A ideia de que Hollywood pode continuar normalmente sem os milhares de profissionais que diariamente se entregam de corpo e alma nas funções que desempenham tanto por detrás quanto na frente das câmeras é inconcebível. Se assim fosse possível, os filmes seriam dirigidos por quem? Quem daria vida aos personagens com os quais desenvolvemos duradouros laços emocionais durante suas jornadas? Quem escreveria as histórias que encantam e assombram enquanto somos levados a conhecer mundos e experiências fantásticas sem que seja necessário deixar o conforto de uma sala de cinema para trás? Talvez não seja tão fácil substituir quem tem feito o trabalho duro até agora quanto os engravatados acreditam.
O mundo nunca deixou de olhar para principal máquina de sonhos. Assim como ela nunca deixou de reluzir como um farol que emerge em meio a escuridão, entretanto, o motivo pelo qual está chamando atenção no momento em nada tem relação com os lançamentos que estão acontecendo ou que devem acontecer nas próximas semanas, levando suas principais estrelas, muitas delas queridinhas do público, a desfilarem em elegantes tapetes vermelhos. A A24 Brasil, enquanto uma equipe formada por estudantes de cinema e apaixonados pela sétima arte, optou por meio desta explanar os principais tópicos acerca de um dos momentos de maior impacto de 2023: a greve de roteiristas e de atores.
Em 2007, Hollywood parou durante 100 dias. É estimado que 12 mil roteiristas, tanto do ramo televisivo quanto do cinematográfico, abandonaram suas funções em 05 de Novembro e foram às ruas reivindicando o cumprimento do que havia sido acordado entre a Writers Guild of America (WGA) e a Alliance of Motion Picture and Television Producers (AMPTP). Entre talk shows que precisaram encerrar temporariamente suas produções, recorrendo a reexibições na grade de televisão, como “Jimmy Kimmel Live!” e “Saturday Night Live”, e séries que estenderam a duração do hiatos de uma temporada, como “Bones”, um dos dramas de maior sucesso da FOX, este intervalo, que durou de Novembro à 12 de Fevereiro do ano seguinte, foi o suficiente para que os chefões sentissem os efeitos da crise em seus bolsos.
Após a entrada definitiva das plataformas de streaming no mercado e dois anos em quarentena por causa da pandemia de COVID-19, o mundo definitivamente não é nada parecido com o que era antes. E o cenário do entretenimento está novamente em vias de enfrentar um período conturbado. O principal ponto em comum entre o que está acontecendo desde o início de Maio de 2023 e o que aconteceu há 16 anos atrás é a busca por uma compensação justa em comparação aos ganhos anuais dos executivos de estúdios. Se em 2007 era uma questão relacionada ao ganho que uma série de sucesso estava gerando por ter seus direitos de exibição licenciados para outras emissoras, atualmente, considerando o aumento no consumo dos serviços por assinatura como Netflix e Prime Video e a adoção de um modelo diferente daquele presente na TV aberta, trata-se de reajustar o cálculo sobre os residuais de filmes e séries destas plataformas para que estes profissionais possam ser recompensados de maneira justa.
Um levantamento publicado no site da WGA no mês anterior ao início da greve aponta para uma discrepância entre três fatores: remuneração dos roteiristas, lucro obtido pela empresa, e o orçamento que cada série tem recebido. Enquanto os dois últimos apenas aumentaram durante os anos recentes, o primeiro esteve estagnado ou em queda, sendo que a principal razão para isso está no modelo que tem sido adotado pelas plataformas de streaming, isto é, um número menor de episódios, o que reduz as semanas de trabalho de um profissional, e a ausência de um calendário para as temporadas. O relatório aponta que o salário médio de um profissional caiu 4% durante a última década, esta porcentagem, ajustada pela inflação, representa uma queda de 23%. Em resposta à declaração de Bob Iger, CEO da Walt Disney Company que tem um ganho estimado em 25 milhões anuais, Cody Ziglar, que trabalhou no oitavo episódio de “Mulher-Hulk: Defensora de Heróis”, revelou que recebeu entorno de $396 dólares de compensação posterior a exibição. E de acordo com a Parrot Analytics, a série esteve no top 10 de mais assistidas nos Estados Unidos durante a semana de exibição do episódio.
