Por Fernando Grisi.
Com este compilado de críticas chegamos ao fim de nossa primeira cobertura do Festival Internacional de Cinema de Toronto! Estive presente durante os 10 dias de festival, com 36 filmes de longa metragem assistidos, 5 curtas metragem e 1 episódio de série. Participei de eventos da indústria, de uma festa organizada pelo Rotten Tomatoes e conheci muita gente legal! Destaque pra sessão de “Los Colonos” na qual Kleber Mendonça Filho sentou do meu ladinho. Mas principalmente aos críticos Carol Ballan (do site No Sofá Com Gatos) e Waldemar Dalenogare, que foram meus parceiros de sessões!
Esta foi nossa terceira cobertura em festivais internacionais, após Cannes e Nova York ano passado, e quero agradecer muito a todos que acompanharam nossa aventura em Toronto, seja pelos Stories, Reels e Lives no Instagram, ou pelos Spaces e Tweets, e principalmente a quem reservou um tempo para ler as críticas escritas que preparei com tanto carinho ao longo destas semanas. Apesar de não ter conseguido falar de todas as 42 obras vistas no Tiff, acredito ter escrito ou gravado sobre as mais relevantes e as que mais mexeram comigo e me chamaram a atenção (claro, além de ter falado sobre todos os filmes da A24 presentes no Festival). Vou deixar todos os links importantes da cobertura no fim do texto. Queria lembrar a todos que só conseguimos continuar escrevendo e trazendo este tipo de conteúdo porque vocês estão aqui para nos apoiar. Muito obrigado! Agora vamos às críticas.

Você provavelmente conhece o filme “Carvão”, de 2022, a estreia em longas-metragens de Carolina Markowicz. Foi uma das estreias mais surpreendentes do cinema nacional dos últimos anos, e conseguiu uma boa repercussão dentro e fora do Brasil. Gosto muito de praticamente tudo que foi realizado em “Carvão”, e fico feliz em dizer que, ao contrário de muitas críticas que ouvi a respeito de “Pedágio”, o mais novo longa de Markovicz retornando à Toronto, considero que está no mesmo nível de seu impressionante primeiro trabalho.
“Pedágio” conta a história de Suellen, mãe solo que trabalha em um posto de pedágio no estado de São Paulo. Ela e seu filho adolescente Tiquinho não se dão muito bem. Ele é gay e sua mãe possui uma visão extremamente conservadora a respeito disso. Tanto é que aceita um trabalho bastante suspeito e imoral para conseguir um dinheiro extra e mandar Tiquinho a um centro de “conversão gay”.
A trama se desenvolve sem muitos floreios ou complexidades. Não há grandes reviravoltas ou mudanças bruscas nas relações estabelecidas. O roteiro prefere focar nos pontos básicos dessas relações e suas consequências. O arco mais interessante de se acompanhar é o de Suellen com seu filho. A relação dos dois pode parecer simples, mas sabemos, como filhos, que nunca é. Obviamente há um afeto familiar entre os personagens, mas está muito, muito escondido embaixo de camadas de ressentimento e discordância. Suellen é, basicamente, homofóbica, possuindo uma distância do universo particular do garoto que é praticamente insuperável, e Tiquinho acha tudo que sua mãe faz e acredita ridículo e egoísta. Ainda há o bônus dela ter um namorado igualmente ridículo e egoísta, na visão do jovem. Não vou dar spoilers, mas a cena final resume muito bem a relação de Tiquinho e Suellen, na qual somos levados a conclusão de que mãe e filho estão sempre presentes um para o outro, mas a sua própria maneira, e raramente demonstrando. São pessoas reais, machucadas demais uma pela outra para abaixarem a guarda, mas ligadas demais para se abandonarem de uma vez.
