Por experiência própria, viver em uma cidade como a de São Paulo é difícil. Tendo nascido ou passado a viver em meio a este caos urbano configurado ao redor de prédios sofisticados e centros que ostentam as influências arquitetônicas do passado colonial, e que parece se estender infinitamente por todas as direções, uma coisa é certa: os ruídos, produzidos por vezes de modo inexplicável, passarão a ser parte da rotina. São como ondas tão pequenas quanto os próprios átomos podem ser, que penetram no subconsciente humano, e interferem nas regiões que demandam por concentração. Não é por acaso, portanto, que o drama de Gregorio Graziosi busque explorar o que está acontecendo com sua protagonista durante os meses que sucedem o acidente que lhe ocorreu enquanto competia como saltadora ornamental.

Antes de ser acometida por um zumbido de origem inexplicável, e por consequência ser afastada por tempo indeterminado das competições as quais participava juntamente com sua amiga de infância, Luísa (Indira Nascimento), o mundo de Marina (Joana de Verona), destacado pela fotografia de Rui Poças durante a sequência em que o som interfere em seu salto sincronizado, fora erguido com um cuidado milimétrico, de modo a não permitir que falhas humanas fossem expostas. Comum aos esportes de grande alcance, era um espaço que cultuava a perfeição, incentivando seus competidores a testarem os seus limites. Em oposição a isso, o que a espera após ser retirada de seu habitat natural é fruto de um conflito constante entre realidade e uma fantasia pulsante, medo e a resistência a monotonia de uma vida comum, e a falta de acolhimento.

O gafanhoto em 3D projetado para percorrer o interior de um ouvido humano simulado é a porta de entrada a lá Alfred Hitchcock em “Um Corpo que Cai” para um experimento cujas inspirações estão alinhadas a exploração do que acontecia no subúrbio durante o início da carreira de David Lynch, tanto na época de “Veludo Azul” quanto no decorrer da investigação do assassinato da Rainha do Baile que cobriu as duas primeiras temporadas de “Twin Peaks”. Em “Tinnitus”, o medo da vida suburbana é, portanto, redimensionado para adequar-se as proporções de uma cidade que pode ser tão claustrofóbica quanto São Paulo, principalmente quando vítimas de crises e traumas estão lutando tão intensa e decididamente contra uma ruptura iminente da própria psique.

O comportamento de um animal que está fora de seu habitat natural tende a ser imprevisível. Para Marina, fora do mundo das competições e tendo que lidar com as limitações de um emprego que a mantém próxima da água somente enquanto houver pagantes para acompanhá-la como sereia em um aquário paulistano, lhe falta acolhimento para lidar com a situação que tem lhe impedido de seguir adiante. Seu marido diz estar preocupado com sua recuperação, mas parece enxergá-la como um caso particular de estudo, nutrindo uma curiosa obsessão pelo que tem gerado todo transtorno acompanhado, chegando a beijar sua orelha enquanto fazem sexo em um momento semelhante a algo que David Cronenberg teria feito em “Crash – Estranhos Prazeres”. E sua melhor amiga escolheu abandoná-la para manter sua carreira profissional.

Embora Marina esteja seguindo o que foi recomendado para sua recuperação, isto é, permanecer afastada das competições como saltadora ornamental e comparecer a um grupo de apoio pelo menos uma vez durante a semana, a natureza da realidade deixa de ser um elemento no qual é possível permanecer ancorado diante da chegada de Teresa (Alli Willow), atual competidora ao lado de Luísa que passa a se portar como uma espécie de sombra/sósia da protagonista. A presença da personagem, essencialmente provocadora e obsessiva, passa a alimentar este desejo pulsante e incontrolável da outra quanto a protagonizar o que poderia ser um retorno triunfante para o que fora seu mundo conhecido durante tantos anos, o retomando exatamente do ponto no qual foi necessário parar por causa do acidente.

A inquietação, constante em uma mente que está enfrentando um trauma que persiste em suas lembranças, não é sólida o bastante para brincar com a existência desta possível dualidade, entre aquela que está tentando recuperar o que perdeu e a recém-chegada que está determinada a ocupar este espaço, mesmo que para isso tenha que nadar com o maiô da outra ou deitar-se com o marido de Marina em uma maca hospitalar durante o que deveria ser somente uma consulta de rotina. Ao invés de borrar o que seriam estas linhas entre realidade e a atmosfera onírica que emerge das profundezas da psique da protagonista, Graziosi as expõem de modo exagerado, levando a um resultado inevitável: reconhecê-las com uma clareza que soa como sendo inadequada para boa parte do que estava trama esteve buscando até então ao estabelecer alguém que está lidando com uma fragmentação de si.

É como se enxergássemos Marina diante de um espelho, transitando, graças ao bom trabalho de Joana de Verona, entre a monotonia de alguém retirada a força de seu habitat natural e a determinação de ir contra todos os conselhos que escutou até então para demonstrar que ainda é capaz de superar até aquele que possa ser considerado como sendo o mais difícil dos obstáculos para uma competidora de seu porte. Ou seja, podemos até reconhecer quais são os seus dilemas, e compreendê-los ao assimilarmos com nossas dores, no entanto, é difícil manter qualquer forma de vinculação com o que está acontecendo com a protagonista e os demais personagens, principalmente no que diz respeito a manter suspense quanto a quais serão os próximos passos de cada um deles.

Reconhecer demais a presença desta realidade dentro da construção onírica é um fator tão limitante para “Tinnitus” quanto o zumbido que impede Marina de concluir o salto durante a sequência de abertura. A experiência de acompanhar a aspereza e a sobreposição dos sentimentos nas relações humanas neste experimento inclinado tanto ao Lynchiano quanto ao Hitchcockiano é limitada por um olhar que exerce uma pressão exagerada quanto a qual deve ser o caminho adequado para interpretações, demonstrando pouquíssima preocupação quanto a manter e desenvolver uma margem para que cada situação pela qual a protagonista passa dentro deste emaranhado que cobre o centro de São Paulo possa potencializar a dramaticidade desta jornada. De certa forma é como se alguém muito inspirado por Lynch dirigisse uma releitura de A Pequena Sereia, mas sem a delicadeza da animação e a brutalidade do conto original.

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