O segundo fator que está sendo amplamente debatido durante a greve, tanto entre os grevistas e demais envolvidos na indústria cinematográfica quanto quem está acompanhando de longe através das redes sociais, diz respeito a utilização de inteligências artificiais para elaboração e desenvolvimento de narrativas para diferentes produções audiovisuais. O avanço das citadas tecnologias representaria um aparente encerramento em muitas das obrigatoriedades contratuais presentes nas folhas de pagamento dos estúdios, no entanto, a WGA não tem por intenção impedir a eventual inserção da I.A. nos ramos televisivos e cinematográficos, mas sim estabelecer garantias que possam salvaguardar a integridade dos trabalhadores, isto é, que continuem recebendo um salário que esteja de acordo com o orçamento que cada série tem recebido e com o sucesso que cada uma tem gerado para as plataformas em que estão em exibição.
Na noite da última quarta-feira (12), foi revelado pelo DEADLINE que os estúdios não têm intenção de negociarem com a WGA durante os próximos meses. “O objetivo final é permitir que as coisas se arrastem até que os membros do sindicato comecem a perder seus apartamentos e suas casas”, declarou um executivo que preferiu manter sua identidade anônima. Neste meio tempo, o plano das plataformas é direcionar um investimento para expansão do mercado de produções internacionais, levando em consideração que lidam com regulamentações diferentes daquelas que estão sob acordo, e realities shows.
Enquanto a greve dos roteiristas segue em sua nona semana e sem nenhuma possível solução no horizonte, outra está prestes a começar: a greve do Screen Actors Guild – American Federation of Television and Radio Artists (SAG-AFTRA), o sindicato estadunidense que representa um número aproximado de 160 mil atores.
A greve do SAG-AFTRA vem sendo especulada desde Maio, tendo em vista que o contrato do sindicato com a AMPTP estava previsto para expirar no final de Junho, com uma data limite para negociações finais estabelecida para 12 de Julho. Na manhã da última quinta-feira (13), foi reportado pela Variety que, após quatro semanas de conversas com a representante legal de estúdios como a Amazon, Apple, NBCUniversal, Netflix, Paramount, Sony, e Warner Bros. Discovery, nenhum novo acordo baseado nas novas demandas foi fechado, levando à uma aprovação unânime quanto a recomendação de uma paralisação.
Na ocasião, Fran Drescher, presidente do sindicato dos atores, descreveu a resposta dos estúdios quanto as reinvindicações como sendo “insultante e desrespeitosa”. Confira a declaração completa:
“O SAG-AFTRA negociou em boa fé, e estávamos ansiosos para chegar à um acordo que atendesse as necessidades dos atores, mas as respostas da AMPTP às propostas mais importantes do sindicato foram insultantes e desrespeitosas à nossa contribuição massiva para esta indústria. Os estúdios se recusaram a abordar significativamente alguns tópicos, e em outros apenas bloquearam nossas propostas. Até que eles estejam prontos para negociarem de boa fé, não podemos nem começar a pensar em chegar a um acordo”.
Logo em seguida, a AMPTP liberou uma declaração sobre a falha nas negociações. Confira:
“Estamos profundamente desapontados que o SAG-AFTRA tenha decidido abandonar as negociações. Esta é uma decisão do sindicato, e não nossa. Ao fazerem isso, nossa proposta de aumentos salariais, residuais, e de aposentadoria, ampliação dos planos de saúde, de proteção para os atores durante o processo de escalação, diminuição dos períodos de contrato de séries de TV, e de uma regulamentação ousada sobre o uso de inteligência artificial para reprodução da aparência do ator, foi rejeitada. Ao invés de continuarem as negociações a partir deste ponto, o SAG-AFTRA nos colocou em um caminho que só vai aumentar as dificuldades financeiras de milhares que dependem de nossa indústria para viverem”.
Assim como está acontecendo na paralização do WGA, as principais demandas do SAG-AFTRA estão relacionadas aos residuais das produções de streaming e a utilização da inteligência artificial. De acordo com a reportagem da Variety, baseado na inflação e na questão do poder de compra, o sindicato está buscando por uma reajuste na partilha dos residuais entre profissionais e empresas, tendo como base os dados de audiência das séries e dos filmes das plataformas, e para tal, sugere a utilização de uma métrica realizada por uma empresa terceirizada e especializada na contabilização destas informações, a Parrot Analytics. Já em relação a I.A., tópico este que tem sido ignorado pelos representantes legais da AMPTP durante as rodadas de negociações, a intenção é, assim como na questão dos roteiristas, apresentar garantias que possam salvaguardar a integridade dos intérpretes em virtude do uso desta tecnologia.
