Por Fernando Grisi
Sou um grande fã do cinema de Caetano Gotardo. De todo o pessoal da produtora “Filmes do Caixote”, aliás. Esse grupo de jovens saídos da faculdade de Cinema da Universidade de São Paulo no início da década passada criou filmes muito interessantes e apresentou ao mundo nomes como Juliana Rojas, Marco Dutra e, claro, Caetano Gotardo, que assume em “Seus Ossos e Seus Olhos” a função de diretor, roteirista e montador. O filme foi exibido pela primeira vez no Festival de Rotterdam em 2019, e desde então entrou na minha lista. Foi uma pena ter esperado quatro anos para finalmente poder assistir ao mais novo trabalho do diretor, mas fico feliz que ao menos todos terão a chance de vê-lo, já que o filme estreia nesta quinta-feira, dia 22, nos cinemas brasileiros.
O primeiro longa-metragem realizado por Caetano Gotardo que assisti foi o musical “O Que Se Move”, de 2012. Este não é o clássico musical norte-americano com o qual estamos acostumados. Nele, Gotardo aplicou dispositivos mais simples, nada glamourosos e de certa forma mais realistas (se é que tal conceito pode ser aplicado ao filme musical). Seus números se davam prioritariamente por performances declamatórias de personagens quase estáticos no plano, mas que, ao invés de engatarem em um monólogo sobre uma situação trágica que acabara de lhes passar, as cantavam.
“Seus Ossos e Seus Olhos” apresenta uma proposta diferente e ao mesmo tempo muito familiar aos apreciadores do cinema nacional contemporâneo independente. Suas características mais presentes sendo o hiper-realismo (como por exemplo em “Ela Volta Na Quinta”, de André Novais Oliveira), a crítica social, seja ela sutil ou não, aliada a temas bastante urgentes, via de regra voltados, e mesmo protagonizados por minorias sociais. Outro cineasta brasileiro contemporâneo que admiro imensamente, Leonardo Mouramateus, uma vez disse que não gosta de pensar seus filmes para serem realistas, visto que o próprio entendimento por parte do público de que estão experienciando uma obra de ficção quebraria de certa forma a ilusão de que algo exibido naquela tela poderia ser entendido como “real”.
Em “Seus Ossos e Seus Olhos”, Caetano Gotardo parece vir com uma aproximação semelhante a esta ideia. Pode parecer que, por se tratar de um filme um tanto “lento”, onde a narrativa não apresenta arcos dramáticos claros de acordo coma estrutura clássica, e o foco se dá principalmente no banal, no cotidiano, que se trata de mais uma produção hiper-realista à la Filmes de Plástico. No entanto, há aqui um aspecto performático quase teatral. Os personagens não conversam, não se expressam da maneira como falamos uns com os outros no dia a dia. Há muitos monólogos que não ressoam conversas corriqueiras, mas que se mostram detalhadamente escritos e interpretados. Daí a ideia de uma teatralidade, não primando por uma transparência cinematográfica, segundo os conceitos de Ismail Xavier. Sendo assim, a “falta” de uma trama aqui não diz respeito a uma observação minuciosa de uma câmera espiã na vida de pessoas comuns, dos acontecimentos diários pelos quais todos passamos. Em vez disso, tal “falta” vem da vontade do realizador em criar ambientes e situações controladas.

É fato que este longa é bastante autoral. O próprio diretor se coloca como personagem central, atuando e dirigindo, além de ter escrito o roteiro e feito a montagem do filme. Não digo isso no sentido ruim que diretores que buscam realizar diversas funções em seus projetos assumiram nas conversas atuais, pois pessoalmente não tenho essa visão negativa, ao menos não de modo geral. Mas pode-se perceber que há muito do diretor em João, o personagem principal do filme, que também é um realizador audiovisual.
Em “Seus Ossos e Seus Olhos”, a trama, apesar de, como dito anteriormente, podendo passar por inexistente ou despretensiosa, somente é feita de momentos pontuais sem conexão narrativa aparente, mas ao analisarmos a sucessão das sequências temática e formalmente conseguimos encontrar sim bastante espaço para análise narrativa. Podemos usar como exemplo o motif recorrente da narração que os personagens fazem de eventos que ocorreram com eles, após os eventos terem ou não acontecido com eles. Uma experiência pessoal se torna monólogo na aula de interpretação, e uma história contada através de monólogo na aula de interpretação é contada como experiência pessoal mais tarde. De maneira semelhante, João declama monólogos destinados a ninguém, mas que obviamente se destinam a alguém.
