Por Fernando Grisi

“Acho que destruímos o mundo”.

No dia 06 de agosto de 1945, a população da cidade japonesa de Hiroshima avistou um segundo sol. Ou melhor, presenciou a morte de um. O piloto Paul Tibbets, em seu avião Enola Gay, escolheu a ponte Aioi da cidade para ser o destino da primeira bomba atômica a ser utilizada na história do planeta, apelidada carinhosamente de “Little Boy” (“Menininho”, em tradução livre). Ao alcançar aproximados 580 metros do chão, a Menininho explodiu, criando uma nuvem radioativa de mais de 18 quilômetros de altura. A explosão destruiu a maior parte de Hiroshima, causando aproximadamente 80 mil mortes instantâneas e mais de 140 mil mortes decorrentes de ferimentos menos graves, queimaduras e da radiação que persistiu por muito tempo depois da explosão. Apenas 3 dias depois da Menininho ser utilizada, algo muito parecido ocorreu na cidade japonesa de Nagasaki. A bomba atômica “Fat Man” (“Homem Gordo”) foi lançada matando instantaneamente 40 mil pessoas.

Era evidente que o diretor e roteirista Christopher Nolan teria que mostrar seu posicionamento político neste longa-metragem. Qualquer história sobre qualquer guerra será reproduzida a partir da visão de seus vencedores. O Japão, assim como a Alemanha e a Itália, saiu derrotado da segunda guerra mundial. Por isso, sempre que estudamos sobre o assunto, a tendência é que analisemos os fatos a partir da perspectiva de quem possuía credibilidade na época para controlar a narrativa: a Rússia, a França, O Reino Unido e, principalmente, os Estados Unidos da América, que a partir dali (com a Europa em frangalhos) passava a se consolidar como a maior potência do ocidente.

Tenho uma opinião bastante desfavorável a respeito de praticamente tudo que os Estados Unidos da América fazem, fizeram e representam. Durante todo meu trajeto escolar, ao estudar a história mundial, sempre era surpreendido ao me deparar com as atrocidades cometidas desde o tempo de seus antepassados até os dias de hoje e perceber que é esta atualmente a nação mais poderosa e influente do ocidente, e talvez do mundo inteiro. Era algo que me interessava muito na mesma medida que me enojava. Por conta disso, estava muito curioso (e sinceramente preocupado) com o modo que o diretor inglês traria a história de Julius Robert Oppenheimer, mais conhecido como o “Pai da bomba atômica”. Uma das histórias que mais me fez ressentir os EUA quando ouvi pela primeira vez, e que até hoje me revolta pensar sobre, foi a utilização das duas bombas nucleares em Hiroshima e Nagasaki, em um momento em que a Alemanha e Itália já estavam fora da guerra (e Hitler morto), e era evidente que o pequeno Japão não se sustentaria sozinho na guerra. Ainda assim, a nação optou por matar centenas de milhares de pessoas inocentes, muito mais para passar uma mensagem de que a maior potência bélica tinha nome.

Você já notou que minha opinião a respeito de todo o acontecido não é imparcial (como se tal coisa fosse possível), e nem minha crítica será (como também não acredito ser possível, aliás). Mas também a opinião do realizador da obra não é imparcial. Por isso fiquei feliz em entender que Nolan não estava pretendendo fazer de Oppenheimer uma ode ao poderio bélico dos Estados Unidos e nem um culto exagerado a um homem que influenciou drasticamente na obtenção de tal poder. Então, com todos esses pontos históricos e geopolíticos esclarecidos nesta introdução, vamos entrar de fato na crítica.

Sobre o quê é Oppenheimer? Bom, já disse que não é uma ode aos Estados Unidos da América, mas também não é exatamente uma biografia, nem uma história sobre a criação da primeira bomba atômica dos EUA precisa e unicamente. Não sou um grande admirador e nem exímio conhecedor da filmografia do diretor, então analisarei o presente longa por si só. Em minha opinião, para responder a pergunta que fiz no início do parágrafo, nenhum filme que se propõe a contar a história de um grande acontecimento é realmente sobre aquele acontecimento. Quem gostaria de escrever um filme sobre uma bomba? Elas não têm sentimentos, não têm emoções e nem contradições. Não se apaixonam e nem tomam decisões erradas. Não, histórias são sobre pessoas. E esta história não é diferente.