Em resposta ao que a AMPTP chamou de proposta ousada quanto a regulamentação do uso da inteligência artificial, o diretor-executivo da SAG-AFTRA, Duncan Crabtree-Ireland, revelou que a ideia era digitalizar os atores presentes no fundo das cenas, pagá-los por um dia de trabalho, e então reutilizar suas imagens quantas vezes fosse necessário sem que recebessem nenhum pagamento ou compensação. Tal sugestão como parte do acordo representa uma violação direta à uma das demandas do sindicato, que é justamente garantir que os direitos dos intérpretes que representam não serão desrespeitados diante da inserção da tecnologia I.A. no mercado do entretenimento.
Com a greve confirmada para começar hoje (14), os aproximadamente 160 mil atores representados pelo SAG recebera uma lista do que não poderão fazer a partir desta data. Produções estreladas por atores filiados ao sindicato devem ser interrompidas imediatamente, como foi o caso de “Gladiador 2”, com Paul Mescal. Além disso, também está vetada qualquer entrevista para promoção de um lançamento, participações em convenções para fãs como as Comic-Cons, e em premiações, e promoção de qualquer conteúdo que esteja vinculado a TV ou ao streaming ou ao cinema.
Durante sua última participação em uma premiere de “Oppenheimer”, que estava acontecendo em Londres no momento em que a greve foi anunciada pelo sindicato, Matt Damon declarou seu apoio. Confira:
“Se nossa liderança está dizendo que o acordo não é justo, então temos que nos segurar até conseguirmos um acordo que seja justo para os todos atores que trabalham. É a diferença entre ter assistência médica ou não para muitos, e temos que fazer o que é certo para eles”.
Vale mencionar, por exemplo, que no começo deste ano, enquanto participava da disputa de Melhor Ator Coadjuvante na temporada de premiações, Ke Huy Quan (Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo) mencionou que em 2021 perdeu seu plano de saúde.
Esta paralisação do SAG-AFTRA fortalece a do WGA. No entanto, é difícil sequer especular o que o futuro aguarda para ambas, principalmente quando levamos em consideração que somente uma passou a ser prioridade para os executivos representados pela AMPTP. O que está acontecendo em Hollywood é parte de um momento histórico. Esta é a primeira vez desde 1960 que ambos os sindicatos estão realizando uma paralisação conjunta, portanto, independente do resultado, suas consequências para o mundo do entretenimento poderão ser sentidas pelo menos ao longo dos próximos dois anos.
Parte do problema não estará sendo resolvido com a compra de produções do mercado internacional. Vale lembrar que Hwang Dong-hyuk, criador de Round 6, não recebeu nenhum residual pelo sucesso da série na plataforma, como informou o Los Angeles Times em Junho deste ano. Diante desta informação e de outras tantas contidas neste texto, perder o lançamento de um aguardado filme X ou Y é apenas uma consequência a curto prazo, é fundamental que nos concentremos na real questão aqui: como para muitos destes executivos deixou de ser sobre produzir uma arte inteiramente humana para outros humanos e passou a ser somente sobre lucrar, ainda que para isso tantos direitos tenham que ser ignorados no caminho. Quando a crise aperta o bolso, eles reconhecem como sendo o momento de explorar a indústria de outro país, e assim sucessivamente.
Bob Iger fatura anualmente cerca de 25 milhões de dólares. David Zaslav não hesitou quanto a tomar a decisão de cancelar “Batgirl” durante sua pós-produção e tampouco tem demonstrado arrependimento quanto a retirar produções do catálogo da HBO Max para que residuais não sejam pagos. Tal prática, inclusive, passou a ser amplamente empregada pelo mercado de entretenimento, com a Disney+ chegando a remover lançamentos deste ano que não alcançaram uma boa audiência. É necessário, portanto, não só que os reajustes salariais e residuais sejam acordados, afinal, o aumento do custo de vida não tem acompanhado um salário que muitas vezes está estagnado ou em queda, mas também que a utilização da I.A. no mercado de trabalho passe por uma análise aprofundada, estabelecendo um limite entre o que pode ser considerado como uma violação dos direitos garantidos aos trabalhadores e o que é possível de ser desenvolvido em uma dinâmica conjunta.
Fontes: https://www.wgacontract2023.org/updates/bulletins/writers-are-not-keeping-up / https://www.ign.com/articles/sag-aftra-reveals-hollywood-studios-shocking-proposal-for-actors-and-ai / https://variety.com/2023/biz/news/sag-aftra-talks-break-down-1235658176/ / https://t.co/l1mX8BYYp6 / https://t.co/47bnjdmks7

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