Por Fernando Grisi

A Romênia acaba de selecionar “Do Not Expect Too Much From The End Of The World” (algo como “Não Espere Muito Do Fim Do Mundo”) como sua seleção para tentar uma vaga em melhor filme internacional no Oscar do ano que vem.

O diretor e roteirista romeno Radu Jude nos apresentou em 2021 o longa que foi bastante discutido “Má Sorte No Sexo ou Pornô Acidental”, que só consegui assistir recentemente, mas não gostei da experiência. Isso fez com que eu fosse para a sessão de imprensa de seu novo filme com expectativas bastante baixas, ainda mais sabendo que este teria apenas um pouco menos de três horas de duração. Portanto, foi uma grata surpresa o fato de “Do Not Expect Too Much From The End Of The World” ter entrado na minha lista de 10 filmes favoritos do Festival de Toronto.

Jude não deixa que a experiência de quase três horas de filme se torne cansativa. Você realmente se investe na jornada aparentemente sem um fim específico da protagonista, mas mais importante: você se investe no tom satírico e na crítica social inteligente, não óbvia e muito engraçada apresentada pelo roteiro sagaz e inovador. Durante o filme acompanhamos Angela, interpretada muitíssimo bem por Ilinca Molanche, que é uma assistente de uma empresa de publicidade. Com uma fotografia em preto e branco, seguimos a jovem adulta sem paciência e sem papas na língua enquanto dirige entre um corre e outro na cidade de Bucareste. Ela inclusive utiliza um meio de escapismo muito engraçado e completamente politicamente incorreto, que é gravar vídeos para o Tiktok (que são mostrados em cor) com um filtro que a transforma em um homem careca, e com esse filtro faz comentários extremamente misóginos e inapropriados, mas que pelo contexto funcionam muito bem como piada.

Mas os itinerários de Angela não servem somente para nos fazer rir nas muitas vezes em que xinga uma manobra de um motorista após ela mesma ter quase dormido no volante segundos atrás. É através dela que temos o valor satírico e de crítica social do filme. Somos levados (claro, através de situações absurdas e piadas pesadas) a refletir e entender um pouco mais sobre as estruturas sociais da população romena, especialmente da capital, e especialmente da classe trabalhadora. Angela faz parte desta classe, e é por isso que sua indignação nos consegue fazer rir. Ao apontar problemas sociais e estruturais de seu país, sempre com bom humor eu como brasileiro não pude deixar de me relacionar e relacionar o que o filme está fazendo ao próprio modo como nós brasileiros lidamos com a loucura que é viver aqui: com humor. Muito se fala sobre o trânsito caótico da cidade e como ninguém ali se importa com as vidas alheias, e o debate se expande para políticos escrotos (de novo, muito relacionável para nós brasileiros), ocupação de espaços públicos, ganância corporativa e as hipocrisias e contradições da classe alta.

O final é imprevisível e divisivo, um pouco diferente do que estávamos vendo até então (mais pelo fato de ser em cores e com planos mais longos e pacientes), pois tematicamente o longa se mantém coeso até o fim, e fico do lado de quem não se incomodou com ele. Considero “Do Not Expect Too Much From The End Of The World” uma bem-sucedida tentativa em trazer diversos discursos pertinentes e urgentes sobre os desafios e dificuldades da classe trabalhadora, com muito humor, que mesmo flertando com o nonsense, com o bizarro e até com o cinema experimental consegue ser divertido, formalmente inventivo, diferente e que merece muito ser assistido.

Nota: 8,7

Ilinca Manolache em cena do longa romeno. © 4 Proof Film.

“Naga” foi um filme que não estava inicialmente no meu cronograma do Tiff, mas que fiquei muito feliz por ter assistido. Até porque nunca havia assistido a um filme da Arábia Saudita, e se tem algo que aprecio em festivais é a oportunidade de descoberta de filmes que não chegariam a nós facilmente.

Aqui acompanhamos Sarah, uma jovem saudita que, após mentir para seu extremamente rígido pai, vai com seu namorado em uma viagem até um local romântico. Mas obviamente as coisas não ocorrerão como o planejado, e Sarah se encontrará sozinha no meio do deserto tendo apenas poucas horas para voltar para casa antes que seu pai se dê conta de sua ausência. O que se segue é uma espécie de corrida contra o tempo na qual Sarah terá que enfrentar camelos assassinos vingativos, fugir de uma gangue de quadriciclos e tentar encontrar um jeito de, no meio do deserto, carregar seu celular para sair dessas situações.

Tudo neste longa me impressionou. Do alto valor de produção que me fez apreciar todos os detalhes das locações e das técnicas aqui empregadas, passando pelas atuações muito boas (principalmente da protagonista, interpretada por Adwa Bader, que realmente impressiona – e emociona) até o roteiro de Meshal Al Jaser (que também é o diretor) que trabalha muito bem a construção de tensão. O filme não para por um segundo, e não fica nem um pouco atrás de produções aclamadas do mesmo gênero produzidas nos Estados Unidos (muitas das quais, aliás, são bastante medíocres, mas por serem feitas nos EUA terão visibilidade garantida). “Naga” foi um dos filmes exibidos na “Midnight Madness” em Toronto, as sessões da meia-noite, e apesar de eu não ter o assistido nesta sessão, consigo imaginar o porquê de terem o programado ali. A tensão constante e crescente, o trabalho de câmera inspirado que te deixa nervoso desde o primeiro plano da obra até o final, além das situações estressantes nas quais a protagonista acaba sendo inserida, e as atitudes que ela tem que tomar para sair de tais situações, faz de “Naga” um filme perfeito para assistir com a maior plateia possível, sentindo cada suspiro e cada reação de surpresa às reviravoltas e cenas intrigantes e cheias de energia.

Infelizmente, por ser um filme da Arábia Saudita, e não ter sido um dos longas mais comentados deste Festival de Toronto, provavelmente não terá uma distribuição simplificada para nós aqui no Brasil, mas espero que alguém perceba seu potencial e consiga o fazer disponível para assistirmos aqui. Se você se interessa pelo gênero thriller que trabalha seus arquétipos de forma inventiva e bem sucedida, tudo isso ambientado em cenários que não estamos acostumados a ver, não deixe de colocar “Naga” na sua lista e torcer para que este consiga uma boa rodagem em terras brasileiras.

Nota: 9,5

Adwa Bader em cena de “Naga”. © Movitaz Entertainment/Telfaz 11

*No dia 2 do Festival também assisti a “Dicks: The Musical”. A crítica pode ser lida aqui: https://a24brasil.wordpress.com/2023/09/11/critica-dicks-the-musical-cobertura-festival-de-toronto-2023/

**Também assisti no mesmo dia ao novo filme do Miyazaki, “The Boy And The Heron”. Uma crítica em vídeo está sendo produzida para nosso Instagram, não deixe de acompanhar a gente em @a24brasil.

Uma resposta para “Críticas “Do Not Expect Too Much From The End Of The World” & “Naga” | Festival de Toronto 2023 – Dia 2”.

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