No mundo das artes plásticas e mais precisamente da pintura, o surrealismo é um movimento artístico onde os artistas da época buscavam novas interpretações e visões sobre figuras mundanas como o corpo humano e objetos do dia-a-dia da nossa sociedade, distorcendo e criando situações imagens surreais, em um grande resumo. Já no audiovisual e principalmente no cinema, o surrealismo também tem alguns propósitos similares, mas acaba se tornando algo diferente devido a mídia em que ela está inserida.
No cinema quando falamos do surreal, nomes como David Lynch e Alejandro Jodorowsky são os primeiros que vem a mente. Contudo, em “The Curse”, não teremos os exemplos clássicos dos citados, logo não esperem cavalos em banheiros e cenários monocromáticos. O aspecto surreal de “The Curse” vem de um lugar comum, quase que paradoxalmente. É a junção de um roteiro extravagante e atuações no ponto certo que criam momentos em que o espectador não sabe se ele se sente bem ou mal de estar incomodado com o que acontece durante os 10 episódios da série da A24 em parceria com o canal estadunidense Showtime.
Em “The Curse” seguimos o casal Asher e Whitney Siegel em uma empreitada sustentável. O jovem casal busca unir sustentabilidade e oportunidades com o programa de casas sustentáveis idealizado por Whitney e com isso, trazer a comunidade emprego e visibilidade. Além deste projeto, o casal também fechou um acordo de filmarem uma série sobre a jornada dos dois na comunidade Española com a ajuda de um “amigo” de infância de Asher, Dougie. Este é o ponto de partida de “The Curse”.

Logo de inicio, conseguimos notar a proposta de uma metalinguagem proposital, onde uma série está sendo gravada dentro da série que estamos assistindo. Com isso, vem o primeiro e talvez mais importante aviso para quem quer assistir a “The Curse” ou quem já viu e não recebeu este aviso antes: “The Curse” não é uma série fácil de se assistir. Não que tenha momentos de “jumpscares” que possam enervar os mais assustados ou nenhuma cena explícita de sanguinolência ou violência extrema, não é isso. “The Curse” se torna um desafio ser assistida pela linguagem escolhida e pelos momentos de extremo desconforto que a produção nos entrega ao longo dos episódios propostos.
Para um espectador mais casual, o vai e vem de gravação da série e a “série de verdade” pode causar confusão e desprendimento da narrativa principal. Aliado a isso, a utilização recorrente de não-atores é proposital em busca de veracidade, mas que também pode dificultar o apreço pela série. Caso estes obstáculos sejam superados, os diversos momentos de vergonha alheia permeados pela série podem ser desafios difíceis demais para serem superados. Logo no primeiro episódio temos alguns exemplos deste momentos, talvez o mais infame deles seja o momento dos “tomates cereja”.
Busco sempre manter meus textos com o mínimo de spoilers possíveis, mas neste caso é importante a contextualização. No primeiro episódio da série, Asher vai até seu sogro em busca de conselhos para o negócio dele com a sua filha. Com isso, o pai da Whitney começa um discurso que parece ser meio sem pé nem cabeça, até o ponto em que ele toca no assunto do tamanho do pênis de Asher. Esse tema, por sinal, é um fio condutor da trama, que aparece a todo momento durante a série, a relação de Asher com o seu pênis e como o tamanho pequeno dele afeta a sua relação interpessoal e com sua esposa.
Após o pai da Whitney aconselhar Asher da melhor forma possível, ele abaixa as calças e mostra o próprio pênis e diz que o tamanho não é problema e soltando a analogia que ficou famosa de seus pênis com tomates cereja. Vale também ser ressaltado que no inicio do episódio, temos um close no pênis minúsculo de Asher, que rendeu até uma nota do ator que o interpreta, Nathan Fielder. O ator e também um dos idealizadores da série afirmou que a cena foi feita com uma prótese e que aquele não era seu pênis de verdade.
Este é só um dos diversos exemplos que podemos nos debruçar sobre que “The Curse” cria. O roteiro, pensado de forma brilhante, consegue mesclar de forma positiva a progressão narrativa do que foi proposto com momentos onde o fundamental é o estranho e não a história, mesmo que com percalços no caminho. A série apresenta diversos personagens que cruzam a caminhada de Whitney e Asher, com foco especial em Dougie e a família que “amaldiçoa” Asher.

Este é outro ponto fundamental para a série. A maldição, traduzindo literalmente o título da obra, é um fator proeminente na trama da série até o último momento. Também no primeiro episódio, Asher tenta forjar uma situação de caridade onde ele compra alguma caixas de refrigerante de uma menina com uma nota de 100 dólares. Após a câmera de Dougie para de filmar, Asher pede o dinheiro de volta pois não tinha trocado. A menina insiste que ele deu o dinheiro para ela e Asher persiste que ele vai trocar o dinheiro e dar uma parte para a garota. Após bate boca, a menina devolve o dinheiro para Asher e o amaldiçoa por isso.
Tanto para nós, os espectadores, como para os personagens envolvidos, a “veracidade” desta maldição é questionada, mas até um certo ponto da história. Este é um dos elementos que talvez possa “explicar” algumas das situações estapafúrdias da série, ser culpa do sobrenatural.
Antes de finalizar este texto, é preciso separar um espaço para falar das atuações da série, o ponto mais forte da obra. Os personagens criados por Nathan Fielder e Benny Safdie são nada usuais e caricatos até certo ponto, mas que pedem uma atuação pés no chão e criveis e é exatamente o que Emma Stone entrega. Falando assim pode parecer simples, mas as nuances que a atriz trouxe para sua personagem Whitney Siegel são fator fundamental para o êxito da série. Sua atuação é tão boa que ela se destaca dos demais, que mesmo não chegando no nível da atriz, conseguem entregar atuações importantes e não comprometedoras
No final de contas, “The Curse” é uma série singular que não se vê tanto por ai, para o bem e para o mal. Não é uma série padrão onde uma história é contada do ponto A ao ponto B, com uma progressão linear e uniforme dos personagens apresentados. De todos os personagens, apenas o núcleo principal sofre um desfecho, sendo esse núcleo Asher, Whitney, Dougie, a menina da maldição e sua família. O restante dos personagens apresentados e suas histórias acabam caindo em segundo plano e algumas sendo totalmente esquecidas ao desfecho da história.
“The Curse” acaba se tornando uma série de nicho e divisiva, onde é necessário certo conhecimento e principalmente costume para assistir a série e entender o que ela é e sua proposta. Não sendo consenso nem para os mais ávidos consumidores, “The Curse” definitivamente não é uma série para um espectador mais casual ou alguém que esteja em busca de algo novo para assistir. Ultimamente, “The Curse” é uma série que almeja ser fora da caixa e com isso, se torna fora da caixa para a maioria.

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