Por Julia Paes
Hey, Barbie!
Há algumas semanas Barbie se tornou o assunto mais comentado em todos os lugares, seja em produtos vendidos, nas cores das roupas, no feed das redes sociais, em todos os lugares, ela esteve presente. A campanha de marketing do filme trabalhou de maneira incessante, e durante muito tempo, fiquei receosa se todo o material liberado não poderia atrapalhar a experiência, e eu não poderia estar mais equivocada.
Vamos acompanhar mais de perto a vida da boneca mais famosa do mundo na ‘Barbieland’, em que todos os dias são perfeitos, repletos de praia e discoteca. Todas as versões das bonecas ocupam um lugar de poder e vivem em total harmonia. Entretanto, tudo muda quando uma das bonecas, interpretada por Margot Robie, passa a ter questionamentos existênciais. Vendo seu mundo abalado, Barbie vai atrás de respostas no mundo real.

Durante todo o seu desenrolar, a história nos leva para conhecer um mundo completamente novo – e das cores mais deslumbrantes. E, acima de tudo, tem muito para ser degustado dessa aventura camp e, em certo ponto surrealista, do mundo mágico de Barbie.
“Barbie” tem a essência de um blockbuster com alma, apresenta uma trama sensível e fica evidente que foi produzida com esmero. A narrativa surfa na onda das histórias com viagens entre universos distintos, mas dessa vez, sem muitas regras para compreender. As situações acontecem assim e ponto. A clássica jornada do herói é revisitada, e ela alegra em seu tom cômico e brilha com sua sensibilidade. É um filme “simples”, na mesma medida que é complexo, com as temáticas abordadas.
Desde o minuto inicial, o filme inicia uma jornada divertida sobre o mundo da Barbie. Repleto de piadas ácidas sobre a criação da boneca e o seu impacto, sabemos que dali em diante será uma história interessante e que ninguém estará a salvo do roteiro afiado. Greta Gerwig, diretora e co-roteirista do filme, se consolida como uma das maiores cineastas da atualidade em seu novo filme.
O roteiro possui a maestria da dupla, formada por Gerwig e seu marido, Noah Baumbach. Apesar de em certo momentos as piadas não darem muito espaço para um momento mais dramático se desenvolver, a genialidade na qual elas são elaboradas e inseridas ao longo da narrativa, fica evidente desde o início.

Ao tratar de um tema tão político, como é o feminismo e as problemáticas do que é ser mulher na sociedade moderna, seria muito fácil arrebentar a linha tênue do assunto, ainda mais sendo voltada para o grande público. E, Gerwig, em seu jeito único de desenvolver histórias, tem muito a dizer ao longo das quase duas horas, mas em nenhum momento, permite que um assunto tão delicado se deixe levar na seriedade.
Se até mesmo uma boneca, criada para ser o padrão a ser seguido, atravessa por crises de autoestima e autodescobrimento, quem somos nós, meras mulheres? Ser mulher é se questionar o tempo inteiro, ser mulher é ter o sentimento de insuficiência constantemente na cabeça, ser mulher é difícil. Não existe um ideal de mulher e esse ideal, que se vende, é desconstruído a nossa frente de maneira muito delicada. É uma viagem sentimental e de questionar sobre quem nós realmente somos, sejamos bonecos de plásticos ou reais.
O mundo dos sonhos da Barbie realmente é mágico, cada roupa usada, cada acessório da Barbie, cada referência à boneca, tudo foi feito para encantar. A pesquisa extensa para reproduzir os mínimos detalhes nos enfeitiça. É um deleite observar cada pequeno item dos cenários. Junto a direção de arte, que conta mais da ‘Barbieland’, a trilha sonora surge como um elemento a mais para contar essa histórias, e talvez por isso, funcione apenas para o filme, com exceção da faixa composta por Billie Ellish, que arrisco a dizer, marcará presença no Oscar.

A unanimidade nesse filme fica em torno de Margot Robbie, interpretando a boneca mais famosa do mundo, e Ryan Gosling, como Ken. Em cada maneirismo de Margot, seja nas mãos estáticas igual a da boneca, a icônica cena do salto fica claro como a atriz fez o dever de casa e se comprometeu com o papel. No momento em que é exigido um tom mais sentimental, Margot nos emociona. E, ao lado dessa gigante, só poderia ter Ryan Gosling, carismático como só ele consegue ser em cena, em alguns momentos ele rouba os holofotes. Os dois tem um tempo de comédia alinhado, o que só melhora para quem assiste.
Ao final das duas horas, torna-se real toda a potência criativa de Greta Gerwig ao criar um mundo tão seu. É bonito termos um blockbuster que se propõe a ousar e a emocionar na mesma medida. Para além das cores vibrantes e das piadas certeiras, há muita emoção e sentimento em cada linha. Saímos da sala e carregamos as reflexões conosco e tudo o que nós queremos ao terminar o filme são alguns minutos a mais naquele universo fantástico e cor de rosa.
Nota: 8,7

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