Por Matheus Britto

Em “Monster”, de Hirokazu Kore-eda, um incêndio continua sendo um incêndio independente da perspectiva de quem o está observando. A diferença está no que o precedeu e no que o sucederá.

Após o lançamento de “Broker” em 2022, que esteve entre os selecionados para concorrer pelo Palme d’Or durante a 75ª edição do Festival de Cannes, levou cerca de pouco mais de um ano para que Hirokazu Kore-eda retornasse ao festival francês para exibição de “Monster”, primeiro longa dirigido com base em um roteiro que não fora elaborado pelo próprio cineasta desde “Maborosi”, lançado em 1995. Uma dedicatória à memória de seu compositor, Ryuichi Sakamoto, que faleceu dois meses após sua estreia; homenageado com o Queer Palm; e vencedor do Prêmio de Roteiro, o filme, que remete vagamente à “Close”, de Lukas Dhont, é uma fábula sobre a superproteção de pais para com seus filhos durante o início da adolescência, e, sobretudo, acerca dos conflitos que podem ser desencadeados durante esta contraposição entre uma realidade pouco imaginativa e de frieza naturalizada que circunda os relacionamentos adultos e a das crianças, puramente inocente, tanto nas brincadeiras quanto no processo de formação de vínculos duradouros.

A busca pela verdade parte do primeiro ponto de vista introduzido de modo a iniciar a estruturação desta narrativa, ou seja, de Saori (Sakura Ando), personagem que, após o falecimento de seu marido, tem desempenhado o papel de mãe e pai na criação de Minato (Soya Kurokawa), rapaz que, logo após os primeiros dias de retorno às aulas do quinto ano, começa a demonstrar uma postura que não condiz com sua personalidade. Diante do comportamento taciturno demonstrado pelo filho, a personagem de Ando leva sua preocupação à escola, sendo neste momento, durante os sucessivos encontros com uma diretora que, em face à acontecimentos pessoas recentes, assume uma conduta impessoal sobre o caso e com um professor cujo falatório transita entre assumir a responsabilidade pelo que está sendo acusado e indicar que há algo além acontecendo, que “Monster” se aproxima de ser um drama de incessantes acusações inserido no ambiente escolar, permitindo a Kore-eda estabelecer um retrato sobre o que é esta burocracia que cerceia as relações dentro da sociedade japonesa contemporânea.

Saori não está buscando pelos constantes pedidos de desculpas que passam a serem oferecidos a exaustão pelo corpo docente a cada vez que é necessário retornar à sala da diretoria, seja por seu filho ter demonstrado um novo comportamento que a mantém preocupada no que diz respeito ao que pode estar acontecendo ou por uma ocorrência que tenha sido observada e então denunciada durante o período das aulas. Inicialmente culpado por ter iniciado uma perseguição supostamente irracional contra Minato, acusando-o de ter “um cérebro de porco” e lhe agredido no nariz, o professor Hori (Eita Nagayama) passa a ser reconhecido de acordo com o juízo de valor que está sendo assumido pela mãe. Acreditamos na culpa que está sendo apontada sobre o personagem de Nagayama, e Kore-eda, valendo-se desta crença que demonstra ser tão irracional quanto o que estão acusando o professor de ter feito, detalha a incapacidade dos adultos de realmente escutarem o que seus filhos têm a dizer, apesar de serem bem-intencionados quanto a tentativa de mantê-los em segurança.

É com a inserção da perspectiva de Hori à estrutura narrativa, sucedendo a de uma preocupada Saori, no entanto, que o caráter por detrás da verdade destes acontecimentos é esclarecido enquanto um elemento imutável. “Monster” não é, portanto, um caso de diferentes pontos de vistas que podem levar à diferentes conclusões em relação à uma série de ocorridos, e sim um daqueles casos que visa manter a importância do que cada acessório diretamente relacionado a ocasião pode oferecer como sendo uma contribuição fundamental, estabelecendo uma composição que prioriza uma revelação definitiva quanto ao que não é dito e não está visível, mas que permanece concreto. Esta mudança de foco para o amadurecimento de Minato e a autodescoberta através da forma como o rapaz passa a lidar com os primeiros sinais de uma paixão em desenvolvimento faz com que o longa de Kore-eda, que demonstrara ser crítico quanto a burocracia que a sociedade assume quando necessário lidar com suas crianças, esteja mais próximo de um drama sobre bullying e amor queer no início da adolescência.

Esta busca pela verdade, inicialmente realizada através de um olhar preocupado como o de Saori, é colocada em segundo plano em detrimento da inclinação de Kore-eda em deixar o que apenas ensaiava e retomar a adoção de aspectos melodramáticos, e a forma como escolhe lidar com a entrada do público no universo imaginativo das crianças, neste caso, de Minato e de Yori Hoshikawa (Hinata Hiiragi), garoto vislumbrado durante o primeiro bloco da narrativa cuja importância é lentamente acredita no decorrer da rodagem. Em face a verdade que foi esclarecida – decisão esta em parte prejudicial a algumas das decisões anteriores – o cineasta passa a ser direto quanto ao seu ato de observar a natureza genuinamente inocente destes dois garotos quando estão longe das dificuldades encontradas no cerne da sociedade, tanto pelo bullying sofrido na escola quanto pelas agressões domésticas que partem de um pai abusivo. Dentro de um vagão de trem abandonado transformado em esconderijo para brincadeiras, embora não tenham plena consciência do significado da palavra, ambos mencionam a ideia de renascer, destacando a possibilidade de escaparem das dores com as quais tem lidado silenciosamente.

Nota: 8/10

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