O caráter metalinguístico se encontra também presente na forma do longa não somente pela presença do diretor interpretando o protagonista da obra, mas também por uma cena na segunda metade na qual João se senta com o editor de som de seu filme, e a cena que vemos em seu monitor é a cena do início do filme com João e Irene. E que se na cena “original” não se ouvia o som de uma garrafa de cerveja sendo aberta (não havia cerveja na geladeira), agora o diretor faz questão de que se coloque o som bem audível através do programa, e assim toda a cena muda. Agora há sim duas garrafas de cerveja, e o plano seguinte, no qual os personagens dançam, está sem som. Recriação de memórias. Nesse caso, através do cinema. Me peguei imaginando o quanto deste longa não é uma recriação em si de memórias de seu realizador.
Há, além de tudo, a possibilidade de análise em relação a desenvolvimento de personagem, com João descobrindo que o modo como o percebem é diferente do modo como se vê, algo que teoricamente se afastaria um pouco de uma proposta experimental em direção a uma forma mais clássica de se contar uma história, mas que não se mostra exagerada, fazendo com que, para mim, o filme não possa ser considerado nem puramente experimental e nem totalmente formal, mas certamente se trata de um experimento fílmico.
O título do filme nos dá a ideia de corpos, e especialmente de uma parte interna (o osso) em contraste com uma parte que absorve tudo que está para fora de nós e leva para dentro, diretamente para ser analisado por nossa mente (os olhos). Se isso quer dizer algo não tenho certeza, mas percebi que há sim a vontade de retratar aqui corpos em movimento, em pulsão. Antes de fazerem sexo, João e seu parceiro se envolvem em movimentos que não vemos serem performados em cenas semelhantes de outros filmes. Em outro momento, João, depois de um tempo parado, se levanta e começa uma espécie de coreografia com seus braços, que fica no limite entre o artístico e o convulsivo. Me pareceu que o diretor teve a intenção de explorar e capturar na câmera as possibilidades de performance por vezes silenciosa na voz mas potente nos corpos, ao mesmo tempo em que certas cenas são conduzidas somente pela performance oral dos atores enquanto seus corpos permanecem imóveis. Ossos e Olhos. Um depois o outro. Apesar de aparente, tal dualidade não vem ao final das duas horas de filme nos explicar sua tese.

Somos levados a olhar para dentro, ao mesmo tempo que não conseguimos não olhar para fora, e entender por nossos próprios termos e vivências qual aspecto dessa jornada tão emocional e tão física pode ter nos tocado e nos feito lembrar de algo. Pessoalmente, senti uma emoção muito forte ao final do filme, na curta performance de João por algumas ruas vazias da cidade grande. Não consigo explicar exatamente o porquê, mas aquilo me tocou. Da mesma maneira que uma frase muito específica dita pela personagem Irene também ficou comigo, mesmo não sendo um momento necessariamente “grande” dentro da “história”: “Caramba, por quê que você não viaja torto, passando mal no avião?”, que para todos que assistirem ao filme muito provavelmente passará despercebida, mas é justamente essa a beleza, pois também passou despercebida por mim, a frase, o momento ou o gesto que para outro espectador ficará incrustado em sua memória.
“Seus Ossos e Seus Olhos” nos apresenta um cinema de gestos. Gestos singelos ou bruscos, mas sempre coreografados para a câmera. Não é uma observação da vida como a vivemos, mas a vida como a percebemos. O controle dos quadros é priorizado no lugar da liberdade interpretativa. Pequenos momentos são feitos de histórias para este longa que está mais interessado em experimentar, como o diretor sempre faz aliás, com como o formato audiovisual consegue contar histórias das mais diferentes maneiras, tanto sob a ótica narrativa quanto sob a técnica audiovisual. E é por seu caráter formal diferenciado e, até certo ponto, experimental, que não me sinto confortável para atribuir uma nota (característica tradicionalmente formal à moldes clássicos) para esta obra. No entanto, recomendo que a assistam e tirem suas próprias conclusões, e que também busquem conhecer mais do trabalho do diretor Caetano Gotardo, bem como de todos os integrantes da “Filmes do Caixote”. Este estreia dia 22 de junho nos cinemas brasileiros. Obrigado pela atenção, e até a próxima crítica.
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