Christopher Nolan disse ter se sentido extremamente tocado pelo livro “American Prometheus“, de Kai Bird e Martin Sherwin, a biografia de Robert Oppenheimer vencedora do prêmio Pulitzer, e surgiu daí a ideia de adapta-la para os cinemas. Prometeu, na mitologia grega, era um semideus que roubou fogo dos deuses para dar aos humanos, e por isso Zeus o castigou amarrando-o a uma pedra onde seu fígado seria devorado por uma ave por toda a eternidade…

Durante o filme acompanhamos J. Robert Oppenheimer por diferentes fases de sua vida, em linhas temporais entrecruzadas. No início nos deparamos com um jovem adulto determinado a estudar física mecânica na Europa e levar seus conhecimentos para os Estados Unidos. Então somos levados abruptamente ao futuro, com o personagem mais velho depondo em uma pequena sala, onde lhe perguntam se ele era feliz na época em que estudava fora. A pergunta parece incomodá-lo, como se não fosse esperada. Depois de pensar por um instante, ele responde que não. Diz que tinha problemas para dormir, para se concentrar. E que era perturbado por “visões de um mundo que não era o nosso”. E é aí que o verdadeiro tema do filme começa a se mostrar.

Gostei de acompanhar o percurso do jovem Oppenheimer durante seu tempo de estudo e pesquisa em faculdades renomadas do velho mundo, e é neste início de filme que temos o que chamarei de fan services para nerds da física, pois o protagonista se encontra com importantes personalidades da área e é inclusive incentivado por elas a seguir seu caminho de conhecimento. No entanto, mesmo tendo gostado de toda essa introdução, estava começando a achar que o longa entrava muito no território de nos apresentar um gênio excêntrico, que não liga se seu cabelo está despenteado, que se atrasa para as aulas e não faz sucesso com seus colegas ou professores, mas que na verdade é este gênio incompreendido que só precisa que acreditem nele e lhe deem um palco. A nível de comparação, pode-se dizer que é algo próximo, ou ao menos pareceu para mim, com o que Aaron Sorkin fez ao escrever o personagem de Mark Zuckerberg em seu filme “A Rede Social”.

A obra “se corrige” um pouco mais à frente ao nos apresentar um lado um pouco mais questionável de Oppie, como é apelidado o cientista. Podemos vê-lo sendo bastante egoísta e egocêntrico, se envolvendo com mulheres comprometidas, e olhando tudo e todos ao seu redor com uma certa soberba, como se estivesse acima de “tudo aquilo”. O palco lhe foi dado diversas vezes e ele adorou. Chegou a buscar o palco. Ao mesmo tempo, Oppie me ganhou novamente também ao mostrar uma forte simpatia sua pelo comunismo, apesar de nunca ter se filiado definitivamente ao partido.

Estou conduzindo este texto de maneira cronológica, que acredito ser a maneira menos confusa de escrever sobre Oppenheimer, também para poder falar melhor sobre temas. Mas gostaria de (e preciso) enaltecer um aspecto técnico essencial ao andamento de todas as três horas de rodagem: a atuação de Cillian Murphy! Ele é o filme, simplesmente, e se não estivesse 100% comedido ao papel, com seu olhar perdido mas penetrante, a experiência não funcionaria. Murphy nos coloca na cabeça do personagem, fazendo com que nos relacionemos com ele mesmo enquanto toma as decisões mais questionáveis. O ator dá vida a um homem que em muitos momentos parece estar morto por dentro, mas que ainda assim tem a determinação de mover o mundo. É realmente um trabalho impressionante, e digno de reconhecimento na próxima temporada de premiações.

Não vou entrar no mérito de detalhar todas as atuações, pois há muitas (e muitas) delas. Gostaria de deixar clara principalmente minha vontade de ver mais de Florence Pugh e Emily Blunt em tela, já que tiveram um tempo consideravelmente curto em comparação aos 180 minutos de duração do filme. Contudo, quando estão em cena, estão excelentes, mesmo com o roteiro não lhes dando grandes momentos. Gostaria também de exaltar Casey Affleck e Jefferson Hall, que impressionam em poucas cenas e deixam sua marca, seja ela agradável ou não. Há também vários outros atores fazendo participações aqui, que entregam bons momentos e que são rostos agradáveis de se rever.

Cillian Murphy e Emily Blunt em cena de “Oppenheimer”. © Universal.

