Por Fernando Grisi

Jonathan Glazer nos apresentou um filme pela última vez em 2013 com “Sob A Pele”, estrelado por Scarlett Johansson e distribuído pela A24 nos Estados Unidos. Até hoje não sei exatamente o que pensar sobre “Under The Skin” (ainda bem que não estou fazendo a crítica dele), e o diretor acabou se tornando conhecido por seus trabalhos, mesmo os mais iniciais, como polêmico, controverso e até perturbador.

Depois de 10 anos, o cineasta inglês retorna aos holofotes com este longa que ganhou o prêmio do júri no Festival de Cannes deste ano, e está presente nos mais importantes festivais desta temporada, incluindo Toronto.

Este foi o primeiro filme que assisti no festival. E que maneira de se abrir uma cobertura! Provavelmente este era um dos longas para os quais estava mais ansioso para conferir, pois o clima de mistério de não se saber muitos detalhes sobre a trama desde Cannes deixou a curiosidade de todos realçada. Sabíamos que era um filme que se passava durante o holocausto, mas acompanhando uma família nazista chefiada por um comandante importante da SS. E não irei revelar mais nada da trama nesta crítica também. Mas quero trazer pontos de análise e discussão que vão além da narrativa em si.

Sandra Hüller em cena de The Zone Of Interest. © A24

O motivo pelo qual pouco se sabe sobre a trama deste filme é justamente porque a trama é praticamente inexistente. Ao menos, como já trouxe em outras críticas, ao olhar a definição mais tradicional do conceito. Muito curiosamente achei a obra bastante parecida com um filme documental. Não no sentido dos documentários mais informativos, mas como os observativos. A impressão que temos é de que foram colocadas diversas câmeras pelos cômodos da casa daquela família, e foi feita uma escolha de quais momentos entrariam para o corte final, sem uma preocupação particular com desenvolvimento narrativo linear.

A pergunta que me veio a mente imediatamente após o fim da sessão, e que sinceramente ainda está aqui, foi “Por que este filme foi feito?”. Glazer é um diretor considerado um autor, alguém que toma decisões criativas potentes e nem sempre convencionais. É também um homem Judeu. É muito plausível que, ao ler o livro “The Zone Of Interest”, o realizador tenha imaginado claramente uma adaptação para o cinema e decidido seguir com esta ideia, mas ouvi dizer que o filme é bastante independente do material base. De qualquer forma, o que nos é apresentado aqui se trata de uma utilização de todos os artifícios do cinema para prender nossa atenção a imagens que em teoria não apresentam ameaça ou choque, mas é aí que está o trunfo desta surpreendente obra.

O holocausto é algo que está bastante claro no imaginário coletivo de praticamente toda a população global. Já tivemos inúmeras obras, cinematográficas ou não, que optaram por explorar este período histórico e este acontecimento em si. Mas aqui o roteiro de Jonathan Glazer e Martin Amis não se preocupa em trazer mais uma representação do sofrimento do povo Judeu, nem mesmo uma perspectiva de um acontecido específico durante o regime nazista. Em vez disso, opta por esconder toda a dor e sofrimento dos povos exterminados durante o holocausto e nos mostrar apenas o banal, o cotidiano e a realidade na vida de uma família de um general nazista, vivendo sua vida de privilégios ao lado de um campo de concentração.

A decisão por ocultar o que se passa nos campos de concentração é o quê diferencia esta de tantas outras produções do que pode ser considerado um subgênero: o filme de holocausto, se podemos chama-los assim. O nosso desconforto e tensão assistindo ao longa se dá justamente, e estranhamente, por sabermos (em detalhes, aliás, por termos assistido e tido acesso a tais informações tantas vezes durante nossa vida) tudo o que se passa dentro dos campos de concentração, mas nunca sermos capazes de realmente observá-los de perto.

Christopher Friedel em cena de The Zone Of Interest. © A24

Como mencionei anteriormente, o filme para mim se assemelha a um documentário na maior parte de sua duração. É verdade que esta escolha por uma abordagem mais distante faz com que a história se estenda em dramas familiares que não vão a lugar algum, e isto deixa a experiência um pouco cansativa e extensa demais em certos momentos, mas também garante à obra seu caráter único.

Não gosto particularmente de separar a forma do conteúdo no audiovisual, mas há decisões e méritos técnicos aqui que merecem comentários específicos. Se é difícil conseguir argumentos para discutir sobre a narrativa, ao menos não é difícil falar sobre a incrível trilha sonora original de Mica Levi, que também foi a responsável pela trilha de “Sob a Pele”. Os temas musicais aqui são um dos pontos mais altos do longa. São enervantes, imponentes e muito assustadores.

Há também espaço para algumas experimentações formais bem diferenciadas e interessantes, que na verdade seria algo já a se esperar de um diretor como Jonathan Glazer. Não quero estragar a experiência e contar quais foram tais experimentações, apenas apontarei que, enquanto muitos poderão argumentar que as decisões por se afastar de uma forma mais tradicional de apresentar essas imagens não acrescentou nada ao filme, penso o oposto. Inclusive, o final do longa apresenta uma espécie de ruptura de espaço/tempo em relação ao que estava sendo mostrado até então, e certamente gerará muitas controversas e diferentes opiniões. Para mim, mesmo com o estranhamento, funcionou muito bem para o que a obra se propôs a ser.

The Zone Of Interest é uma observação singular, original e importante sobre o impacto histórico e da memória coletiva que ficou de uma das maiores tragédias provocadas pela humanidade. Ainda não possui data de estreia e nem distribuidora brasileira confirmada, mas não deixem de manter este filme em seus radares.

Nota: 8,1

4 respostas para “Crítica “The Zone Of Interest” | Cobertura Festival de Toronto 2023”.

  1. Avatar de “The Zone of Interest” tem distribuição nacional confirmada – A24 Brasil

    […] Para saber mais sobre o filme, temos a crítica completa aqui no nosso site escrito pelo nosso Fernando Grisi, que assistiu e cobriu o Festival de Toronto “in loco”. Para o texto completo para ficar no gostinho de ver o filme nas telonas brasileiras, acessar: https://a24brasil.wordpress.com/2023/09/13/critica-the-zone-of-interest-cobertura-festival-de-toront… […]

    Curtir

Deixe um comentário