Por Matheus Britto
Para Philip K. Dick, androides poderiam sonhar com ovelhas elétricas. O androide-protagonista de Pablo Berger, cineasta espanhol que estreou no cinema com um longa-metragem lançado em 2003 e possuí apenas quatro títulos em sua carreira, por outro lado, pode também sonhar com um retorno para casa que ocorre de modo semelhante a chegada de Dorothy e seus colegas à Cidade das Esmeraldas no clássico de Victor Fleming, “O Mágico de Oz”, projetando sua ansiedade em um turbilhão onírico que percorre os meses que o mantém separado de seu melhor amigo, Dog.
Baseada na graphic novel da autora estadunidense Sara Varon, e tendo estreado tanto no Festival de Cannes durante o primeiro semestre de 2023 quanto na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo no segundo, “Robot Dreams” é a primeira animação em 2D dirigida por Berger. A produção segue a amizade – ou uma relação com um potente subtexto queer – entre um cachorro e um robô no subúrbio de Nova York durante a década de 1980, em uma sociedade na qual humanos não existem e a tecnologia está em um estágio avançado o bastante para que solitários como Dog possam encomendar o afeto que são incapazes de encontrarem e manterem na presença de outros seres.
O cenário no qual Robot e Dog estão inseridos é uma colcha de retalhos. A ideia de comprar afeto através de um site que enviará um robô que pode ser montado dentro de casa bastando seguir as instruções do manual soa como uma projeção de uma realidade a ser especulada através da ficção-cientifica – é possível que haja até mesmo um episódio de “Black Mirror” com uma proposta semelhante. Contudo, ao explorar o que seria um verão nova-iorquino na década de 1980, levado a boa música como “September” de Earth, Wind & Fire, Berger afasta-se do científico e foca na importância das relações, tanto as que são mantidas apenas na memória quanto as que surgem posteriormente.
São atribuídas características humanas à estes dois seres. Dog encontra a companhia que estava buscando desesperadamente e Robot imediatamente se apaixona pelo que encontra ao longo de suas primeiras experiências fora da caixa de envio, explorando cada contorno com a curiosidade genuína de alguém que está se permitindo conhecer o mundo pela primeira vez. Este aprendizado é mútuo, tendo em vista que o cachorro finalmente está descobrindo o que está além da solidão, a diferença que dificilmente era capaz de compreender enquanto observava seus vizinhos sentados lado a lado diante da TV no final de uma noite comum de uma semana extraordinariamente comum.
Sem nenhum diálogo presente por toda sua duração, Berger foca nas reações e demais expressões dos personagens, valendo-se de uma lógica semelhante a do cinema mudo quanto a extrair o bastante do que seus “atores” têm a expressar quanto ao que lhes acontece. Da curiosidade em explorar o que pode ser considerado como sendo desconhecido para um robô que, tal qual o Homem de Lata em “O Mágico de Oz”, encontrou um coração que sequer sonhava em possuir aos esforços de Dog para encontrar um meio de superar os obstáculos e finalmente recuperar seu amigo, que precisou ser deixado para trás, na areia da praia no último dia antes de seu fechamento até o início do próximo verão.
Em “Robot Dreams”, Pablo Berger explora a concepção do quão valiosas são as relações estabelecidas, sejam estas surgidas do acaso ou não, e os sentimentos que mantemos uns para com os outros, mesmos quando estes nos deixam e passam a ser parte de uma composição tão complexa como a memória. Combinando o tradicionalismo de uma animação 2D com o que há de clássico na captura emocional do cinema mudo, a animação torna-se um recorte sensível sobre laços que surgem e desaparecem ao longo de um mesmo verão sem jamais serem completamente esquecidos no decorrer do tempo.
Nota: 8,0/10

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