Por Fernando Grisi.
Esta postagem inaugura um novo quadro no site da A24 Brasil: os ensaios! Este ensaio é uma adaptação de um trabalho que escrevi para uma matéria optativa da faculdade: Seminário em Teoria, Crítica e História da Arte. Estávamos estudando a relação entre o verbal e o visual, e, obviamente querendo escrever sobre audiovisual, me lembrei desta obra de arte incrível que é “I Am Easy To Find”, estrelando Alicia Vikander (“Ex Machina”). O Curta-metragem, que é primariamente um álbum visual da banda The National, apesar de não ter o dedo da A24, tem a direção e roteiro assinados por Mike Mills, que foi o diretor de dois dos melhores filmes do catálogo da produtora: “Mulheres do Século XX”, de 2016, e mais recentemente “Sempre em Frente”, lançado em 2021. Se as relações entre texto e imagem aplicadas ao cinema te interessam, ou se ficou interessado em conhecer este trabalho pouco lembrado mas muito bonito de Mills, te convido a dar uma chance para este texto.
Introdução
Imagem e texto estiveram historicamente conectados há muito tempo, com o início dessa conexão não sendo um consenso entre os estudiosos da área. Por conta de seu surgimento distante, inúmeras aplicações do verbovisual foram utilizadas e experimentadas em inúmeras áreas e de diversas formas. Assim sendo, é possível que se imagine que estamos em um momento no qual tais aplicações não possuem mais saídas inventivas, sendo utilizadas hoje somente para servirem a propósitos específicos na sociedade (como o didático, de explicar uma ilustração, ou reafirmar verbalmente alguma espécie de símbolo), mas também na Arte, onde parece que tudo o que a fusão entre palavra e imagem tinha a oferecer foi já aplicada por artistas de tempos anteriores, e que atualmente estamos em uma espécie de época de “reciclagem”, na qual apenas nos utilizamos de recursos já inventados para tentar comunicar algo novo. Não acredito que tal pensamento seja exatamente equivocado. Afinal, de certa forma, é muito difícil (talvez até mesmo impossível, e poderia escrever outro ensaio apenas discutindo o conceito de originalidade) se criar algo 100% original nesta época de reprodutibilidade na qual nos encontramos em que não existe mais uma grande diferença entre produtores e consumidores de cultura. No entanto, ainda é possível se utilizar de ideias e recursos já existentes, para pelo menos se tentar construir algo que mereça ser chamado de novo e original.
Quando comecei a pensar sobre a possibilidade de discutir o verbovisual a partir de um tópico mais específico, nada me vinha à mente. No entanto, como discutimos um pouco sobre aplicações do verbovisual dentro do Cinema em um certo momento, consegui criar alguns pontos de interesse para a criação deste ensaio. O Cinema é minha área (principalmente o roteiro cinematográfico), e sendo assim acabo relacionando muito do que estudo de teoria e outras matérias não específicas da área para a sétima arte também. Ao meu ver, o Cinema sempre apresentou e ainda apresenta forte presença de outras Artes e movimentos dentro de si. E isto é real também para as Artes Visuais.
Os primeiríssimos filmes feitos, por volta do final do século XIX – início do século XX, eram mais voltados para a experimentação de se gravar um acontecimento. O quê era muito observado nos filmes (se é que podemos os chamar assim) dos irmãos Lumière. Como o limite de tempo que se poderia gravar era muito curto, não havia a possibilidade de se criar histórias complexas e imprimi-las na película cinematográfica. Mas, em pouco tempo, as possibilidades do cinema se expandiram, e já era possível contar histórias com uma trama, personagens e um tempo maior para estas se desenvolverem. O que ocorria no cinema de George Méliès (em “Le Voyage Dans La Lune”, de 1902 por exemplo). No entanto, mesmo com narrativas mais bem desenvolvidas, o cinema ainda demoraria algumas décadas para possuir uma conexão com o sonoro mais efetiva. Aparatos eram utilizados e experimentados para se tentar criar uma sonoridade mais presente nas salas de cinema, havia sessões com a presença de orquestras, que tocavam a trilha ao vivo para a plateia, e até mesmo alguns casos nos quais os atores, escondidos do público, dublavam suas falas simultaneamente.
