Tomas (Franz Rogowski) é um cineasta que está em uma inclinação suave em sua bicicleta pela curva da próxima crise que terá logo após finalizar o filme em que está trabalhando. “Isso acontece sempre que você termina um filme”, diz Martin (Ben Whishaw), diante da revelação de que seu marido passou a noite anterior transando com uma mulher que conheceu no bar em que a equipe estava celebrando o encerramento das filmagens. É uma pena, no entanto, e principalmente para este protagonista, que a vida não possa ser exatamente como parece ser dentro de um set, um espaço em que é possível reconhecer a sedução que há por trás da ideia de ter tudo sob controle, projetando uma realidade que é desavergonhadamente romanceada para parecer aceitável em comparação a como é.

O novo longa de Ira Sachs lembra um dos queridinhos lançado em meados do segundo semestre do ano passado, “A Pior Pessoa do Mundo”, de Joachim Trier. E é possível que este seja o maior segredo para que essas que são as tais piores pessoas do mundo sejam protagonistas tão bons na maioria dos casos. Não importa o que esteja acontecendo, é muito provável que, durante as próximas horas, estejamos apaixonados por suas presenças, e magneticamente atraídos para sabermos quais serão seus próximos passos. São pessoas nocivas, que estão machucando quem dizem amar bem diante de nossos olhos enquanto acompanhamos de mãos atadas, mas assustadora e encantadoramente realistas, dirigidas e escritas por pessoas comprometidas em compreenderem pelo menos uma parte do que consideram como sendo fundamental dentro do que é a natureza humana.

Tomas e Martin formam um casal paradoxal. O primeiro tem uma força expansiva. Sua presença demanda uma necessidade de controle e ocupação da tela por completo, porque, no final das contas, ele precisa estar no centro das atenções, como um bom diretor no controle da situação que está se desenrolando em seu set de filmagens. O segundo, por outro lado, em sua amorosidade e tentativa de constante compreensão quanto ao que está se passando na mente daquele com quem selou votos matrimoniais, mal ocupa metade da tela, permanecendo nos cantos, como se assim escolhesse para não incomodar. Isto, no entanto, não reduz sua força, demonstrada principalmente nos momentos em que é necessário que tome decisões que afetarão diretamente seu futuro, seja escolhendo permanecer ao lado do marido ou seguir sozinho dali em diante.

O sexo é o cerne dos relacionamentos em “Passagens”. Para alguém tão obcecado com os detalhes quanto o personagem de Rogowski, sua primeira vez com uma mulher como Agathe (Adèle Exarchopoulos) representa a possibilidade de estar em contato direto com um desconhecido cuja ciência de sua existência há muito deixou de ser parte de seu cotidiano. O que, por consequência, aponta para uma vida que pode ou não estar fora de ordem, e essa ideia por si só é completamente inadmissível para alguém que expressa, tanto em atitudes quanto na postura com a qual se apresenta diante dos demais, uma extrema necessidade quanto a estar controlando todos os aspectos que o cercam. Ele diz que ama a mulher com quem está transando, algo que é respondido com “você diz isso para todos”, o que, considerando sua busca por estabilidade, parece mais real do que um amor que surgiu da improbabilidade.

Acontece que sendo verdade ou não este amor que Tomas está declarando à Agathe após uma das muitas noites em que passaram juntos no apartamento dela, Martin também o ama. É, na verdade, um apaixonado incapaz de perceber que o relacionamento deles tem sido duramente prejudicado pelo olhar egocêntrico do marido para com o que os cerca. O personagem de Ben Whishaw expressa essa paixão aparentemente impossível de acabar através do sexo em um dos momentos mais belamente filmados de “Passagens” e de uma preocupação que não escuta a racionalidade. É como um tolo apaixonado, que permite que seu coração seja machucado vezes demais só para que desta maneira possa continuar ao lado daquele que ama incondicionalmente.

Reconhecer o quão rápido Martin estabeleceu uma base para própria vida entorno da presença de Tomas para que este então a destruísse sistematicamente não é, no entanto, o mesmo que apontar para uma culpabilização deste. É, na verdade, afirmar que ele permanece tão inteiramente humano e realista quanto seu marido, representando, nesta situação, o lado que precisa de acolhimento e compreensão porque enxerga nesta postura egocêntrica que está adotando e projetando um casulo no qual pode permanecer escondido. É possível que seja o caso de ser de fato uma destas chamadas piores pessoas do mundo, ou é possível que esta seja uma situação surpreendentemente diferente daquela que esperávamos encontrar ao nos descobrirmos tão atraídos pela atuação de Rogowski.

É uma pena que resta para Exarchopoulos, entretanto, finalizar como o elo enfraquecido deste caótico triângulo amoroso, composto por três atores talentosíssimos, diga-se de passagem. Sua personagem, inicialmente tão expressiva e enérgica, uma verdadeira dona de si que não precisa de ninguém para viver a vida de acordo com os próprios termos, aos poucos tem seu arco dramático escanteado pelo que há de mais interessante para ser acompanhado de perto em “Passagens”: a vivência e o romance homoafetivo de Tomas e Martin, que, despido de um olhar que sexualiza os corpos, explora a sensualidade como sendo um elemento comum ao cotidiano do casal. Sachs reconhece no sexo uma maneira tão importante de expressar o amor quanto dizer “eu te amo” em alto e bom som.

“Passagens” é um filme que parte do urgente. Há urgência nos encontros sexuais, seja entre Tomas e Agathe, ou entre Tomas e Martin, que, embora casados há tanto tempo, parecem ter recuperado a pulsão sexual somente ao perceberem que ambos, a sua maneira, estão diante do que pode ser o fim de um ciclo. Há urgência na percepção de que se é alguém inconstante enquanto todos ao seu redor sabem quais são as consequências das próprias decisões, de não estar se entregando completamente ao matrimônio no qual se comprometeu ao aceitar os votos, e de estar curioso para descobrir o quão excitante o desconhecido continuará sendo enquanto lá permanecer.

Nota: 8,5

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