Como mencionei anteriormente, toda a narrativa é entrecortada por flashbacks e flash forwards. Curiosamente, o “futuro” é que está em preto e branco. Neste momento do futuro, já após o fim da segunda guerra, seguimos na verdade não mais Oppenheimer, mas Lewis Strauss, interpretado muitíssimo bem por Robert Downey Jr. Esta parte, o terço final do filme, é focada, simultaneamente, em uma audiência para decidir se Oppie continuará com sua credencial de segurança e em uma outra espécie de audiência que irá decidir se Lewis Strauss assumirá um importante cargo que sonhou por muito tempo. É através do personagem de Downey Jr., uma pessoa vingativa com um especial desgosto por Oppenheimer, que enxergamos os acontecimentos da época. Inclusive, uma das coisas que menos gostei no longa foi a concentração de uma figura exageradamente vilanesca na imagem de Strauss, beirando a caricatura em certos momentos. Funciona para termos uma visão de Oppie como o herói da história, como este homem injustiçado por seus colegas e pelo seu país. E não duvido de que tenha sido historicamente acurado, mas senti uma certa manipulação forçada das figuras históricas para trazer mais dinamismo a esta história.

E, de fato, a história é bastante dinâmica. Já comentei que Oppenheimer não é uma coisa só, pois ao acontecer em linhas temporais diferentes ele também flerta com gêneros cinematográficos diferentes. Então em um momento temos um estudo de personagem bastante aprofundado, entrando fundo no psicológico do protagonista, e já no momento seguinte temos um filme de descoberta investigativa, depois um drama, um filme de espionagem, uma trama de tribunal…A parte do filme em que há o desenvolvimento da bomba propriamente dito possui os momentos com mais energia do filme e menos política, apesar de nunca ficar desprovido da última.

Mesmo com o Tom e o Clima mudando bastante durante as três horas de duração, cabe aqui ressaltar a importância e a maestria com a qual as áreas do longa foram executadas. Somos levados a sentir diferentes emoções durante a rodagem, e isso se dá graças à enorme e talentosa equipe técnica. É impressionante perceber, por exemplo, que mesmo sabendo o desfecho da testagem da bomba, suas cenas ainda conseguem nos deixar tensos e na beira dos assentos. Em todas as diferentes temporalidades da narrativa a direção de arte de Ruth de Jong e sua equipe é impecável, e nos imerge completamente na época com os figurinos e objetos precisamente escolhidos, criados e posicionados, e cenografia impecável. A trilha sonora de Ludwig Göransson não nos apresenta um tema marcante como Hans Zimmer fez em “Interstellar“, mas ainda assim gera uma sensação de emergência e perigo com suas notas. O mesmo pode ser dito da imersão causada pela fotografia precisamente pensada por Hoyte Van Hoytema. E outro profissional que merece muitas palmas é a editora do filme Jennifer Lame, que teve um trabalho árduo que transparece nas telas de condensar uma complexa história com dezenas de personagens em três horas de duração, e não deixou a trama em momento nenhum desandar ou ficar morosa. Ainda assim, é perceptível a mão de Christoher Nolan na mesa de edição, pois o filme poderia ser mais curto, mas certamente seu idealizador teve pena de se livrar de vários queridinhos na etapa da pós produção. Aliás, mesmo não tendo gostado de todas as escolhas da direção de Nolan, ele mostra que tem uma grande paixão por este projeto, assim como controle sobre todos seus aspectos técnicos.

Robert Downey Jr. como Lewis Strauss em cena de “Oppenheimer”. © Universal.

Quero escrever um pouco mais sobre os dilemas morais que nosso personagem principal teve que enfrentar e o modo como tais dilemas foram colocados para ele pelo roteiro de Christopher Nolan. Em minha introdução, deixei claro meu posicionamento político a respeito da decisão dos EUA em bombardear o Japão em um momento em que sua rendição era praticamente inevitável. O filme faz um esforço para garantir que fiquemos do lado de Oppenheimer durante suas três horas. Mencionei no início do texto que o longa não propõe uma ode exagerada à figura do cientista que dá título à obra, mas não deixa de propor uma pequena ode sim. Ao vilanizar demais o personagem de Robert Downey Jr e o próprio governo estadunidense (o que é sempre agradável de se ver), Robert Oppenheimer fica pintado como um mártir e uma vítima das circunstâncias. No entanto, como um bom estudo de personagem o filme consegue se aprofundar no psicológico do protagonista e nos levar com ele em sua jornada desde sua entrada entusiasmada no projeto Manhattan, como diretor, até seus arrependimentos e traumas futuros após as péssimas políticas que seu governo adotou para lidar com as armas que ele ajudou a criar. Talvez este tenha sido o aspecto que mais gostei de acompanhar aqui, pois ao me identificar com a excentricidade e falhas do personagem já havia tomado o partido dele. Todavia, a cada oportunidade o roteiro fazia questão de desculpar suas ações problemáticas com alguma insinuação de que sua genialidade compensava tudo aquilo. “Somos pessoas egoístas e horríveis”, Robert diz em um momento para seu colega, mas este logo responde: “Pessoas egoístas e horríveis não sabem que são egoístas e horríveis”.

