Por Matheus Britto
Em “Segredos de um Escândalo”, Todd Haynes abre mão de suas inspirações na Hollywood clássica, que comumente compõem uma parcela substancial de suas obras, como “Longe do Paraíso” e “Carol”, para vasculhar o que pode estar escondido por detrás de uma imagem artificial que tem sido projetada por uma família-propaganda dentro de um subúrbio estadunidense.
Inspirada em um caso que ocorreu no Estado do Iowa no final da década de 1990, este longa ora cômico ora trágico segue Elizabeth (Natalie Portman), uma atriz que passa a acompanhar de perto a rotina de um casal que outrora esteve no centro das atenções dos tabloides locais como uma forma de preparação para interpretar Gracie (Julianne Moore), uma mulher que engravidou de Joe (Charles Melton), à época um rapaz de 13 anos, e manteve um relacionamento com ele após ser liberada da penitenciária. Imediatamente vista e mencionada como sendo uma intrusa dentro deste habitat autossuficiente que tem sido o subúrbio dentro de qualquer produção cinematográfica que busca experimentar quanto a sua capacidade de enterrar os mais sombrios dos segredos de famílias comuns, a presença de Portman leva ao descortinar de uma realidade que há muito tem sido ignorada: pessoas que tem atuado em papéis de falsa normalidade enquanto estão inseridas em um cenário de fragmentação da verdade.
O fingimento é parte deste novo normal que foi estabelecido logo após o casamento de Gracie e Joe e o nascimento de outras duas crianças, que, na altura em que esta narrativa tem início, estão prestes a se formarem no Ensino Médio. O longa de Haynes é, portanto, sobre esta atriz, que clama um comprometimento incorruptível no que diz respeito a dar voz para experiência que Moore vivenciou enquanto uma mulher que iniciou um conturbado relacionamento com um menor de idade, inserida em um jogo de espelhos, imitações, insinuações, e manipulações, no qual todos aqueles que foram afetados por este escândalo estão participando, atuando direta ou indiretamente com a fragmentação do que é a verdade por trás deste caso. Logo em seguida a chegada de Portman durante um característico churrasco de final de semana percebe-se a existência de um pacto não-verbalizado entre os residentes daquela comunidade em não mencionarem o ocorrido, uma memória que precisa estar enterrada em um gramado bem-aparado e por trás de cercas brancas.
No subúrbio de “Segredos de um Escândalo”, tudo parece uma tragédia prenunciada em meio a serenidade das pessoas comuns enquanto a verdadeira tragédia tem sido duramente sufocada por esta decisão de não a comentar, de esquecê-la ao invés de lidar diretamente com suas consequências, de encarar o casamento e o nascimento das crianças como um “felizes para sempre” de um relacionamento conturbado entre uma mulher que estava na faixa dos 30 anos e um menor de idade. O riso surge da acidez com a qual Haynes navega por entre os bastidores deste espetáculo enquanto subverte a linguagem do gênero, do constrangimento que há em acompanhar a personagem de Portman sendo lentamente sugada para o interior de um labirinto de sorrisos tão falsos que ferem os maxilares enquanto demonstra ser uma mulher igualmente obcecada por aquele que poderia ser o papel de sua vida, da ideia de que esta história possuí um fascínio que não deveria estar lá por ser exatamente como uma fofoca que seria compartilhada a mesa de uma cozinha durante um domingo a tarde enquanto um churrasco de família está acontecendo do lado de fora da casa sem que seja ponderado qualquer dano que tenha sido causado em seus envolvidos.
A obsessão de Elizabeth e a segurança de Gracie de que poderá manter a normalidade – ela tem atuado tão bem como uma dona de casa preocupada com as inúmeras encomendas de bolos de abacaxi que recebe, mãe de três filhos que estão bem encaminhados entre o Ensino Médio e a faculdade, por que este espetáculo de incessante desconforto dentro dos contornos do subúrbio haveria de parar? – levam à sucessivas agressões contra uma vida que não viveu nem metade das experiências fundamentais a construção de uma identidade que poderia ser chamada de sua. Tendo crescido em um lar no qual estava constantemente atuando como o “homem da casa” na ausência de uma figura paternal, Joe assumiu uma série de responsabilidades completamente contrárias com sua idade e o processo de amadurecimento necessário de um garoto de 13 anos à um rapaz na faixa dos 30. Primeiro como um pai de família que ainda estava no Ensino Médio, em seguida como marido de uma mulher cujo passado a perseguiria enquanto permanecessem na cidade, e então como pai de outras duas crianças.
Neste descortinar da realidade provocado pela chegada e pelas constantes idas e vindas de Elizabeth durante a rotina do casal, o longa demonstra possuir uma natureza inteiramente violenta quando foca em lidar com a maior vítima deste escândalo, tanto no passado quanto no presente quando está inserido sob uma ótica desumanizadora de especulação e transformação em espetáculo dentro da indústria: Joe. Cercado por elementos metaforicamente óbvios, como as borboletas que tem cuidado enquanto está em casa, é um personagem que está buscando por aquela liberdade que lhe foi roubada durante a juventude. O despertar de sua percepção para o que realmente lhe aconteceu, saindo deste estado de alienação no qual o encontramos inicialmente, é o último puxão nas cortinas que cercam este teatro, este jogo de manipulações em uma casa de bonecas como a dos Atherton-Yoo.
Embora compartilhe semelhanças que permitam uma ou outra comparação com “Persona”, de 1966, Haynes não demonstra o mesmo nível de interesse no que diz respeito a aprofundar um possível estudo sobre o que psicológico pode revelar sobre estas personagens como Ingmar Bergman fez enquanto dirigia Bibi Andersson e Liv Ullmann como Alma e Elisabet, respectivamente. Seu foco está nas reações, nas explosões de lágrimas e sorrisos falsos. No que o permite desconstruir esta farsa tão cuidadosamente elaborada na qual este subúrbio tem estado imerso desde que aceitou esta família como parte de sua comunidade, nos breves sinais que podem ser captados por parte daqueles que tem atuado de acordo com as manipulações de Gracie, na expressão de falsa ingenuidade daquela que acredita que poderá manter as aparências apesar das intromissões de alguém “enviada” por uma indústria que pretende traduzir em espetáculo seu passado conturbado, na busca por liberdade daquele que começa a gaguejar quando tenta compreender como chegou até este ponto, e na falsa segurança de atriz competente daquela cuja obsessão a leva a borrar os limites entre compreender quem interpretará e absorver o que acredita ser uma identidade.
Nota: 10/10

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