Por Matheus Britto
Em “O Assassino”, durante o que parece ser uma tentativa de estabelecer um novo contexto à uma percepção sociocultural e econômica diretamente relacionada à sociedade de consumo e de produtividade excessiva, David Fincher reúne alguns de seus bons e velhos amigos de meados dos anos 1990.
Tal qual Edward Norton em “Clube da Luta (1999)”, o assassino (Michael Fassbender) é um narrador que está preocupado essencialmente com o eu. O contínuo processo de comunicação que ocorre supostamente para com o telespectador visa, na verdade, estabelecer uma linha que permita ao protagonista convencer a si mesmo quanto a esta possibilidade de tornar-se um homem que está além de representar qualquer nação que o contrate para realização de uma missão. Ele acredita ser alguém que está a margem, um ser de racionalidade que reconhece o tabuleiro além da borda, embora não tenha reconhecido o fundamental: ele também está atuando de modo a corroborar com esta base do sistema capitalista.
Envelopado como um entretenimento financiado por uma plataforma de streaming que pode direcionar milhões de dólares à um diretor de renome em Hollywood em um dos pouquíssimos casos em que é possível reconhecer que não está atuando como uma inimiga de si mesma, esta é a forma de Fincher, em meio a um caso clássico de seu formalismo de gênero, reafirmar o quão pior está o mundo desde o derradeiro ataque à sedes de cartões de crédito durante os minutos finais de “Clube da Luta”. Ao passo em que a falta de privacidade foi acentuada como um problema em escala mundial, e irreversível, invadir uma academia demora o tempo necessário até que uma máquina de clona cartões, encomendada através da Amazon, chegue até o endereço atual do comprador.
O mundo do assassino de Fassbender, que demonstra estar em um estado de pessimismo tão derradeiro quanto aquele em que o Narrador de Norton estava vivendo, anseia para que esta paranoia e este poder estejam concentrados em mãos. Com a mesma facilidade com a qual vende o que permite que esta insegurança seja instaurada, isto é, o maquinário que permitirá que um cartão de acesso seja clonado, vende também um produto que garantirá uma falsa sensação de segurança até que um novo ciclo seja iniciada.
Fincher busca por inspiração em “O Samurai (1967)”, do diretor Jean-Pierre Melville, característico longa de roupagem noir que falsamente parecia ser um mero entretenimento barato. Não é estranho, portanto, que o personagem de Fassbender pareça com o que seria um Jef Costello (Alain Delon) construído de acordo com uma discursiva irônica do pós-2010, elemento este que, embora possa parecer inicialmente como sendo incomum ao gênero ao qual “O Assassino” parece pertencer, está de acordo com o que o cineasta está em busca quanto a esta ideia de manter um discurso alinhado no que diz respeito a este aprofundamento da fragilização das dinâmicas humanas por detrás das relações de trabalhos.
O cineasta trabalha em completo desprendimento quanto a qualquer convenção que poderia ser aguardada durante uma jornada de vingança de um matador de aluguel como o interpretado por Fassbender. É um filme inteiramente cínico e desesperançado sobre o que seria esta derradeira destruição do mundo, que está ocorrendo neste exato momento em que este texto está sendo escrito ou que será lido, cada vez mais próxima da sociedade, seja através dos meios de consumo ou da excessiva exigência de produtividade. O personagem termina não por ser redimido por ter sido parte deste sistema durante tanto tempo, mas por ser reconhecido como parte dele, apesar de seu inegável esforço para negar essa percepção.
NOTA: 8,0/10

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