Por Matheus Britto.
O tom de Elis Regina ao cantar os segundos finais de “Águas de Março”, logo após “É a promessa de vida no teu coração”, tende a ser hipnótico. Risonho, dotado de uma musicalidade que só poderia ser reconhecida em uma das maiores cantoras da história da música brasileira. É comum, portanto, esperar que “Elis & Tom: Só Tinha de Ser com Você” reforce esse efeito, ou similar, ao propor um regresso à um recorte específico do período em que “o álbum que quase não aconteceu” estava em produção. Uma espera esta que parece ter sido tolamente alimentada ao final da projeção.
Trata-se de saber lidar com a condução de lembranças e como destacar o que impera em cada uma, algo que parece faltar a produção. De imediato é destacado que estamos diante de memórias que foram restauradas, anteriormente preservadas em 16mm. E imediatamente o documentário de Roberto De Oliveira, premiado como “Melhor Filme Brasileiro” durante a 46º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, assume este caráter de um arquivo que merece ser celebrado, embora dificilmente faça prevalecer a força das imagens com as quais está trabalhando, optando pela segurança da rememoração de terceiros quanto ao que estava acontecendo à época, sejam estes filhos dos cantores ou pessoas que estavam diretamente envolvidas no álbum.
O documentário foca inicialmente em situar as estrelas de “Elis & Tom”, estabelecendo o que haviam alcançado em suas respectivas carreiras antes de aceitarem trabalhar na gravação do álbum. O que, em teoria, deveria estabelecer, e por consequência, reforçar uma proximidade para o que seria mostrado em seguida, momento este em que estariam trabalhando lado a lado, buscando pelo equilíbrio entre personalidades tão conflitantes, na verdade, agrava o problema quanto ao distanciamento que há. É possível sorrir com uma ou outra piada feita, e sentir um carinho passageiro diante de um feito mencionado, mas jamais sentir que os conhecemos verdadeiramente, tanto antes quanto após esta colaboração.
Não é permitido tanto a Tom quanto a Elis demonstrarem falhas além daquelas possíveis de serem mencionadas como consequências de um trabalho árduo dentro de uma indústria conhecida por levar seus artistas ao extremo. O documentário é iniciado com a menção de que este é um álbum que quase não existiu, entretanto, pouco da rodagem é direcionado à apontar o porquê disso, como duas visões completamente diferentes quase colocaram tudo a perder até que finalmente começaram a trabalhar em sintonia, produzindo algo que permanece não só no imaginário popular, e daí o fato dos depoimentos serem tão pautados em elogios, mas também como uma referência na produção musical.
“Elis & Tom: Só Tinha de Ser com Você” foca, portanto, em celebrar sem necessariamente focar por demasiado nos obstáculos que tenham surgido no decorrer do processo de criação. Partes fundamentais são lentamente subtraídas desta construção, tanto durante a consolidação desta base quanto a quem foi Elis Regina e Tom Jobim quanto para compreender os porquês por detrás do álbum, e o que resta é De Oliveira assumindo, com apoio da rememoração de quem esteve lá à época ou viveu o que aconteceu em seguida ao lançamento, a função de contar um resumo do que realmente foi esta história. É encaixado no convencional das cinebiografias congratulatórias quem nunca esteve próximo deste convencional.
NOTA: 4,5/10

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