Por Matheus Britto
Em “Vidas Passadas”, da estreante Celine Song, os encontros e desencontros entre dois amigos de infância tem por intenção revelarem mais acerca das nuances do amor do que a possibilidade de alcançarem um final feliz que tenha superado quaisquer obstáculos.
Logo após uma introdução na qual dois personagens não-identificados especulam qual é a relação entre os três observados do outro lado de uma mesa de bar, observamos fragmentos de uma infância na Coreia do Sul. Duas crianças (Moon Seung-ah e Yim Seung-min) compartilhando as experiências comuns aos amadurecimento daqueles que ainda não estão não comandam de como suas vidas seguirão: a ingenuidade de criar uma competição sobre quem conseguirá as melhores notas durante os exames finais, o falatório a caminho de casa. E conscientes deste passado, passamos a observar também o presente, os olhares de felicidade e curiosidade que são compartilhados em um reencontro em Nova York, a dicotomia que surge dentro deste triângulo amoroso.
“Vidas Passadas” segue Na Young (Greta Lee) e Hae Sung (Teo Yoo), dois amigos de infância que foram separados diante da decisão dos pais da garota de emigrarem para os Estados Unidos. A retomada de contato tem início por meio de uma publicação no Facebook, momento este no qual Nora, nome que assumiu após sua chegada a América, descobre que seu melhor amigo a esteve procurando. Entre idas e vindas de uma comunicação limitada às redes sociais e a conciliação de fusos horários, uma nova separação ocorre, ambos concordam em focarem em suas respectivas carreiras. Entretanto, o que os aguarda é um novo reencontro, determinante no que diz respeito a compreensão mútua sobre o que este relacionamento era, o que poderia ter sido, e o que será.
Este é um daqueles romances que ambiciona capturar uma sensação semelhante àquela de uma respiração que permanece presa ao peito por estar acompanhando o reencontro entre Geneviève (Catherine Deneuve) e Guy (Nino Castelnuovo) no posto de gasolina em pleno Natal no decorrer dos minutos finais de “Guarda-Chuvas do Amor (1968)”, de Jacques Demy. Ao passo em que também se assemelha ao trabalho sensível de Richard Linklater em “Antes do Amanhecer (1995)” por focar na inserção destes personagens no processo de estabelecer um novo entendimento entre linguagens moldadas ao longo dos anos. Muito além de apenas reestabelecer o contato, é importante que ambos encontrem um meio termo para conciliarem a linguagem adquirida após as inúmeras experiências de crescimento que não foram compartilhadas.
À este recorte de uma vida comum, inspirado pela ternura e melancolia comuns à muitos dos grandes romances do cinema, Song imprime sua própria sensibilidade, expondo uma realização cinematográfica plausível, e opta por explorar o que está concreto por parte das circunstâncias que sucederão a primeira retomada de contato. Abdicando da máxima clássica sobre um reencontro amoroso entre dois amantes que foram separados pelo tempo e espaço, a prioridade está na tentativa de remexer as nuances de um amor cuja existência dificilmente poderá ser ignorada, mas que permanecerá no passado, pertencente à uma série de conjecturas que poderão ser feitas ao imaginar como esta outra vida poderia ter seguido.
Esta tentativa de explorar um amor que está presente por entre os espaços silenciosos que os personagens estão compartilhando e a decisão de seguir pelo que está concreto na imagem, contudo, descortinam em uma exposição indesejada do jogo que Song elaborou e estava conduzindo entre o que está no cerne desta retomada de contato e o cenário naturalista de “Vidas Passadas”. Os fragmentos do passado, tanto da época na qual eram apenas crianças quanto das semanas em que tentaram estabelecer uma nova comunicação, estabelecem um ritmo que favorece o que está óbvio em relação a impossibilidade amorosa e não a dúvida sobre um possível final feliz entre eles.
Apesar da exposição, a maneira como Song conduz seus atores durante o reencontro decisivo no terceiro ato, quando a impossibilidade amorosa assume de vez como concreta, é o que chama atenção. A liberdade assumida por seus três personagens para lidarem com a dicotomia de um triângulo amoroso destaca o que não estava como prioridade durante a reconstrução de fragmentos do passado: a poeticidade de um relacionamento que, embora tenha sua existência reconhecida, não acontecerá; os múltiplos caminhos que podem ser seguidos em face as novas experiências amorosas adquiridas; como amar pode ser difícil e fácil na mesma intensidade. Uma realização ingênua quanto a enganar seu público, mas que ainda permite à sua realizadora depositar ternura em um adeus que não é definitivo, apenas um passo final na compreensão da relação de Nora e Hae Sung e um novo vislumbre ao futuro.
Nota: 7.0/10

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