Por Matheus Britto
Em seu texto publicado originalmente como um prefácio do livro “Le western ou le cinema américain par excellence”, de Jean-Louis Rieupeyrout, André Bazin, um dos principais críticos de cinema do pós-guerra e um dos fundadores dos Cahiers du Cinèma, destacou o seguinte sobre o gênero do western: “É fácil dizer que o western ‘é o cinema por excelência’, pois cinema é movimento. É verdade que a cavalgada e a briga são atributos comuns, mas, então, o western seria apenas uma variedade entre outras do filme de aventura […] Logo, o western deve ser algo mais que a forma. As cavalgadas, as brigas, homens fortes e corajosos numa paisagem austera e selvagem não bastariam para definir ou resumir o charme do gênero. Esses atributos formais são apenas os signos e símbolos de sua realidade profunda, que é o mito”.
Em “Estranha Forma de Vida”, curta-metragem que chamou atenção inicialmente ao ser descrito como uma resposta à “O Segredo de Brokeback Mountain”, de Ang Lee, e por ser a primeira produção da divisão cinematográfica da Saint-Laurent, Pedro Almodóvar retoma um gênero que tinha como foco, essencialmente, a construção de uma imagem mitificada de uma nação, através de suas conquistas, seus conflitos com outros povos, e sua expansão. Em contraste com as demais obras de sua carreira, este é um curta que, como apontado pelo próprio cineasta espanhol durante a entrevista exibida logo após a exibição, pertence inteiramente a cultura norte-americana.
A paixão entre Silva (Pedro Pascal) e Jake (Ethan Hawke) nunca desapareceu. Ela, que foi expressa durante um momento de intensa euforia enquanto passavam por uma vinícola, sobreviveu a passagem do tempo e ao deserto que os separa. E retorna em uma noite que logo revela ser um reencontro entre velhos amantes, que em breve terão que lidar com os obstáculos impostos pela vida, como dever para com a Lei e promessas feitas à memória da família, e um assassinato que ocorrera recentemente na cidade e pode estar diretamente relacionado ao filho de Silva, um rapaz que também tem vivido a margem desta sociedade.
Almodóvar estiliza o que foi estilizado no passado para construção de uma mitologia própria aos Estados Unidos. O curta está assentado em uma linha entre o tradicionalismo comumente associado, e também observado, em produções assinadas por John Ford e Howard Hawks, e a retomada do gênero sob uma nova perspectiva que passou a ocorrer durante a última década, como em “First Cow – A Primeira Vaca da América”, de Kelly Reichardt, e “O Ataque dos Cães”, de Jane Campion. É como se o cineasta, que passou a ser um dos nomes expressivos do cinema queer, reconfigurasse uma parcela fundamental do panorama presente no imaginário popular quanto ao que é o western de modo a firmar que o olhar masculino que expressa desejo pelo masculino também esteve presente durante este tempo.
Os planos, inicialmente abertos de modo a destacar a cidade cenográfica na qual a produção foi filmada — a mesma em que Sergio Leone filmou “Três Homens em Conflito” — são lentamente reduzidos, e então o mundo, ou pelo menos aquelas horas que passarão juntos, seguros na privacidade da casa de Jake, pertence a estes dois amantes. Cada um, é claro, expressa esta paixão de modo diferente. Silva a reconhece como um sentimento que é impossível ser ignorado, até mesmo como uma moeda de troca quanto a um objetivo oculto que o levou a cruzar o deserto que os separava, o segundo, por outro lado, culpa a bebida da noite anterior pelo que aconteceu, incapaz de reconhecer o que sente.
Há normalmente muito para ser observado e apreciado nos filmes de Almodóvar. Tome “Madres Paralelas”, seu último lançamento antes do curta estrelado por Tilda Swinton, como exemplo. Não era apenas sobre essas duas mulheres, Penélope Cruz e Milena Smit, que engravidaram durante a mesma época, era também uma história sobre reconexão com o passado, retornar as suas raízes. Há menos acontecendo em “Estranha Forma de Vida”, mas ainda há o bastante para capturar o olhar e mantê-lo próximo o bastante neste curta direto ao ponto sobre dois amantes que são retirados de um reencontro amoroso e inseridos em uma trilha de conflitos a lá o melhor que o western teria para oferecer.
Por 30 minutos, o gênero, que anteriormente fomentava a ideia da construção de uma imagem que posteriormente foi incorporada ao cerne do que é o cinema estadunidense, passa a espelhar o mundo novamente. Entretanto, este é diferente daquele no qual esteve operando na época de um Ford ou um Leone. Este reconhece os relacionamentos homoafetivos como sendo parte de sua composição sem que para isso tenha que deixar de lado uma história característica do western, Almodóvar prontamente reconhece que um elemento não deve ser desassociado de outro.
NOTA: 7,0/10

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