O restante do filme toma forma em um misto de sátira com suspense. À medida que Suellen continua a trabalhar com seu namorado em “esquemas”, o clima começa a pesar mais até a iminência de todo o trabalho ir por água abaixo e eles serem descobertos, nos deixando apreensivos e curiosos. Ao mesmo tempo, Tiquinho passa a frequentar o “centro de conversão”, gerido por um padre português com o sotaque bem pesado e métodos no mínimo engraçados. Por exemplo, um exercício no qual os homens devem, com massinha de modelar, criar figuras de seios, e as mulheres, de pênis. É aqui que entra a sátira e o humor do longa. Há também a personagem Telma, que a princípio parece ser insignificante, mas que auxilia demais no fortalecimento da sátira feitas às hipocrisias de pessoas extremamente religiosas mas também extremamente imorais. A Fotografia escura da obra nos aproxima de um clima de suspense, e as escolhas da Direção de Arte e Figurino para ilustrar o que ocorre no “centro de conversão” nos levam para um outro lado da história, ainda que igualmente sombria se pararmos para analisar. Maeve Jinkins é uma das melhores atrizes do cinema brasileiro contemporâneo, e volta aqui a trabalhar sob direção de Markowicz entregando realismo, conflito, preocupação e frustração. O trabalho de Kauan Alvarenga como Tiquinho também chama atenção, que apesar de não estar no nível de Jinkins e de às vezes até parecer estar deslocado do personagem, foi um adolescente revoltado e realista mas cheio de sonhos e esperanças bastante convincente.
Entendo os possíveis motivos para críticas terem definido “Pedágio” como inconsistente e bagunçado, mas não concordo. Para mim, seus múltiplos núcleos que nem sempre se encontram, a mescla de gêneros e a falta de uma redenção para os personagens fazem deste filme outro grande acerto na brilhante ainda que recente carreira cinematográfica de Carolina Markowicz.
Nota: 8,0

Coloquei “National Anthem“ em primeiro lugar na minha lista de melhores filmes assistidos no Festival de Toronto 2023, e, apesar de ser uma vaga muito disputada, acredito que a posição permanece até hoje. Geralmente as histórias com as quais nos identificamos mais são as que falam conosco de alguma maneira específica. “National Anthem” (“Hino Nacional”, em português) é uma estreia na direção sensível e arrebatadora de Luke Gilford, e que mexeu muito comigo. O filme acompanha a história de Dylan, um jovem de 21 anos que trabalha como pedreiro no estado do Novo México, EUA. Um dia ele é recrutado para trabalhar em um rancho gerido por pessoas Queer, e, ao se aproximar cada vez mais daquelas pessoas, acaba descobrindo coisas importantes sobre si mesmo, em questões de sonhos, sexualidade e amor.
Naturalmente tenho tendência a gostar mais de filmes que retratem a vivência LGBT+, mas realmente acredito que este é um filme especial. A jornada de descoberta de Dylan é tecida com todo o carinho do mundo, sem julgamentos ou sermões. É comum termos em histórias sobre pessoas Queer a noção de um desejo de fuga, um desejo de autoconhecimento e autonomia do personagem para além de seu mundo comum, de sua família e de tudo que cresceu conhecendo. Aqui, apesar de haver sim o desejo de Dylan de conhecer outros lugares dos Estados Unidos partindo em uma longa viagem, gostei de como o roteiro nos mostra o carinho que ele tem por sua família, que é algo que poderia teoricamente prendê-lo ali, para o bem ou para o mal, e gostei principalmente do fato de que o jovem não precisou de fato sair de onde estava para encontrar sua “tribo”, apenas mudar um pouco sua perspectiva e seus meios, e se manter aberto.
