Por Fernando Grisi
Já se tornou recorrente o fato de algumas produções da A24 terem suas estreias em serviços de streaming sem muito alarde. Foi o que aconteceu também com Survival Of The Thickest, nova série da produtora que está disponível no catálogo da Netflix.
Survival Of The Thickest, que dentro do conceito da série se traduziria em algo como “sobrevivência dos mais gordos”, é uma daquelas séries despretensiosas, divertidas e leves, mas que acabam trazendo um grau muito elevado de verdade, e consequentemente de empatia pelos personagens e por suas situações. É difícil não se apaixonar pelas pessoas deste universo, e ainda mais difícil não nos relacionarmos com seus dilemas e desafios que a vida adulta traz.
A obra foi concebida por Michelle Buteau, que também estrela seus episódios como Mavis Beaumont. Pela semelhança entre os nomes já podemos notar que esta é uma daquelas séries autobiográficas, ou ao menos semi autobiográficas e bastante pessoais, ao melhor estilo de “Mo”(também uma parceria entre A24 e Netflix), “Fleabag”(apesar de não ser tão inventiva) e “Crazy Ex-Girlfriend”(na qual a criadora Rachel Bloom interpreta Rebecca Bunch).

Mavis é uma mulher gorda que está se aproximando dos 40 anos, e precisa reavaliar todo o modo como vivia e se relacionava(principalmente consigo mesma) após toda a segurança que estava planejando para seu futuro simplesmente desaparecer bem na sua frente.
A produção tem apenas 8 episódios com menos de 30 minutos cada. É muito prazerosa de se assistir, seja em uma maratona, ou assistindo a um episódio por dia para poder refletir um pouco sobre o que se passou com os personagens, como eu fiz. Pois, apesar de ser uma comédia e tratar de temas não muito pesados, ou ao menos não de maneira pesada, a série lida muito bem com os questionamentos e problemas da vida adulta, seja em questão de relacionamentos amorosos, entre amigos ou relacionamentos profissionais. É difícil não se identificar com ao menos algum problema ou dilema de algum dos personagens principais.
Confesso que ao começar a assistir “Survival Of The Thickest”, estava desanimado e sem muita esperança de me importar ou me emocionar com a série. Mas seus núcleos narrativos trazem perspectivas diferentes sobre temas muito atuais, sem caírem no clichê ou na tentativa de ser uma explicação racional e simples para relacionamentos humanos. A série não nos traz um guia de como viver como um adulto, e este é justamente seu maior trunfo. Temos obviamente o núcleo principal de Mavis, que tratará mais de noções como vida pessoal VS vida profissional, sobre ambição, sonhos, e também sobre como planos muito bem estruturados por nós mesmos no passado podem mudar aparentemente de maneira repentina, pois estamos sempre em movimento, em mudança. Os núcleos secundários dos amigos de Mavis também são ótimos, sem nenhuma plotline descartável ou tediosa. Ali são discutidos temas como sexualidade, o início de relacionamentos (em contraste com o fim deles), amizade e aceitação do outro como maneira de autoaceitação.
Diria que o amor próprio é o verdadeiro tema dominante em “Survival Of The Thickest”, entregue de uma maneira genuinamente cativante e engraçada, sem entrar em clichês ou jargões simplistas como “ame a você mesma.” O roteiro é sempre afiadíssimo em suas observações e a atuação cheia de energia e bom humor de sua criadora Michelle faz a experiência ser realmente prazerosa. Espero muito que venham mais temporadas pela frente. Se se interessou por ao menos algo do que mencionei aqui, não deixe esta preciosidade passar despercebida pelo catálogo da sua Netflix.
NOTA: 8,7

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