Por conta disso, nas ocasiões em que os primeiros longas-metragens de Hollywood estavam sendo produzidos, ainda sem a possibilidade de mixar com sucesso a imagem com o som, era muito comum a utilização de Intertítulos para transmitir para o público o que estava sendo dito pelos atores em cena. Estes cartões eram geralmente pretos com os diálogos escritos em branco, e apareciam por alguns segundos na tela depois de uma troca de falas entre dois personagens. Sua utilização era estritamente relacionada à necessidade de se transmitir uma mensagem para o público, como uma espécie de “mal necessário”. Aliás, o próprio Vsevolod Pudovkin (cineasta russo muito conhecido por suas técnicas de montagem, que realizou filmes como “A Mãe”, de 1926 e “O Fim de São Petersburgo”, de 1927) proferiu essa frase, ao reclamar que os intertítulos não eram capazes de substituir ações importantes. Provavelmente por conta disso o artista foi um dos primeiros a apresentar um uso diferenciado dos intertítulos. Propondo a utilização destes de uma maneira diferenciada, com um espaçamento maior entre as letras e a inserção de letras maiúsculas, por exemplo, de acordo com o quê o filme propunha para determinada cena. Algo semelhante foi observado, aproximadamente na mesma época, no trabalho do cineasta polonês Dziga Vertov (“Cinema-Olho”, de 1924, “Um homem Com Uma Câmera”, de 1929). Vertov na verdade levou as possibilidades do intertítulo a um outro patamar, experimentando mais do que Pudovkin. Em “Câmera-Olho”, os intertítulos possuíam, talvez pela primeira vez no Cinema, uma função de ampliar a significação fílmica, se afastando de sua função puramente informativa normalizada pelas narrativas clássicas. Aqui podemos dizer que foi um dos primeiros momentos em que um discurso argumentativo era construído entre a imagem e o texto dentro do Cinema, algo que para os críticos da época era considerado quase que uma aberração.
No entanto, os tempos mudaram, e atualmente há muita liberdade e infinitas possibilidades de se explorar a Arte. Trago aqui neste ensaio, então, a possibilidade de se analisar a aplicação mais criativa de legendas e intertítulos no cinema contemporâneo, especificamente analisando o álbum visual de 2019 “I Am Easy To Find”.

“I Am Easy To Find” e a Aplicação Criativa de Intertítulos e Legendas
Mike Mills é um dos meus diretores de Cinema preferidos. Parte do motivo é provavelmente por ele ser um roteirista-diretor, ou seja, ele escreve os projetos que dirige. Sempre achei que estes tipos de diretores se destacam por saberem exatamente quais sensações o texto pretendia transmitir e por isso saberem melhor como fazê-las se tornarem reais na tela. E os textos de Mills sempre me chamaram muita atenção. Em seus filmes os diálogos são muito naturais, mas ainda assim carregados de emoções. Emoções reais, personagens reais e histórias tão reais que fazem com que sintamos muito profundamente seu impacto, suas decisões e suas intenções para além das telas. O diretor gosta de trabalhar com histórias simples. Histórias de famílias, de relacionamentos, de pessoas. Apesar de comumente não nos apresentar personagens que passam por uma evolução muito marcante ou grandes acontecimentos em suas vidas, nossa identificação com estes vem justamente do mais banal, do dia a dia, das sutilezas e pequenos momentos nos quais as pessoas em suas obras são colocadas. Percebo que a maior vontade de Mills seja a de explorar o coração humano, e como este se comporta com o coração de outros humanos.
“I Am Easy To Find” (“Eu Sou Fácil De Encontrar”, em tradução livre) é um álbum visual escrito e dirigido por Mike Mills que apresenta músicas da banda “The National”. Realizado em 2019, o curta-metragem (acredito que possamos chamá-lo assim) passou de certa forma despercebido pela comunidade cinéfila, causando mais impacto com os fãs da banda que possuía suas músicas apresentadas ali. Não conhecia a banda na época. No entanto, quando descobri que a obra tinha sido dirigida pela mesma pessoa que havia realizado o incrível “Mulheres do Século XX” em 2016, precisei conferir o álbum visual. E acredito que, apesar de não muito falado dentro da filmografia de Mills, este é um de seus trabalhos mais impressionantes. Além de trazer toda sua habilidade em evocar emoções poderosas a partir de observações simples e singelas, e tudo o mais que comentei no parágrafo anterior, aqui o roteirista-diretor se utilizou de um recurso que me chamou muita atenção na época em que assisti, e, agora ao estudar mais sobre a história, o impacto e as possibilidades do verbo-visual, me fez querer revisitar o curta e falar especificamente sobre este aspecto aqui aplicado, e em como ele auxiliou na contação de uma das melhores histórias que Mills já criou.
Foi Mike Mills quem pediu para a banda para realizar este álbum visual. Na realidade, a ideia inicial era criar um videoclipe, algo que muitos diretores de cinema gostam de fazer e/ou começaram em suas carreiras fazendo. No entanto, a ideia acabou se desenvolvendo para além de um simples videoclipe, quando a banda o entregou 15 músicas, algumas não finalizadas, e Mills escreveu o filme. Algumas das músicas inclusive sofreram modificações pontuais em sua versão para o curta-metragem, o que mostra uma outra forma de se relacionar o verbal com o visual.

