder que ele transmite, pela sua mensagem, pela competência em que ele foi feito. Pelos seus personagens reais, palpáveis, alcançáveis, relacionáveis. É um filme que faz você levantar dúvidas e questionar, por exemplo, como que eu demorei tanto para finalmente assisti-lo.

É impossível terminar de assistir “Moonlight” sem se emocionar. Independente de nossas etnias, crenças, visões, uma vez que você se abre ao filme, ele te atinge como um trem e reforça o poder que um filme bom tem sobre as vidas das pessoas que o assiste.

NOTA: 8,5

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