Charlie Plummer, de apenas 24 anos, conduz o filme sem chamar atenção excessiva para sua interpretação. O protagonista é introspectivo e leva seu tempo para desabrochar, e o filme em nenhum momento tenta apressar o processo. Muitos reclamam das interpretações de Plummer, mas desde que o vi em “Lean On Pete“, filme da A24 dirigido por Andrew Haigh (no qual ele inclusive tem mais uma vez um laço afetivo com cavalos) acredito muito em seu potencial como ator. E em “National Anthem” ele entrega não apenas seu melhor trabalho, como a interpretação principal mais cativante que vi em tempos. Há também que se dar destaque para Eve Lindley, que interpreta brilhantemente a bela e misteriosa Sky. Sem ela não haveria filme, e muito menos a jornada emocional do protagonista. Ela é a responsável por virar o mundo de Dylan do avesso e abrir seus olhos para o fato de que seus sentimentos são válidos e ele não está sozinho no mundo, ao mesmo tempo em que Carrie, personagem interpretado por Mason Alexander Park, o faz entender que mesmo naquele ambiente livre nem tudo são flores, e, mesmo que alguém lhe ame com todo o coração não quer dizer que precisem de você…
O diretor e roteirista Luke Gilford (que inclusive se tornou um dos meus diretores favoritos após descobrir que já dirigiu clipes de Troye Sivan!) comentou após a sessão no Tiff que existe todo um universo Queer no meio cowboy e de rodeios no interior dos Estados Unidos, ainda que desconhecido por muitos, e que ele sempre fora fascinado por tal meio ao mesmo tempo que horrorizado com a hostilidade e preconceito com o qual a comunidade era tratada dentro deles. Luke, inclusive, antes de dirigir este que é seu primeiro longa, fotografava profissionalmente pessoas LGBT inseridas nos rodeios, ranchos e etc. e pôde conhecer muitas histórias de repressão mas também de superação. A cena final do longa é extremamente marcante nesse sentido de ressignificação de símbolos tipicamente relacionados a grupos hostis à comunidades como a LGBT+, no caso, similar ao que ocorreu conosco no Brasil após 2018, a bandeira dos EUA. O final fechou com chave de ouro o arrebatamento que a obra me proporcionou. Assim que o título do filme apareceu na tela finalmente mostrando seu sentido ao som altíssimo de uma música que inclusive já conhecia e amava, me encontrei extremamente satisfeito com o que acabara de assistir e sabia que havia presenciado uma das melhores experiências cinematográficas da minha vida.
Gostei tanto de “National Anthem” que é até difícil expressar com palavras aqui. Então peço para que deem uma chance ao longa e o coloquem em suas listas de “para assistir” o mais rápido possível. É verdade que pode ser que nem todos se identifiquem com os temas de família escolhida e vivências LGBT. Mas todos nós já estivemos perdidos em relação a quem somos, e é sobre isto que o meu filme favorito do ano irá nos fazer refletir.
Nota: 9,7

“Riddle Of fire“ foi o único filme que assisti na famosa Midnight Madness do Festival de Toronto. A “Loucura da Meia-noite” consiste em sessões especiais de um programa do festival destinado a filmes…diferenciados. E sempre exibidos à meia-noite. Geralmente os filmes de terror e suspense marcam grande presença (“Pearl”, da A24, teve sua estreia na Midnight Madness do ano passado), mas sempre há uma ou outra pérola que não se encaixa exatamente em um gênero muito bem definido (lembro que em 2022 houve também a exibição do controverso “The People’s Joker” nesta mostra, por exemplo). Em 2023 tivemos o esquisitíssimo “Aggro Dr1ft“, de Harmorine Korine estreando aqui (sobre o qual ainda não consigo formular uma opinião formal, aliás) e também a maravilhosa surpresa sobre a qual irei discorrer melhor: agora o encantador “Riddle Of Fire“.
A tradução literal do título é “Enigma de Fogo”, e remete à jogos de RPG, nos quais há campanhas e missões com objetivos a serem cumpridos e enigmas a serem decifrados por seus excêntricos personagens, nas famosas quests. Aqui, nossos três bravos heróis Hazel, Alice e Jodie começam sua aventura com uma premissa bem simples: para jogarem seu novo videogame (que roubaram diretamente do estoque da distribuidora) eles terão que preparar uma torta para a mãe de Hazel e Jodie, que está doente na cama. Mas a tarefa que inicialmente parecia fácil vai se complicando à medida que avançamos na narrativa, e os pequenos que de inocentes possuem apenas os rostinhos aceleram pela cidade com suas motocicletas e empunham suas armas de paintball, roubando supermercados e causando caos na vizinhança, até se envolverem com um culto de verdadeiras bruxas. Tudo isso por uma torta (mais especificamente por um ingrediente dela), com o roteiro seguindo a lógica das campanhas de RPG nas quais as situações, desafios e oponentes se tornam mais letais e imprevisíveis a cada fase superada.