Para sintetizar este meu ponto, apenas acho que por mais que tenha sido interessantíssimo seguir um protagonista nada perfeito e cercado de polêmicas, fiquei com um gosto agridoce na boca com cada desculpa que o texto decidia colocar para as ações de Oppenheimer na intenção de não deixar dúvidas de que é ele o herói desta história. Por exemplo, quando o presidente Truman pergunta a ele o que fazer com Los Alamos após a construção da bomba, e Oppie responde “devolver aos nativos”. Não consegui não achar um tanto forçado. Histórias protagonizadas por pessoas que não são heróis são as mais interessantes, e não precisaríamos de tais recursos para torcer por Oppenheimer, como já expliquei usando minha relação pessoal com o personagem enquanto assistia. Seus debates internos e suas contradições são o quê me fizeram me aproximar dele em primeiro lugar. O fato de que Oppie não sabe muito bem aonde quer chegar, pois está cego de certa maneira, por sua ambição em ser importante e seu amor pelo o que faz, é o que o torna um personagem interessante e relacionável. Ele está perdido, está tentando se encontrar dentro de si em um mundo infinitamente maior, ainda que talvez não mais complexo, do que o mundo pessoal dele. “Ninguém sabe no que você acredita. Você sabe?”, é uma frase proferida a Robert por um dos cientistas do projeto Manhattan que me deixou pensando durante todo o filme e foi provavelmente o que me fez escrever esta crítica a partir da exploração da noção de felicidade dentro da película. O personagem vivido por Cillian Murphy está constantemente mudando seus valores e mudando suas noções, tanto sobre o mundo quanto sobre si mesmo, e que por isso ao final acaba vivendo com uma carcaça de sua alma, com um rosto vazio, ornado com olhos que enxergam mas não veem, e uma vida que apesar de ter entrado para os livros de história, possivelmente se tornou para ele insatisfatória e insuficiente.

O personagem principal afirma, em uma ocasião, que costumava pensar quando mais novo que, se pudesse unir a física e o Novo México, seria finalmente feliz. E por isso é quase engraçado pensar que a união entre a física e o Estado Norte Americano do Novo México se daria através do projeto Manhattan (codinome do projeto para a criação da bomba atômica em Los Alamos, cidade construída para abrigar o projeto, no Novo México).

No título desta crítica disse que Oppenheimer é uma história sobre felicidade. Mas o que exatamente eu quis dizer com isso? Bom, foi este o tema que observei perpassar todo o filme, em praticamente todas as suas cenas, e que me chamou a atenção para uma abordagem mais intimista de um filme tão explosivo. Peguemos por exemplo a frase dita pelo próprio personagem citada acima. às vezes pode parecer forçado, mas realmente acredito que filmes são sobre ideias, que têm temas universais e “simples”. Não importa quão grande seus universos ou plots sejam, filmes são sobre essas coisas “simples”. São sobre sentimentos. Sobre vida e morte, sobre relacionamentos e incertezas. E há aqui a ideia, o tema, de um homem que queria, acima de tudo, ser feliz, mas acabou tomando um caminho tortuoso, apesar de lhe parecer ser o certo ao tempo, e terminou em um lugar que até poderia ser visto como feliz, mas que estava longe de trazer algum contentamento para ele. “Gênios não podem ser felizes”. Esta parece ser uma máxima na qual o longa acredita. E, apesar de pessoalmente não acreditar na noção de “gênios”, consigo enxergar esta lógica aplicada à história do “Pai da bomba atômica”, e fiquei feliz em ter conseguido me identificar com os dilemas morais e pessoais vividos por ele na mais nova produção escrita e dirigida por Chistopher Nolan. Que, para além de toda a riqueza temática que me trouxe e agora compartilho aqui, não deixa de ser um espetáculo sensorial que vale a pena ser presenciado em uma boa sala de cinema.

Oppenheimer é um filme tecnicamente impressionante que traz um estudo de personagem muito bem construído. É sobre como nos fazemos acreditar em coisas que antes não cogitaríamos para conseguir o que queremos. É sobre os segredos que guardamos com pretextos de proteção, mas que somente machucam. É, principalmente, sobre a ilusão de que nossa felicidade virá a partir do que fizermos, e não de como fizermos. E com estes sentimentos todos nós podemos nos relacionar, sejamos nós destruidores de mundos ou não…ou será que não somos todos?

Nota: 8,6

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