Por Matheus Britto
Após ter estreado na direção de um longa-metragem em 2018 com o lançamento do remake de “Nasce uma Estrela” protagonizado por Lady Gaga, Bradley Cooper assume a missão de transitar por entre a ascensão musical e a derrocada matrimonial de Leonard Bernstein (Cooper), tendo como principal suporte à esta contação de uma história a perspectiva de Felicia Montealegre (Carey Mulligan) por sobre as situações pelas quais o relacionamento do casal passou no decorrer dos anos que sucederam os primeiros encontros amorosos e, finalmente, o casamento.
Vencedor de inúmeros Grammys e indicado à outros tantos prêmios considerados importantes tanto para indústria da música quanto para do cinema, Bernstein tem sua vida transposta para tela grande como se uma câmera o acompanhasse por trás dos bastidores da Filarmônica de Nova York e das discussões que passaram a ocorrer à portas fechadas por serem consideradas dolorosas o bastante para não acontecerem em frente aos filhos. Percebe-se, no entanto, um cuidado especial no que diz respeito a filtrar o suficiente de sua trajetória de modo a não estabelecer um retrato sobre o biografado que poderia ser considerado controverso. É, em linhas gerais, uma cinebiografia que anseia por demonstrar paixão quanto as referências e inspirações captadas dentro da carreira do compositor, mas que permanece alinhada ao protocolar, comum à Hollywood ao lidar com suas grandes estrelas.
São, portanto, as escolhas estéticas que chamam atenção durante o filme, corroborando a percepção de que este é um Cooper que, enquanto diretor, amadureceu ao longo da passagem de tempo entre o trabalho que realizou em “Nasce uma Estrela” e o que está realizando com este lançamento, mas não o suficiente para lidar com decisões que permitissem, durante a intermediação com o público, uma aproximação com uma trajetória caracterizada por falhas de impacto amenizado e sucessos resumidos a serem elencados em diálogos. Tal qual Bernstein que demonstrou ser implacável nesta busca por reconhecimento, o homem que o dirige e é dirigido está buscando alcançar um patamar que o permita ser referenciado pelo que há de autoral em suas produções.
Do plano-sequência no qual o protagonista é filmado logo após receber a notícia de que teria que dirigir a Filarmônica de Nova York naquela noite – movimento este que, em um dado momento, destaca a profundidade do teatro e enfatiza a imponência do compositor em face ao seu “oponente”: o palco – à entrada da personagem de Mulligan como se fosse uma estrela clássica de Hollywood antes mesmo de sua ascensão ou uma personagem à qual poderia ter uma composição de Bernstein para chamar de sua, há uma magia e uma cumplicidade que são esvaziadas durante a hora seguinte, apesar da inserção de uma drama sobre uma doença terminal que visa reafirmar os laços entre marido e esposa e tentar manter-se próximo ao público. “Maestro”, por sua vez, não está seguindo a burocracia de Hollywood somente no que diz respeito a maneira como escolhe lidar com a representação dos altos e baixos de seu biografado, mas também ao assumir as características de um espetáculo vazio sob a falácia de ser uma narrativa intimista.
Se em “TÁR”, por exemplo, não bastou à Todd Field filmar os feitos de Lydia Tár (Cate Blanchett) sendo elencados diante de uma plateia que desconhecia os termos rebuscados mencionados por entrevistada e entrevistador, sendo necessário também filmá-los para que então sua compositora imaginada fosse tornada uma pessoa real, Cooper não faz tanta questão quanto a ir além das meras menções em “Maestro”. Afirmar que “Amor, Sublime Amor” redefiniu o musical estadunidense é colocado como o bastante para conhecer um pouco mais sobre o protagonista, e então o filme salta para próxima crise pela qual Bernstein passará, seja em relação à sua carreira, que estava em uma ascensão meteórica, ou como sua sexualidade passou a afetar a estabilidade de seu casamento.
Cooper recorre à imagem de Bernstein não por ter idealizado uma maneira de honrá-lo pelo grande maestro que foi durante sua trajetória no meio musical, afinal, boa parte disso permanece delegada à breves menções em entrevistas, mas sim por ter reconhecido em sua história como um homem livre contra uma era conservadora uma oportunidade quanto a projetar a si próprio no meio cinematográfico, exercitando este fascínio quanto a estética. “Maestro” opera sob a lógica de preservação de uma identidade mitificada para seu biografado enquanto trabalha na construção de um Bradley Cooper que será reconhecido por ter deixado de ser ator para que então pudesse ser alçado à cineasta autoral.
Nota: 4.0/10

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