“Riddle Of Fire” é divertidíssimo do início ao fim, e te fará lembrar de sua infância, daquelas brincadeiras nas quais tudo era possível e os adultos não passavam de grandes e estúpidos contratempos. As crianças aqui são as protagonistas, e tudo gira em torno delas. E, como já mencionei, não são crianças inocentes: elas roubam, xingam, brigam constantemente e até se envolvem com drogas em uma certa circunstância (hilária, inclusive), e assisti-las me deu um sentimento nostálgico juntamente com um certo arrependimento por não ter sido um pouco mais levado na minha infância. É natural estranhar e criticar interpretações infantis (nós aqui no Brasil também não estamos acostumados com o melhor histórico), mas para mim estas atuações mirins funcionaram muito bem. Talvez o ambiente mágico e surreal da história tenha ajudado a relevar alguns momentos de mais plasticidade e rigidez de suas atuações, que existem sim, até porque os jovens estão fazendo versões exageradas e muito específicas de crianças, que são desbocadas, ferozes e sempre enérgicas, e é difícil atingir níveis para além desses mesmo quando necessário. Sei na pele como é dirigir crianças em um set (inclusive, vem conhecer o projeto), e imagino o trabalho que deve ter sido para o diretor e roteirista estreante Weston Razooli integrar os 4 jovens (sim, há mais um que se junta ao grupo, a filha da bruxa) e deixa-los em sincronia com seus excêntricos personagens. Penso que também por isso consigo apreciar tanto o que foi de fato atingido pelo elenco infantil. Ninguém pode negar que todos ali envolvidos estão se divertindo ao máximo.
Admito que não é meu estilo elogiar a escolha de se gravar em película, mas a qualidade que a técnica dá a esta obra, criando uma sensação de estarmos assistindo a um sonho, a algo que não é real, mas uma fábula, saindo direto de um livro antigo, é realmente impressionante e salta aos nossos olhos. O filme foi gravado no meio leste estadunidense, mas a impressão é de que se passa em uma terra distante saída de um conto de fadas moderno. Foi um ótimo trabalho da Fotografia, e principalmente da Direção de Arte neste sentido. Aliás, todos os aspectos da obra se destacam por sua criatividade. Há escolhas interessantíssimas aqui, como o fato de todas as falas do jovem Jodie, o menorzinho do grupo, serem legendadas (no Q&A após a sessão o diretor revelou que a escolha foi prática, por conta de sua dicção não tão boa, mas que acabou dando uma camada a mais de inventividade ao adicionar tal elemento visual), até porque quando há a utilização de feitiços pelas bruxas também é usado o artifício das legendas. Há também em uma cena icônica e superdivertida o ótimo uso da música “Baby Come Back” , que aliás não saiu da minha cabeça desde que assisti ao filme.
Este foi o último longa que assisti no Festival, e na sessão mais animada de lá. Foi uma ótima maneira de encerrar minha experiência no Tiff 2023, e agora sua crítica encerra nossa cobertura. Meu maior desejo cinéfilo de Ano Novo para 2024 é que alguma boa alma veja em “Riddle Of Fire” uma experiência digna das salas de cinema brasileiras e programe esta pérola maravilhosa. Por favor não deixem de experienciar esta aventura deliciosa assim que possível.
Nota: 9,5

*Todos Os Links Da Nossa Cobertura Do Festival De Toronto 2023:
– Crítica de “Dicks: The Musical”
– Crítica de “The Zone Of Interest”
– Críticas dia 1 do Festival de Toronto
– Críticas dia 2 do Festival de Toronto
– Críticas dia 5 do Festival de Toronto
– Críticas dia 7 do Festival de Toronto
– Crítica em vídeo de “The Boy And The Heron”
– Crítica em vídeo de “Woman Of The Hour”
– Crítica em vídeo da série “Expats”
– Vídeo em parceria com Thiago Romariz sobre nossos filmes favoritos do Tiff

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