Esta obra se utiliza dos intertítulos e legendas não para traduzir diálogos inaudíveis ou passagens de tempo de maneira narrativa. Aliás, se tem uma função dos intertítulos clássicos que foi aplicada aqui foi sua utilização para marcar passagens temporais. No entanto, até mesmo isso é feito de maneira não convencional, ao se mostrar uma utilização necessária de tal recurso, pois a atriz principal do produto, Alicia Vikander, interpreta nele uma pessoa em diferentes estágios da vida: desde seu nascimento até seu último respiro, sem a utilização de efeitos ou maquiagem especial. Assim, alguns intertítulos são utilizados para indicar em qual idade a protagonista se encontra.
A parte mais interessante de se observar em “I Am Easy To Find” é seu teor de experimentação. Mills disse em uma entrevista que quis com este projeto realmente experimentar, e que “Não queremos saber exatamente o que estamos fazendo, e isso é o melhor”, questionando ““Quem sou eu?”, “Como cheguei aqui?” e “Quem sou eu para você?””. Sendo assim, o aspecto visual do filme se destaca ao nos trazer reflexões, ao invés de simplesmente explicitar diálogos que não escutamos. Alguns exemplos seriam, no momento em que a protagonista é adolescente e está correndo sem rumo, ao invés de termos um intertítulo ou legenda que diga algo como “ela corria para não se atrasar para a aula”, o quê poderia se fazer óbvio pelo contexto, temos uma legenda que nos diz “Ela poderia correr para sempre?”, que é um questionamento muito profundo e pessoal ao qual simplesmente não teríamos acesso visualmente. Assim, o verbal se faz necessário aqui não apenas para complementar a narrativa, mas é o motivo pelo qual ela é bem sucedida em sua intenção de emocionar e contar esta história.
Outros exemplos marcantes do uso de intertítulos/legendas no Álbum visual dirigido por Mike Mills são os momentos quando estes nos levam a lugares de abstração, parecendo querer nos afastar da história, ao invés de nos fazer entendê-la melhor. E aqui este afastamento não é algo ruim para a experiência empática incitada pelo Cinema, pois ao estarmos “saindo” da história estamos nos aproximando mais de nós mesmos. Um cartão cinza diz: “O cheiro do ar em sua nova cidade”. Uma legenda nos informa, enquanto a personagem lava a louça: “Ela se pergunta o quanto se ilude”. Sentimentos aos quais nunca teríamos acesso se não fosse pela utilização da escrita dentro da narrativa audiovisual. Sentimentos que nos atingem em um nível diferente, em um local diferente, e nos levam de volta para lugares dos quais havíamos nos esquecido. Tudo isso através do verbo sendo utilizado em um contexto não usual.
Com base no que foi aqui apresentado, acredito que possamos aceitar que o Cinema ainda possui amplo espaço para explorar novas possibilidades de se contar histórias, se conectando também com outras Artes. Trazendo de volta, como vimos aqui, técnicas antigas com uma nova roupagem bem como novas técnicas que vêm se aperfeiçoando com a evolução das tecnologias. E, mesmo sendo uma Arte que explora majoritariamente, como o nome Audiovisual diz, a experiência de se ouvir imagens em movimento, criando a ilusão de vida, consegue por vezes encontrar maneiras inventivas de aplicar e ressignificar o verbo escrito dentro de suas narrativas, como é o caso de “I Am Easy To Find”.
Assim, ainda que se possa argumentar que nada do que é criado hoje seja original, acredito que o audiovisual, conhecido também por ser a “Arte da enganação”, consiga de tempos em tempos nos enganar tão bem ao ponto de nos fazer repensar tal argumento.
Referências Bibliográficas
ARAGÃO. Isabella Ribeiro. Palavras escritas: do cinema mudo ao falado. 2006.
I AM EASY TO FIND; Direção: Mike Mills. Produção: Youree Henley, David Zander, Geoff Linville, Emma Wilcockson. Estados Unidos, 2019. YouTube (26 min.)
NME. The National – ‘I Am Easy To Find’: Matt Berninger and Mike Mills on their movie and album. YouTube, 13 de maio de 2019. Disponível em: https://youtu.be/eThj3j6Cwuo.
SAVERNINI, Erika. A Construção Do Discurso Político No Cinema Russo Dos Anos 1920: Relações Intra E Extratextuais No Filme Câmera-Olho (1924) De Dziga Vertov. 2011.
THE NATIONAL. I Am Easy To Find: With Director’s Commentary By Mike Mills. YouTube, 4 de novembro de 2019. Disponível em: https://youtu.be/ngh94k_sO2M.
TIETZMANN, Roberto. Como falava a tipografia do cinema mudo? Disponível em: https://compos.org.br/publicacoes/.
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